Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder...
"
Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)

sábado, 23 de maio de 2020

Por que ontologias?

Em resumo, uma ontologia é a especificação de uma conceituação. O que isso significa da perspectiva das ciências da informação? Definição da Wikipedia: "nomeação formal e definição dos tipos, propriedades e inter-relações das entidades que existem no Real ou fundamentalmente em um domínio específico do discurso". 
Isso basicamente significa, como todos os modelos, que é uma representação do que "realmente" existe na realidade. Um modelo estatístico ou matemático tenta representar algum comportamento em termos de uma fórmula estatística ou matemática. 
A equação mostrada na figura abaixo é do US Census Bureau e modela a distribuição de renda nos Estados Unidos para pessoas que ganham US$100.000 por ano ou menos:
O diagrama Entity Relationship (ER) abaixo é um modelo que representa um objeto JavaScript Object Notation (JSON) que mostra as entidades Usuário, Amigos, Negócios, Bairros, juntamente com relacionamentos entre si. 
Isso é mais uma representação lógica, mas descreve dados que realmente existem, material ou conceitualmente, dentro deste objeto JSON.

Modelo Lógico JSON ER
Uma ontologia fornece praticamente as mesmas informações, exceto que um modelo de dados está especificamente relacionado apenas aos dados. 
O modelo de dados fornece entidades que se tornarão tabelas em um Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados Relacional (SGBD), e os atributos se tornarão colunas com tipos e restrições de dados específicos, e os relacionamentos identificarão restrições de chave estrangeira. 
O que um modelo de dados não fornece é uma definição interpretável por máquina do vocabulário em um domínio específico. Os Modelos de Dados não conterão o vocabulário que define todo o domínio, mas o dicionário de dados conterá informações sobre as entidades e atributos associados a um elemento de dados específico. É aqui que as ontologias entram.
A figura a seguir mostra a ontologia Friends Of A Friend (FOAF) carregada no aplicativo Protégé (editor de ontologia de código aberto e um sistema de gerenciamento de conhecimento criado pela Universidade de Stanford):
Ontologia FOAF carregada no Protege
A ontologia FOAF é uma ontologia de código aberto usada para trocar informações sobre pessoas, suas atividades e relacionamentos com outras pessoas e objetos. 
Uma ontologia consiste em classes organizadas hierarquicamente em uma taxonomia de subclasse-superclasse, propriedades com descrições que definem restrições de valor e valores para essas propriedades. 
Uma base de conhecimento é definida quando a ontologia é concluída e quando instâncias individuais desses elementos (classes e propriedades) são definidas juntamente com restrições adicionadas ou refinadas.
Por exemplo, a classe Pessoa inclui todas as pessoas e uma pessoa específica é uma instância desta classe. 
A maioria das ontologias está focada em classes de coisas, e essas classes podem ser divididas em subclasses de coisas. Por exemplo, Pessoa pode ser subclassificada por Gênero, Etnia, Raça ou País de Cidadania. Definir domínios em termos de ontologias legíveis por máquina permitirá a troca livre de informações e conhecimentos.


Então, por que precisamos de ontologias e qual é o significado delas?

Ontologias permitem o compartilhamento de informações entre sistemas diferentes dentro do mesmo domínio. Existem inúmeras  ontologias disponíveis gratuitamente  em várias indústrias. Ontologias são uma maneira de padronizar o vocabulário em um domínio. 
Por exemplo, a palavra "profissional" terá o mesmo significado em um sistema de saúde que em outro. Da mesma forma, a "especialidade" do profissional terá o mesmo atributo e terá o mesmo significado nos dois sites. Essa padronização permite mais flexibilidade e o desenvolvimento mais rápido de aplicativos e o compartilhamento de informações.
Ontologias são usadas em muitas disciplinas, mas são mais comumente associadas a aplicativos de Inteligência Artificial (AI) e possivelmente Processamento de Linguagem Natural (PNL). No entanto, uma aplicação menos provável de ontologias e uma área de interesse para mim são os sistemas de integração de dados e gerenciamento de conhecimento.
Então, por que ontologias não têm sido uma palavra tão popular quanto Hadoop, Spark e Big Data? 
As tecnologias se expandem nas áreas que podem e onde há mercado, não necessariamente nas áreas mais necessárias. As ontologias não se prestam a aplicativos de nível corporativo, e o desenvolvimento de múltiplas ontologias não é tão empolgante. 
Por um lado, requer cooperação entre grupos dentro de um domínio para padronizar uma ontologia comum de comunicação. O setor financeiro fez uma tentativa com o desenvolvimento da Ontologia de Negócios da Indústria Financeira (FIBO), mas sua adoção foi lenta. Uma razão para isso é que o poder das ontologias não é bem compreendido.
Para dar o próximo salto no avanço da tecnologia, será necessário um software maduro, capaz de ingerir, entender, analisar e apresentar resultados interpretáveis ​​rapidamente; é aqui que entram as ontologias. Na minha opinião, as ontologias serão o facilitador da próxima geração de tecnologias disruptivas.

Aplicações de Inteligência Artificial e Processamento de Linguagem Natural:

Sistemas de reconhecimento de voz como o Amazon, Echo, Apple, Siri e Google Home são tecnologias muito sofisticadas, mas ao mesmo tempo imaturas. Não é pela falta de velocidade de processamento de hardware que rimos ou ficamos frustrados ao fazer uma pergunta simples a um desses dispositivos, apenas para receber alguma resposta sem sentido. 
Somos capazes de escrever o código para responder às perguntas corretamente, se tivermos as informações necessárias para interpretar adequadamente a pergunta.
Os computadores são bons em computação, mas não tão bons em processamento cognitivo. Os computadores lutam com a dificuldade inerente para executar tarefas semelhantes às humanas que estes consideram triviais. Essas tarefas humanas parecem muito simples, mas na verdade são bastante difíceis de imitar em um computador. 
O Watson da IBM é provavelmente o mais avançado nessas áreas, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Quando um humano vê uma foto de um gato, identificamos imediatamente a figura como sendo um gato. Quando perguntados "O que posso fazer para melhorar meu resfriado?", Entendemos imediatamente que a palavra "resfriado" nesse contexto se refere a uma doença viral comum. Faça a Siri a mesma pergunta e ela abrirá uma página da Wikipedia explicando "frio" no sentido de temperatura. 
No entanto, se você digitar uma pesquisa no Google para a mesma pergunta, obtém algo mais compatível com o que seria esperado (mais informações na pesquisa no Google abaixo).
Examinando a palavra "frio" como adjetivo no Wordnet, você verá que ele tem treze sentidos diferentes como adjetivo, mas apenas três como substantivo; tudo, desde "um clima frio" (frio versus calor) até "frio no túmulo" (sem o calor da vida) e "eles nunca encontrarão uma cura para o resfriado comum?" (uma infecção viral leve envolvendo o nariz e as vias respiratórias, mas não os pulmões). 
Na lingüística, isso é chamado de polissemia, ou a coexistência de possíveis significados para uma palavra/termo ou frase. Portanto, para aplicativos de Inteligência Artificial (AI) e Processamento de Linguagem Natural (PNL), as ontologias são um componente crítico.


Aplicativos de integração de dados e gerenciamento de conhecimento:

No entanto, existem outras aplicações de ontologia que eu acho igualmente interessantes, e elas estão na área de integração de dados e gerenciamento de conhecimento. 
O vídeo abaixo explica o Knowledge Graph do Google de maneira competente.

Um componente crítico da IA, PNL, integração de dados, gerenciamento de conhecimento e outras aplicações é o desenvolvimento de ontologias. 
Felizmente, a partir da discussão acima e com alguma ajuda do Google, você entende melhor meu interesse nessa área. As ontologias são específicas de um domínio de conhecimento, definem esse domínio com palavras que definem entidades/conceitos, relacionamentos entre essas entidades e os atributos/propriedades associados a essa entidade, e apresentam esse material em um formato legível por máquina.
Quanto à integração de dados e ontologias, há vários artigos aos quais eu poderia direcioná-lo, para uma discussão mais aprofundada sobre o tópico. 
Um em particular, "Really, Really Big Data: NASA at the Forefront of Analytics ", de Seth Earley, detalha como a NASA usou ontologias para definir os conjuntos de dados em termos que poderiam ser interpretados permitindo a integração com conjuntos de dados externos.
Como pesquisador e arquiteto de software/dados/informação/conhecimento, trabalhei em vários setores e em cada um deles existe o mesmo problema, silos de dados isolados. 
Os dados não são facilmente compartilháveis ​​nesses silos - a integração horizontal de dados é difícil, se não impossível. 
Os dados bancários são isolados dos dados de seguro, os registros médicos são isolados do faturamento e de outros dados sobre reclamações, a logística é isolada das operações e assim por diante. Este não é um problema comum, e existe uma cura e, novamente, na minha opinião, ontologias fornecerão a solução.
Temos plataformas de Big Data executando o Hadoop e temos vários componentes como MapReduce, Spark, Mahout, H2O Sparkling Water e Kafka que nos permitem acessar e analisar esses dados, mas ainda resta o fato de que você deve conhecer os dados antes de poder analisá-los. As ontologias fornecem um mecanismo para a rápida ingestão de dados de um Data Lake, bem como sua compreensão (significado, semântica).
Assim, como o hardware que avança mais rápido do que o software pode explorar seu poder, a capacidade de gerenciar Big Data e fornecer soluções analíticas chegou antes de nossa capacidade de entender e ingerir dados rapidamente. 

Seja esquema-na-leitura ou na gravação (schema-on-read ou schema-on-write), você deve conhecer seus dados. Compreender dados é uma tarefa complicada e demorada
O desenvolvimento de ontologias nos ajudará a entender mais rapidamente um domínio e a acelerar o processo evolutivo do conhecimento neste domínio.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

la imaginación

"Albert Einstein decía que la imaginación es más poderosa que el conocimiento. Pero quiero redefinir la imaginación, porque muchas veces se asocia a cuentos de hadas, fantasías... El tipo de imaginación al que me refiero sirve para que las personas creen un ideal, o una visión, que les ayudará a llegar a un determinado destino. Se trata de preguntarles qué es lo que quieren en su vida. En el momento en que empiezan a pensar en eso –una nueva posibilidad, una nueva realidad– el lóbulo frontal de su cerebro selecciona diferentes redes neuronales, cosas aprendidas o experimentadas en sus vidas. Y de alguna forma las conjuga en nuevo tapiz y crea algo nuevo.

Si la persona puede empezar a imaginarse escogiendo nuevas opciones en su vida, llegando a unas nuevas metas y experiencias, lo que nos enseña la investigación es que, al recrearlo mentalmente, están preparando su cerebro para que parezca como si la experiencia ya hubiera tenido lugar. Y si puede conjugar su intención con una emoción elevada como la alegría, la gratitud, el aprecio o la inspiración, su cuerpo empieza a creer que está viviendo esa realidad futura. Está señalando nuevos genes para adaptarse a la experiencia que aún no ha ocurrido.

Tendremos que practicar muchos días hasta que empecemos a crear circuitos en el cerebro y programar nuevos genes. Nuestros estudiantes, que llevan a cabo esta práctica regularmente, están logrando cambios significativos en su salud y en su vida.

La mayor parte del tiempo nuestras emociones están conducidas por las hormonas del estrés. Las hormonas que existen debajo del corazón, las glándulas digestivas, las glándulas sexuales, todas son centros importantes que guardan relación con la supervivencia. Las emociones centrales, del corazón, están relacionadas con la creación. Cuando estás viviendo solo para sobrevivir, tiendes a centrarte en lo que te es conocido. Cuando vives en la creación, sin estrés, te centras en nuevas posibilidades.

Para que las personas acepten los pensamientos de una nueva vida, tienen que cambiar el estado emocional del cuerpo. Los pensamientos son el lenguaje del cerebro, y los sentimientos, el lenguaje del cuerpo. Cómo piensas y cómo sientes crea un estado del ser. Así pues, las emociones elevadas son lo que nos saca de nuestro estado de supervivencia. No podemos crear otra realidad desde el estado de supervivencia. Se trata de cultivar nuestra apertura hacia lo desconocido. De abrirnos a los pensamientos nuevos que empezarán a crear un nuevo destino."

Fragmentos de entrevista a Joe Dispenza.

Carmen Guerrero | agosto 19, 2016 às 9:04 am | URL: http://wp.me/p3Y4FL-1yp
http://planosinfin.com/nuevos-pensamientos-crean-nuevo-destino-joe-dispenza/

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Sabedoria

Para mim sabedoria é o ideal de uma vida bem-sucedida. Um estado de espírito em que se experimenta um máximo de plenitude -- não por ter sido bem-sucedido na vida, o que seria mero carreirismo, mas por ter tornado mais plena a sua vida ela própria. É o objetivo, desde os Gregos, da filosofia. Contudo, trata-se de um ideal do qual importa também liberar-se. A sabedoria não liga para bem-suceder seja lá o que for: a vida do sábio não lhe importa mais, nem menos, do que a vida do outro. Ele se contenta de vivê-la, e encontra nisso um contentamento suficiente, que é a única sabedoria verdadeira. O sábio não espera que a vida lhe seja amável (fácil, agradável, bem-sucedida...) para amá-la. Questão de temperamento? questão de doutrina? Sem dúvida um pouco dos dois. Se é mais ou menos dotado para a vida, mais ou menos sábio; os que são menos, e sei do que falo, têm então necessidade de filosofar mais que outros. Mas ninguém é sábio absolutamente, nem plenamente, todos têm necessidade de filosofar, nem que seja para libertar-se da filosofia. Sabedoria? Com certeza, pois atingi-la é parar de crer nela. Uma pedra ou um virus bastam para tornar o mais sábio dos homens um louco; ou um sofrimento mais forte que outros ou que sua própria sabedoria. O sábio aceita isso de ante-mão. Suas falhas não são menos verdadeiras do que seus sucessos. Por que seriam menos sábias? A sabedoria não é um seguro total, nem uma panaceia, ou obra de arte. É um certo descansar, mas alegre e livre, na verdade. Um saber? tal é com efeito o sentido da palavra para os Gregos (sophia) como para os latinos (sapientia). Mas é um saber bem particular. "A sabedoria não pode ser nem uma ciência nem uma técnica", dizia Aristóteles: ela tem menos a ver com o que é verdadeiro ou eficaz do que com o que é bom, para si e para os outros. Um saber? Certamente. Mas um saber-viver.
   Os Gregos distinguiam a sabedoria teórica ou contemplativa (sophia) da sabedoria prática (phronèsis). Mas uma não existe sem a outra; a verdadeira sabedoria seria a conjunção das duas. Ela se faz reconhecer graças a uma certa serenidade, mais ainda a uma certa alegria, a uma certa liberdade, a um certo amor, a uma certa eternidade (o sábio vive no presente: ele sente e experimenta, como dizia Espinosa, que é eterno)... "De todos os bens que a sabedoria nos proporciona para a felicidade, sublinhava Epicuro, a amizade é de longe o maior" (Maximes capitales, XXVII). É que o amor-próprio cessou de ser obstáculo. Que o medo e a falta cessaram de ser obstáculos. Resta apenas a alegria de conhecer: restam apenas o amor e a verdade. Todos temos momentos de sabedoria: são aqueles quando o amor e a verdade nos parecem suficientes. Todos temos momentos de loucura: aqueles que experimentamos longe do amor e da verdade. A verdadeira sabedoria não é um ideal; é um estado, sempre aproximativo, sempre instável (ele só é eterno, como o amor, enquanto dura), é uma experiência, é um ato. Não é um absoluto, mas é um máximo (e como tal relativo): é o máximo de bem-estar vivido no máximo de lucidez. Ela depende da situação tal ou qual, das capacidades de tal ou qual, enfim do estado do mundo e da pessoa. Não é um absoluto, é a forma sempre relativa, de habitar o real, que é o único absoluto verdadeiro. Essa sabedoria parece melhor do que todos os escritos já produzidos sobre ela, que arriscam dela nos separar. A cada um de criar a sua. "Mesmo que possamos ser sabedores do saber do outro, sábios nós podemos ser apenas da nossa própria sabedoria." (Ensaios, I, 25).  (Texto inspirado do verbete "Sagesse" do Dictionnaire Philosophique, 2001, de André Comte-Sponville).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A falta inexorável do homem...

A experiência humana não cabe na linguagem descritiva, pois esta última trai a densidade, a fecundidade de experiências que nos leva para além da dor de existir e, ao mesmo tempo, se saber mortal.

Precisamos da poesia e da mística para irmos ao encontro da situação humana. Falar do sofrimento, da dor, da paixão em linguagem descritiva, em geral nos faz cair na banalidade.

O experiencial que é ambivalente não se deixa capturar por meras palavras. Para nos aproximarmos da profundidade da experiência dos afetos, no sentido de Espinoza, temos a razão como ensina o filósofo.

Porém na condição de humanos sentimos que algo para além do racional teórico nos chama.

A razão pode ser vista como um fenômeno multi-facetado, tem-se a razão teórica, a razão prática e a razão estética. Essa última, a razão estética só se experimenta e se desenvolve mais profundamente através da poética e da mística.

A paixão, a experiência amorosa, de alguém ou por alguém, que fazendo a nossa experiência nos revela os sentidos da vida. Padecimento, dor, miséria... e no meio deles, então, podemos descobrir a glória, podemos confrontar a nossa paixão à luz da paixão de cristo.

O Relativismo é um Niilismo? Esboço de uma Ética para o Pós-humano.

[ Texto lido no evento:  X SIMPÓSIO INTERNACIONAL FILOSÓFICO-TEOLÓGICO – FAJE
     em 25 de setembro de 2014
 ] 

Uma ressalva inicial necessária:
vou expressar aqui um ponto de vista que certamente não faz, de nenhuma forma, jus à história da reflexão filosófica sobre o tema. Seria muita pretensão, e de toda forma algo não factível, dadas as minhas limitações teóricas. Pois, embora reserve um grande interesse pela filosofia, ainda tenho pouca base formal no campo.
Minha trajetória acadêmica se deu, até aqui, nas área da Ciência da Computação, da Informação, do Conhecimento e da Gestão. Me interesso sobretudo por teorias que procuram dar conta do impacto da TI nas organizações e no indivíduo: i.e., pela análise das implicações da introdução progressiva de componentes, entidades, ou melhor: “atores” não-humanos - vistos como artefatos tecnológicos, não apenas passivos mas ativos -, que “estendem” as capacidades de produção e criação, em nossas vidas e nas organizações e grupos sociais.
Para além da produção e da criação, a Tecnologia da Informação afeta questões comuns, tais como proteção de direitos autorais, liberdade intelectual, responsabilidade, privacidade e segurança. Muitas dessas questões são difíceis ou impossíveis de resolver. 

Vamos ao tema do artigo:
Que ética para o século XXI? Que ética para o pós-humano? Com efeito, a pergunta da filosofia, que mais importa, é:  Como viver?”. Como viver no século XXI? 


O artigo apresenta duas éticas absolutistas e uma relativista.
As duas primeiras postulam absolutos metafísicos, que fundamentam a moral; uma é transcendente, a outra é transcendente também, mas na imanência. Uma fundamenta seus valores na existência de um Deus, a outra no Homem-Deus.
A essas duas éticas (transcendente e transcendente mas imanente), contraponho, no artigo, a ética relativista. Ou seja, uma ética sem fundamentos. Não há valor absoluto nesta ética. Todos os valores são relativos. Uma objeção, entretanto, sempre aparece: se tudo vale nessa ética relativista, não há nenhum valor absoluto, então se tudo vale é porque nada vale!

Procederei em dois tempos:
(1) num primeiro momento trato da questão “que fundamento para a moral?”
(2) em segundo momento, argumento que o relativismo não é um niilismo. Mas é sim, uma ética que habita uma terceira via entre, de um lado, o dogmatismo, e de outro, o niilismo.
No Brasil de hoje, em que prepondera o niilismo político: “descrença em tudo o que é político”; e também o niilismo moral: “cada um que salve o seu!”, o relativismo me parece uma via do meio, um antídoto contra o dogmatismo e o niilismo.


PARTE I  -  que fundamento para a moral?

Humanismo
Genericamente, o humanismo é entendido como uma corrente intelectual do renascimento, fundada no estudo das humanidades grega e latina que vai adotar certa valorização do homem, ao final da chamada idade média.
Em filosofia ser humanista é considerar a humanidade como um valor, ou até um valor supremo.
Ou seja, tem-se duas possibilidades: (1) esse valor poderá ser considerado um valor absoluto, que se deixa conhecer, reconhecer e contemplar; ou (2) esse valor poderá ser relativo. Relativo a que? Relativo à história e aos desejos dos homens (nossa história e nossos desejos), ou seja, relativa à uma certa sociedade ou civilização...
No primeiro caso tem-se o chamado humanismo teórico, o qual pode até ser metafísico ou transcendental, mas tende sempre a se tornar uma espécie de religião do homem (ver: O Homem-Deus, do filósofo Luc Ferry).
No segundo caso, trata-se de humanismo prático, que não reconhece nesse valor do humano nenhum absoluto, nenhuma transcendência. E não é mais que uma moral, ou um guia para a ação.
            No primeiro caso tem-se uma fé: fé no humano.
No segundo caso tem-se uma fidelidade: fidelidade aos valores humanos.

Embora semelhantes, essas duas posições: o humanismo teórico e o humanismo prático são bem diferentes. Postular um anti-humanismo teórico, em minha opinião, ajuda a não se correr o risco de, inadvertidamente, cair-se num não-humanismo prático.
Ora, o não-humanismo prático é a própria barbárie, ou do integrismo, ou de uma espécie de niilismo: que é ausência completa de todo e qualquer valor.
            Depois do estruturalismo francês, o humanismo prático é o humanismo que resta disponível. Ele diz respeito não ao que sabemos do homem, mas ao que queremos para ele (que ele continue humano, no sentido normativo). Não há mais sujeito de sentido – nem Deus, nem homem –, todo sentido é reduzível a algo que em última análise não tem sentido. Como mostrou Lévi-Strauss (em um diálogo com Ricoeur, 1963): só há sentido “na posição” (da estrutura), ou seja, “o sentido resulta sempre da combinação de elementos que não são eles mesmos significativos”.
           

Resposta possível à barbárie (o não-humanismo prático)
Trata-se de questão muito abstrata me dirão alguns! Observação que se pode responder apontando para as discórdias atuais e perenes no oriente médio. As lutas e gestos bárbaros que assistimos em pleno século XXI são uma constatação concreta de um cenário abjeto e nada abstrato. No Brasil temos o niilismo político, todo político é corrupto (o que só beneficia os corruptos), apregoado pela grande mídia. 
No caso do oriente médio, tem-se alí um foco que pode evoluir ou não para um fanatismo bárbaro bem mais amplo, como todos aceitam. Naquela região vive-se sob as leis de fanatismos que seguem os mandamentos de um suposto Deus metafísico, que julga “lá de cima” a humanidade.

Ou seja, postulo no artigo, um anti-humanismo teórico como salvaguarda da possibilidade de cair num não-humanismo prático. Com efeito, acredito que esta posição (a de um anti-humanismo teórico) seria a de um humanismo mais engajado, menos idealista e mais mobilizador.
Nesse posicionamento (de um anti-humanismo teórico), os postulados “Ama a Deus sobre todas as coisas” (das religiões monoteístas do livro) ou “Ama o Homem sobre todas as coisas (como um absoluto, como um Homem-Deus)”, tornam-se então o postulado: “Ama a verdade sobre todas as coisas (e isso aceitando também que nunca a alcançaremos absolutamente, totalmente)”. 
Porém esse posicionamento deve aceitar que, embora exista como absoluto, a verdade não é um Deus, ou seja, ela não julga!

Resumindo, postulo um “anti-humanismo teórico” porque não aceito que o humano funda a moral humana (se fundasse então teríamos um humanismo teórico). Se aceitamos que o humano não funda a moral, então temos um anti-humanismo teórico


Então o que funda a moral? 
Deus seria um fundamento possível para a moral, mas não buscamos um fundamento possível (o que seria, no limite, uma contradição "nos termos”, como o “quente-frio”, p.ex.). Buscamos sim um fundamento cognoscível ("conhecível").  
Deus fundaria a moral, como a conjunção possível entre a verdade e o bem (Deus faz nossos valores serem não apenas os “bons valores”, mas os “valores verdadeiros”. E nesse caso é preciso postular a existência do bem como um absoluto (o que equivale a hypostasiar o bem como um Bem, com “B” maiúsculo), o que é problemático por várias razões, mas sobretudo diante de tanto mau (ou sofrimento que há no universo). É porque o Bem não existe, absolutamente, ou seja, não existe por si como uma verdade, que é nosso dever lutar para que ele valha, para nós, na medida em que o amarmos.

A verdade, por ela só, poderia fundar a moral? Considero que a verdade é um absoluto, mas ela não julga. Então, por consequência, não pode fundar, já que todo fundamento é “de direito” (e não “de fato”), no sentido de que um fundamento garantiria o "valor de um valor”. 

Nesse cenário, onde não se reconhece o Bem absoluto e a verdade não julga. Então toda moral só pode ser autônoma, imanente, e desprovida de um fundamento. Uma moral não pode ser transcendente, nem fundada. O que não a impede de existir, por suas origens.
O que não a impede, inclusive, de ser heterônoma, pois a moral é do indivíduo, mas também do grupo social a que pertence tal indivíduo.
Ou seja, se a moral não tem um fundamento crível, ela tem, entretanto, origens. E são várias origens: a vida, a razão, a sociedade, a história. Todas essas “coisas” juntas têm como consequência a universalização da moral, mas não a sua absolutização. 

Toda moral é, logo, relativa ao indivíduo, ou à um grupo de indivíduos, uma sociedade (a moral vivida em grupo é o que se chama política).

Que espiritualidade?
Para um filósofo, mas para um crente também, “acreditar em Deus”, pode ser considerado como “acreditar na verdade”. Qual é a diferença?
A diferença é que o filósofo admite sempre que a verdade não julga, e não pode julgar. Que a verdade está para além do bem e do mal, ou para aquém do bem e do mal (como eu preferiria dizer).

O filósofo fala então da verdade. Mas ela não é um Deus. Não é também o homem-Deus do humanismo teórico.
Que espiritualidade? A espiritualidade é a vida do espírito, em geral. Em particular é habitar a relação entre nosso tempo finito e a eternidade, nossa pequenez física e o infinitamente grande universo, enfim: nossa relatividade e o absoluto do Todo.
Com relação às virtudes teologais do cristianismo: fé, esperança e amor/caridade, não se trata de ter no homem ou em Deus, mas de ser fiel aos valores do humanismo, do cristianismo: é o que é um humanismo prático
Não se trata de ter “esperança” no homem ou em Deus, mas trata-se de agir. De construir o reino.

Conclusão
Então concluo que a moral é sempre relativa, nunca absoluta. Pelo menos não do ponto de vista metafísico.
Já do ponto de vista fenomenológico (Kant tinha razão) ela é vivida, na imaginação do indivíduo, como um absoluto: como um imperativo categórico. Com efeito, aquilo que não se universaliza, EM GERAL, não é moral. Se a mentira e o assassinato fossem morais, ambos tenderiam a não existiriam mais. A mentira deixaria de ser mentira porque todos mentiriam. A sociedade deixaria de existir, porque todos se matariam. 

Dessa forma, não sendo mais do que um universal, i.e., um horizonte de humanidade possível (e não algo que está atrás de nós, como garantia, abaixo de nós como fundação ou mesmo dentro de nós como um imperativo), essa moral não escapa à casuística.

Todo "caso moral”, sobretudo os mais decisivos (aborto, pena de morte, casamento homossexual etc), deve e pode ser considerado e discutido.
Tudo está sobre a mesa dos homens, dos indivíduos que decidem. Não há mais fundamento absoluto para a moral. Toda moral é relativa, frágil, e sem sanção absoluta. 

Mesmo a razão livre não constitui um fundamento (como queria Kant). Só há razão na proporção do desejo de razão. A razão não é um absoluto, não vale por si mesmo. Senão o homem, enquanto ser racional e livre, seria um absoluto. A vida seria um absoluto. Mas quem prova que a vida tem razão? 

Pode-se contrapor contudo: “se a moral é relativa, então tudo vale, e se tudo vale nada vale”. Vem então a pergunta: essa posição relativista do anti-humanismo teórico, ou humanismo prático, implica num niilismo? 


PARTE II - o relativismo é um niilismo? 

Que todo valor seja relativo, não prova que tudo valha.
Porém, como valores não são seres, nem ideias em si, o relativismo é um niilismo ontológico.
Mas, como os valores existem realmente, e para nós (eles nos fazem agir), esse niilismo ontológico vai junto com um relativismo prático.
Um valor não é uma verdade, é o objeto de um desejo, não de conhecimento; Que uma coisa ou outra me pareça boa ou má, vai depender do desejo que tenho por ela. Mas que ela seja verdadeira, não. Nietzsche versus Spinoza: o pensamento deles se encontra no relativismo normativo (quanto aos valores), mas se opõem no racionalismo (quanto à verdade, ou à razão).
A verdade é um valor? Claro, mas apenas se nós a julgamos boa. Assim, com efeito, a verdade é um valor para quase todos os humanos: “todos os homens amam a verdade”, dizia Santo Agostinho, porque ninguém, mesmo os mentirosos, gostam de ser enganados. Mas não é porque ela é uma verdade que ela vale; não é porque um valor é verdadeiro que ele vale.
Filosofia cínica, disjunção de ordens: o valor de uma verdade depende do desejo que temos por ela, mas sua verdade não. Todo valor é subjetivo (inclusive a verdade como valor); nenhuma verdade é subjetiva.
O valor é causa de uma ação, não é algo que se contemple em si, mas apenas indiretamente através da contemplação de uma ação.

Um valor não é também um puro “nada” ou uma ilusão. Um valor vale verdadeiramente, ao menos para nós, já que é verdade que nós o desejamos.
É verdade que eu desejo, mas meu desejo não é uma verdade.
O que há de ilusão em nossos valores não é o que eles valem, mas o sentimento que temos, quase inevitavelmente, de que são absolutos. Mas só há valor absoluto para e pelo desejo. Trata-se de um absoluto prático: o que eu quero absolutamente, quer dizer, de forma incondicional, inegociável. Mas não porque existiria em si. Mas porque é indissociável do meu desejo de viver e agir humanamente.
Por que seria necessário que a justiça existisse em si, absolutamente, para que eu deseje a justiça (ou ame a justiça)?
É antes o contrário: se ela existisse, ela não precisaria de nós e nós seríamos menos responsáveis por ela. Menos responsáveis por torna-la real, já que ela existiria por si mesma. Mas não é assim. Não é porque a justiça é boa, em si mesma, que a buscamos, nem porque ela existe nos submetemos a ela. É porque nós a desejamos que ela é boa (para nós). Razão a mais para deseja-la.
É porque ela não existe, por si, que é preciso faze-la.

O niilismo é a filosofia da preguiça ou do vazio, do nada. O relativismo, a filosofia do desejo e da ação.

Enfim, como eu dizia no início, no Brasil de hoje, em que prepondera um niilismo político: a descrença em tudo o que é político; mas também aumenta o niilismo moral: do “cada um que salve o seu!”  nos restam as palavras lúcidas do filósofo André Comte-Sponville:
 o relativismo é como que uma via do meio, contra o dogmatismo e o niilismo.
Contra o dogmatismo: a lucidez, o relativismo e a tolerância.
Contra o niilismo: a coragem e o amor.