quarta-feira, 10 de março de 2010

A medicina na era da informação

Livro “A medicina na era da informação”, publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA), e organizado pelos professores Zeny Duarte e Lúcio Farias, a partir do Colóquio Internacional A Medicina na Era da Informação (Medinfor), que ocorreu em 2008.

Segundo, Editora da Universidade Federal da Bahia UFBA, o livro marca o processo dialógico entre duas áreas de grande significado social, a medicina e a ciência da informação. Ambas se ocupam de importantes desafios científicos, a primeira voltada à luta pela saúde e bem-estar social, e a segunda à sustentabilidade do desenvolvimento da ciência e da cultura, por meio da preservação, organização, disseminação, acesso e uso da informação.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Feliz de ver o Plone se tornando tão importante para a gestão da informação no Brasil

Plone é uma das mais conhecidas ferramentas de gestão de conteúdo. Desenvolvido em software livre desde 2000 é baseado na plataforma python/zope e constitui uma importante base tecnológica para iniciativas pragmáticas de gestão de conhecimento nas organizações. Com o Plone pode-se desenvolver portais corporativos e também portais de internet. Meu site pessoal: www.bax.com.br usa Plone.
Como eu sempre apostei nessa tecnologia, principalmente por seguir de maneira rigorosa a filosofia do software livre, fico feliz de ver o Plone sendo reconhecido no Brasil. Selecionei abaixo três notícias sobre o lançamento do portal.gov.br em tecnologia python/zope/plone. A notícia dada pelo Baguete é a mais completa e informa sobre o valor do projeto no primeiro ano (11 milhões) e também que o portal conta com 800 mil acesso diários, tendo sido desenvolvido por uma equipe de mais de 200 pessoas.

Governo federal reformula portal de internet
iG Tecnologia
A plataforma tecnológica do portal é o Plone, sistema de gerenciamento de conteúdo desenvolvido em regime de código aberto.
Portal Brasil: R$ 11 mi na reformulação
Baguete
O novo portal utiliza o Plone, CMS de código aberto que é utilizado por empresas como eBay e Motorola, além do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, ...
Portal Brasil se reformula para atrair cidadão e projetar País
PC World
O site, que tem como base a ferramenta de código-aberto Zope Plone, também foi desenvolvido para portadores de deficiência física. ...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dado, informação, conhecimento e sabedoria.

Na disciplina Sistemas de Informação fala-se sempre sobre o conceito de pirâmide informacional: "dado, informação, conhecimento explícito, conhecimento tácito (empírico, da experiência),... sabedoria". Sabedoria, i.e. máximo grau de lucidez, no máximo grau de felicidade (cf. alguns filósofos) --, somos capazes? Estaria a humanidade trilhando esse percurso? Seria possível alcançar a sabedoria?
Alguns filósofos disseram e outros ainda dizem que somos capazes, mesmo (principalmente?) sem o apoio da religião, mas talvez não sem antes aprendermos sobre o Amor e assim aprendermos a amar e a amar melhor. "Ciência é conhecimento organizado, sabedoria é vida organizada" (I. Kant). E é preciso ir além da experiência já que "esta não nos ensina sobre as essências das coisas" (B. Spinoza). Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo, vai mais longe: "O Século XXI será o de uma espiritualidade laica ou não será nada". Dados > informação > conhecimento > ..., sim, esse poderia ser o destino do ser humano. Entretanto, se nesse percurso ou evolução, que me parece passar por uma forte humanização da tecnologia (principalmente talvez da tecnologia da informação), pararmos no patamar (ou nível do) conhecimento, e se esse patamar nos bastar, então realmente talvez poderemos não sobrevivamos ao Século XXI. Isso diz muito sobre a premência da ética na ciência hoje. Assim, como Sponville, também acredito que é preciso encontrar uma espiritualidade sem Deus, sem dogmas, sem a Igreja, que nos previna, tanto contra o fanatismo quanto contra o niilismo.
No post Falando de Amor escolhi, para me instruir sobre o tema, as ideias de Sponville que versam sobre a história contada no livro Banquete de Platão - ou, "a propósito do Amor".

O Espírito do Ateísmo de André Comte-Sponville

O próximo livro na fila de minhas leituras é esse do André Comte-Sponville: O Espírito do Ateísmo. Vejamos a dedicatória do autor (tradução minha).
"Por que estou escrevendo este livro? Basicamente, por três razões. A primeira é que por um tempo muito longo eu estive interessado em espiritualidade, e eu quis mostrar que para ateus esta espiritualidade também é importante. Em outras palavras, seria errado pensar que a espiritualidade é para os crentes. Os ateus não se importam menos do que outros. Por que eles teriam menos de vida espiritual? A segunda razão é que eu queria combater o regresso do fundamentalismo,  do obscurantismo e do fanatismo. Terceiro motivo: Eu quis mostrar que nós podemos combater esse fanatismo sem cair no ódio anti-religioso. Eu queria mostrar que ser ateu, não é ter esse ódio da religião, que se trata apenas de viver diferentemente a espiritualidade a partir do ponto de vista de que o conflito não está entre os crentes e incrédulos. O conflito está entre os espíritos livres, mentes abertas, por um lado, tolerantes, acreditem em Deus ou não, e os fanáticos dogmáticos, de outro. Para fazer isso, escrevi três capítulos. O primeiro é intitulado: "Podemos viver sem religião?". O segundo é: "Deus existe?", onde explico por que, de minha parte, eu não acredito. São os meus principais argumentos em favor do ateísmo. Finalmente, o capítulo terceiro e último responde à pergunta: qual espiritualidade para os ateus? Bem, boa leitura, adeus e até breve."

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Uma metodologia de modelagem de processos de negócio orientada à gestão da informação e do conhecimento

Mais um trabalho de mestrado pronto, cujo autor é o Rafael de Oliveira.
Trata-se de uma nova abordagem para modelar processos de negócios que utiliza-se de conceitos bem conhecidos na disciplina Gestão da Informação e do Conhecimento (GIC).
A GIC ganhou importância nas organizações a partir do início da década de 1990. Devido ao crescente aumento da competição entre as empresas, estas buscam o aperfeiçoamento de suas estruturas, a fim de melhorar sua eficiência. No centro dessa questão está a gestão por processos e a melhoria contínua destes. Essa forma de gestão busca alinhar todos os esforços da empresa em torno dos processos de negócio, isto é, grupos de atividades realizadas numa sequência lógica com o objetivo de produzir bens ou serviços.
Segundo essa visão, a GIC deve ser considerada no contexto da gestão por processos e da melhoria da eficiência da estrutura organizacional.
Identifica-se na literatura a integração entre GIC e processos de negócio organizacionais como um paradigma de pesquisa, denominado GIC orientada a processos. Esse paradigma se distingue, por exemplo, da GIC orientada a produtos, que foca na criação e disseminação de artefatos de conhecimento e informação.
Este trabalho avança na solução do problema da integração entre processos de negócio e GIC, usando a Modelagem de Processos de Negócio (MPN) como ponto de partida. A MPN permite formalizar processos de negócio e o contexto onde ocorrem. O produto da atividade de MPN é um modelo de negócio, isto é, uma abstração de como um negócio funciona.
O Rafael desenvolveu uma metodologia de MPN orientada à GIC. A metodologia é uma extensão da abordagem de Erikson e Penker para MPN. Um modelo teórico de GIC foi elaborado para fundamentar a metodologia de modelagem. A metodologia é composta por: um conjunto de construtos básicos para MPN orientada à GIC; um conjunto de diagramas e submodelos, formando uma perspectiva de modelagem; padrões de modelagem relacionados à GIC; explicações sobre como modelar aspectos de GIC que não possuem mapeamento direto para construtos da linguagem de modelagem. Um conjunto de exemplos demonstra os elementos da metodologia.
Conclui-se, através da avaliação da metodologia desenvolvida, que esta possui vantagens em relação às abordagens existentes.
Em breve colocaremos neste post um link para o trabalho do Rafael.

O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Compartilho aqui uma resenha bem feita sobre um livro que está sempre por perto: "O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", de André Comte-Sponville. Comte-Sponville é ateu e materialista e existem várias palestras dele na Web, pena que estão todas em francês, sem legenda ainda.

Em seu trabalho filosófico, Sponville nos mostra um cominho de salvação pela desesperança, eis a sua principal obra filosófica. E eu a acho bem sedutora. A desesperança de que ele fala não é aquela que nos vem à mente a priori, no sentido negativo e mais comum do termo...
ele fala da desesperança no sentido do "não esperar", ou seja, de não ficar amando apenas aquilo que nos falta.

A desesperança aqui é tomada no sentido Spinozista, onde o Amor não é falta. Como ele diz no livro citado anteriormente: "aqui é preciso deixar Platão e buscar Spinoza". Em Spinoza a equação de Platão: "Amor = Desejo = Falta", vira: "Amor = Desejo = Potência".
Ou seja, Amor é igual a desejo, mas desejo não é falta, e sim potência. Assim o Amor é felicidade, i.e., a potência ou capacidade de amar.
Amar como uma "ação" e não como uma "paixão". Dito de outra forma: Amar ativamente, realizando aquilo que depende de nós e não esperar, sofrendo (paixão), por aquilo que não depende de nós.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Banquete de Platão - ou "a propósito do Amor".

Falando de Amor, vamos iniciar pela história contada no livro Banquete de Platão - ou, "a propósito do Amor".

Amor. Que tema é esse senão o mais importante de todos? com efeito o Amor é o mais importante dos temas. Os outros só são impotantes na medida do amor que atribuimos a eles. Gosto de falar do trabalho se amo meu trabalho, gosto de falar de esportes se amo esportes. Em "O Banquete" Platão fala através de vários discursos. Cada convidado diz o que pensa sobre o Amor. Os convidados ao Banquete partilham o tema que mais importa: o Amor.

No Banquete, o Amor de Aristophane, um dos convivas, é explicado pelo mito dos ancestrais andróginos da raça humana. O mito diz que os humanos eram seres diferentes daqueles de hoje; eram seres com duas cabeças, quatro braços etc. e dois sexos. Alguns possuiam dois sexos masculinos, outros um masculido e outro feminino, outros ainda com dois sexos femininos. Esses seres, em sua completeza potente, principalmente daqueles que possuiam dois sexos masculinos, tentam subir aos ceus e ameaçar os deuses. Zeus se enfurece então e manda cortá-los ao meio, como penalidade por terem pensado poder se aproximar dos deuses. Cortados, separados, sentiam falta de sua outra metade. Esse mito simboliza o amor ideal, aquele que busca a sua outra "metade", a outra metade de cada um... Por aí Aristophane diz que o Amor é o encontro de dois seres que, separados à força no passado, se tornam um novamente, fundidos pelo Amor. Amor como fusão. Fusão de seres que eram unos e que, atrozmente, no tempo, foram separados pelos deuses. É curioso que este tenha sido, dentre todos, o discurso que a tradição mais reteve. É o Amor compreendido como Amor Romântico, o amor ideal, com o qual todos nós sonhamos, principalmente na juventude. Esse é o Amor conforme o discurso de Aritophane, nas palavras de Platão em "O Banquete".

Mas há também o discurso de Sócrates, menos lembrado no tempo, mas também presente no livro em questão. Sócrates inicia por uma pergunta: seria o Amor esse ideal de perfeição de Aritophane? seria o Amor um Deus? Ele conta então aos convivas que teria aprendido de uma sábia mulher (chamada Diotime) que o Amor não é nem um deus nem homem. São palavras que Platão, autor do livro, coloca na boca de Socrates. Segundo Diotime o Amor seria mais como um intermediário, ou seja, um "deamon" (nada a ver com demônio) que transmite mensagens entre humanos e deuses.

Não um deus, porque para Socrates, a equação que explica o Amor é: Amor = desejo = falta. Amamos o que nos falta... a falta gera o desejo, que gera o amor, pela coisa que nos falta. Como pode um Deus sentir falta de algo? definitivamente, o Amor não é um deus. Não pode ser. Falta; sentimento demasiado humano: "Ah como eu seria feliz se ela me amasse, ele diz a si mesmo, se ela fosse minha". Mas e se ele fosse, ou estivesse, feliz? ele não a amaria mais, ou não seria o mesmo tipo de amor. Trata-se aqui não do Amor idealizado por Aristophane, mas do Amor como desejo e como falta. Nas palavras de Aritofane e Sócrates aparece o Amor Platônico então: do ideal primeiro da fusão, depois necessariamente à falta, Eros... o amor possessivo. Amor pelo outro ou amor por sí próprio? A paixão... mas há a vida e há o tempo, e no momento faltal o marido vilão mata o príncipe encantado, como na música de Claude Nougaro: "... Et le moment fatal où le vilain mari tue le prince charmant..." (http://tinyurl.com/yel2not).

Existiria uma saída para esse Amor?
André Comte-Sponville, no seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (aqui está uma boa resenha), nos ensina que Platão, no Banquete, sugere duas saídas. Entrentanto, segundo Sponville, nenhuma das duas nos salva de nossa dificultosa vida amorosa. O que é amar? É ter falta daquilo que amamos e desejar o possuir, e para sempre. Pelo que o Amor é egoísta, ao menos esse Amor, Eros. Sempre buscando fora de si mesmo, do seu interior, amor extásico (extático?): a éxtase de si no outro.
Mas como possuir para sempre, se há a morte. E amar o quê, se só amamos na falta?

Ainda seguindo Sponville, Platão propõe então "a concepção/gestão (l'enfantement) no belo", através do corpo ou através do espírito. Dito de outra forma: pela criação e pela procriação, pela arte e pela família. "A natureza mortal procurará sempre a sua perpetuação, eternidade, imortalidade". O amor é a própia vida, mas apenas na perpétua falta de si mesma. Assim o amor não escapa à falta absoluta que na condição de gerar filhos ou obras de arte. Filhos... e chamamos família, procriação (criação pelo corpo). Arte... e chamamos criação (pelo espírito).
Para Sponville é talvez uma saída, mas não a salvação, a morte ainda espreita, que leva nossos filhos e nossas obras. Mas e se a família não bastar para salvar o amor, o casal o fará? não é o mais frequente, como todos nós sabemos. Quanto à criação, como pode esta salvar o amor se dele depende? e mesmo se não dependesse?

Lendo Sponville aprendemos que Platão sugere, então, outra saída: a ascenção espiritual por uma espécie de percurso "iniciático" que nos levaria à salvação. É o percurso do Amor e da salvação pelo Belo. Seguir o caminho do Amor, sem se perder nele, sem se prender nele: primeiro amar um corpo belo, por sua beleza, depois todos os corpos belos, pela sua beleza em comum, depois a beleza das almas, em seguida a beleza que está nas ações, a beleza das ciências e da filosofia ... enfim, a beleza absoluta, eterna, sobrenatual, aquela do Belo em si, que existe nele mesmo, para ele mesmo, a que todas as coisas belas participam, de onde elas possuem e recebem sua beleza... Sponville nos diz que este é o lugar onde o Amor nos leva, que nos salva e que o salva. Assim o Amor é salvo pela religião, eis o segredo de Platão.
Sempre tendendo para aquilo que nos falta mais: que é o Bem (manifestado pelo Belo), a transcendência, que é Deus, para enfim saciado, enfim calmo, enfim morto e feliz.
Aqui os míticos dirão: "não há nada além de Deus". Mas se o Amor não é um Deus, ou se Deus não é Amor, para quê Deus?

Como explica Sponville, aqui é preciso deixar Platão. No Banquele ele nos leva do sonho da fusão (Aristophane), à experiência da falta (Socrates), depois, e da falta à transcendência (Diotime). Paramos aí? somos capazes?, conseguimos mesmo crer? podemos aceitar? Os cristãos dirão SIM, sem dúvida, e vários passarão da "agua de rosas" à "agua benta", como diz Comte-Sponville. Nem todos entretanto... não os amantes que elaboram certamente, pois esses sabem que precisam salvar o amor. O amor neles, para eles, Deus não o fará por eles. De que vale a fé, se não sabemos amar? Para que ela serve se sabemos?
Mas a verdade é que não sabemos, claro. E é o que tantos casais não cessam de experimentar, dolorosamente, dificilmente. Que os condena à separação ou que a justifica. "Como amar sem aprender e como aprender sem amar?"

Claro, existem outros tipos de amor. Mas esse é o mais forte, o mais violento, o mais rico em sofrimento, em ilusões e desilusões... Eros é o nome desse amor. "A falta é a sua essência, a paixão o seu pico" (Sponville). Falta, sofrimento, posseção: "Eu te amo, eu te quero". Amor concupiscente, mal de amor. Sentimento possessivo, ávido, que ao invés de se regozijar na felicidade do outro, sofre atrozmente assim que tal felicidade o leva para longe. É amar o outro para seu próprio bem a si mesmo.

Nada a ver com virtude, muito mais com raiva. "Você ainda me ama?", e se responde: sim claro. A verdade é que o ser amado não lhe falta mais. Eros se acalma, se entedia. Tem-se o que faltava, e a isso Sponville e todos nós chamanos: o "casal". Mas há casais felizes e Platão não explica. Afinal, a felicidade não põe fim à paixão? a paixão só dura no sofrimento. O Amor romântico: obseção pelo sofrimento. "Vitória da paixão sobre o desejo/ação, da morte sobre a vida". Romeu e Julieta, Anna Karenina, Tristão e Isolda, apenas para falar desse amor na grandeza... mas quantas Mme Bovary para cada Isolda? Claro que o tédio vem facilmente no dia-a-dia do casal, e de forma bem mais corriqueira, pequena.
Mas seria esse o único tipo de Amor de que somos capazes? No seu livro "O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", Sponville descreve de forma bela as virtudes... mas que virtude é essa que nos leva ou ao sofrimento ou a religião? No próximo post quero falar sobre o Amor Philia (que vai além do Amor Eros, e aquém do Amor Agapè), ainda seguindo as palavras do Mestre Sponville.
Até lá, enquanto não encontro tempo, compartilho já aqui uma resenha muito bem feita sobre esse livro que procuro manter sempre por perto.