Estar vulnerável -- transparente, aberto e desarmado -- é imensamente útil quando as emoções se sobrepõem ou obscurecem umas às outras. A vulnerabilidade nesse caso gera uma ressonância emocional honesta entre nós e os outros, amplia nossa receptividade e convida-nos a compartilhar com mais profundidade.
A vulnerabilidade pode ser assustadora. Baixar a guarda pode parecer perigoso (e, talvez, alguma vez tenha sido mesmo). Mas sem a vulnerabilidade, apartamo-nos de nossa rica profundeza emocional. Vestimos nossas máscaras e quando isso acontece, bloqueamos a ligação autêntica com os outros.
Vulnerabilidade não é sinônimo de colapso, de capitulação ou mesmo algo incapacitante. Muito pelo contrário, ela pode ser a nossa maior fonte de força, especialmente quando aprendemos a nos suavizar sem perder o contato com o núcleo de nossa presença. Há uma dignidade inerente a tal vulnerabilidade, mesmo quando estamos em circunstâncias degradantes.
Ser emocionalmente vulnerável significa estar em contato com - e ser transparente sobre - o que estamos sentindo. Podemos então ser honestos sobre o que estamos fazendo com as nossas emoções e isso é muito libertador. Ficamos mais atentos para quando estamos sendo defensivos ou agressivos, por exemplo, ou quando estamos procurando distração daquilo que estamos sentindo.
Vulneráveis, ficamos mais dispostos a compartilhar as dificuldades com pessoas de nossa confiança. Sabendo que quanto mais abertamente compartilharmos os estados emocionais (e suas raízes) que temos medo de revelar, mais profundas e plenas nossas conexões relacionais serão.
mas só o coração iluminando a razão e a razão conduzindo o coração, podem nos trazer alguma sabedoria... ilusão de filósofo.
Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder...
"Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)
"Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
A força que brota da vulnerabilidade
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Epicuro: um olhar sobre o ateísmo tranquilo do filósofo do Jardim.
[Nb. propriedade intelectual: adaptado do texto original que se encontra aqui.]
"Epicuro, ele mesmo, não era ateu. Nem poderia ser. Ele não negava os deuses. Dizia apenas que os deuses não tinham importância na vida dos humanos, que se eles (os deuses) existissem, seria em outro plano, sem nenhuma relação com a terra e com quem vive nela. Por que então um olhar sobre o “ateísmo” tranqüilo de Epicuro se ele mesmo não era um ateu?
O ateísmo tem sido muito debatido nos últimos anos [...]. Depois do livro “Deus, um delírio” de Richard Dawkins, esse entrave entre os ateus e os religiosos ficou mais comum do que nunca. Entretanto o post de hoje não é pra falar de um ateísmo militante, senão para tratar de uma questão de libertação e paz individual, um ateísmo tranquilo.
Epicuro, assim como outros filósofos influenciados pelo atomismo de Demócrito, propõe o contrário do que propõe o idealismo de Platão. Para Epicuro não existe dualismo, ou seja, não há separação entre alma e corpo. A alma é o corpo e vice-versa. Para ele, toda a verdade reside na carne, ou seja, nas sensações e nas afecções. Ainda contrariando Platão, Epicuro então sugere que não há universo invisível, além-mundos idealizados e nada além dos átomos da matéria.
Como dissemos no primeiro parágrafo, por uma questão criteriosa do sentido da palavra ateu, Epicuro não pode ser considerado um negador dos deuses, já que ele admite a possibilidade de eles existirem em algum lugar nos cosmos. Entretanto seus ensinamentos são um convite direto ao fim dos principais temores que atormentam o pensamento humano e, interpretativamente, a um ateísmo tranqüilo, desprovido de função militante. Seria mais ou menos assim: não vou perder tempo tentando provar que os deuses definitivamente não existem; há coisas mais importantes para serem refletidas e analisadas antes disso, apenas deixemos os deuses de lado.
Epicuro entende que muitos temores se devem aos deuses; prováveis punições, julgamentos, castigos, pedidos não atendidos que viram paranóia como: pedi algo a deus e não fui agraciado; será que fiz algo errado? Pequei? Estou sendo punido? O que me espera quando eu morrer? Daí surgem os diversos tipos de recalques, paranóias, psicoses e outras doenças que geram desprazeres, e portanto um grande mal para Epicuro. Sem contar que os temores por si só impedem o homem de desfrutar a ataraxia proposta por ele, ou seja, o estado de tranqüilidade. Pois então deixemos os deuses de lado; não há nada a temer em relação aos deuses. E metade dos nossos temores vai embora.
A outra metade dos temores é, segundo Epicuro, o temor da morte. Em sua receita terapêutica infalível até hoje, ele esclarece: se eu estou presente, a morte não está. Se a morte está presente, eu não estou. Ou seja, tudo reside nas sensações, se eu estou morto eu não tenho consciência, não tenho mais sensações; não vou desejar estar vivo e nem vou sentir medo, não vou sentir nada; não vou saber que estou morto.
Qual a razão então em sofrer antecipadamente por alguma coisa que eu não vou sentir? A única coisa que pode fazer sofrer é a idéia de que fazemos da morte enquanto vivos. A própria morte, em si, não pode fazer sofrer, nunca a encontramos.
Eliminando essas duas metades que compõem os maiores temores que podem visitar o pensamento humano, o caminho fica livre para a possibilidade de viver uma vida de prazeres. (comedidos, calculados, conscientes, éticos – não cometamos o erro de entender, como seus inimigos sempre quiseram caricaturar, o epicurismo como algo desvirtuoso e vulgar)
Podemos enxergar então em Epicuro um “ateísmo tranqüilo” (expressão proposta por Gilles Deleuze em seu livro Péricles e Verdi), um ateísmo onde o principal motor não é o embate com os religiosos, a denúncia das atrocidades cometidas pelas religiões em nome de um deus e etc. Em Epicuro o ateísmo é uma resposta dura ao idealismo de Platão e é necessário para libertar o homem dos principais temores e deixar o caminho aberto para a fruição dos prazeres."
“Platão inventa uma mitologia útil para manter os homens no medo, na angústia e no terror. Esses medos e temores fornecem uma humanidade maleável, medrosa, fácil de conduzir. Alienada, por certo, mas dócil, disponível para a obediência, a submissão e a renúncia a si mesma. Epicuro não quer homens assim: ele os quer autônomos, curados das superstições, libertos.”
Michel Onfray em seu ‘Contra-História da Filosofia’
Michel Onfray em seu ‘Contra-História da Filosofia’
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domingo, 26 de agosto de 2012
Consciousness, Awareness and Being
By Remez Sasson
Watch closely your consciousness, this feeling and sensation of being aware and alive, and observe what you feel. I do not mean that you look at the contents of your mind. I mean becoming fully aware and conscious of the sensation of being alive and existing. Some concentration ability is required to perform this simple exercise, because the mind and its thoughts will probably try to stand in your way.
This consciousness I am referring to, is not the awareness of having a body, emotions or thoughts, but of something beyond.
This consciousness is your inner being, and there is nothing mysterious or mystical about it. We all experience this consciousness constantly, but never investigate or try to be consciously and intently aware of it. This is because the mind and the attention flow outside, and rarely inside.
You might ask: "Why do I need to be aware of this consciousness? I have never thought about it before. Why now?"
You are this consciousness - it is your being, and you therefore need to know about it. If you own a car, don't you want to know, at least superficially, how to take care of it? If you own a TV, a mobile phone or some other electrical appliance, don't you want to know how to use it efficiently, and understand, at least a little, how it works?
The more you become aware of your consciousness, the more you become conscious and aware of its power, and can utilize its power. Calmness, peace of mind, freedom from anxiety and worry, inner strength and happiness are some of the by-products of becoming conscious and aware of your inner consciousness.
When watching a beautiful, breathtaking landscape, do you sometimes become immersed and overwhelmed by it, and for some moments you cease to be aware of your body, feelings and thoughts? For a little while you become merged in some sort of silence.
A little while later, your mind starts verbalizing about the landscape, and you become aware again of your feelings and thoughts. You return to your ordinary consciousness and awareness of your body and its sensations.
You did not lose consciousness during this experience. It was a happy and joyous experience, in which you became aware of something beyond your ordinary awareness.
This consciousness is beyond the body, feelings and thoughts. It is beyond beliefs, attitudes, names, gender, family and social or economic status. It is your inner being.
Body feelings and thoughts are changeable and impermanent. Even the cells of the body change in time. Yet, the Higher Consciousness never changes. It is immutable. It holds everything else together like a string that holds a necklace of pearls. It is constant, but all the "things" attached to it or revolving around it always change.
When you reject every component as not your "I", the residue that remains is something, which cannot be described, only lived. It is an impersonal "I". It cannot be the object of thought, because it is above and beyond thoughts and the mind.
You can know, experience and be this "I", but you cannot think about it or analyze it, as it is not an outside object. This "I", this consciousness is the real you.
Discussing this consciousness is just mental acrobatics, because this consciousness is beyond thoughts. It is fully experienced only when thoughts cease, whether unintentionally, as in the above case of watching a landscape, or intentionally when special exercises are performed to enhance it.
By teaching yourself to be aware and immersed of this consciousness, the mind and the flow of thoughts calm down, and you experience inner peace. This is usually done through meditation and proper mental attitude.
Being able to concentrate is a great help. Reading spiritual literature, or coming in contact with people who are living in constant spiritual awareness are great aids. Your practice should be done in a relaxed and calm way, without thinking of the target or worrying about it too much.
You do not need to search for this Consciousness. It is here, and you are living in it all the time. You only forgot it. You are letting thoughts rule your life. The sky is always up there. If you don't see it, this is because of the clouds that cover it. In the same way the clouds of thoughts cover your Consciousness, but by removing them you become aware of it.
This Consciousness I am talking about, is not the everyday, ordinary awareness of our body, ego and personality. It is not the awareness of the world around us. It is a sort of "Higher Consciousness" that stands beyond the ordinary one, and is responsible for it.
The ordinary consciousness is changeable and intermittent. At times we are aware of the outer world and at other times unaware or only partially aware. There are times of sleep and times of wakefulness. Yet, the "Inner Consciousness" is always present. It never ceases to be and is always present. It is at the background of whatever happens in life.
Developing the power of concentration, practicing meditation and trying to be aware of your Awareness, Consciousness, and Being, is the way to the golden key that opens the door of Enlightenment.
Watch closely your consciousness, this feeling and sensation of being aware and alive, and observe what you feel. I do not mean that you look at the contents of your mind. I mean becoming fully aware and conscious of the sensation of being alive and existing. Some concentration ability is required to perform this simple exercise, because the mind and its thoughts will probably try to stand in your way.
This consciousness I am referring to, is not the awareness of having a body, emotions or thoughts, but of something beyond.
This consciousness is your inner being, and there is nothing mysterious or mystical about it. We all experience this consciousness constantly, but never investigate or try to be consciously and intently aware of it. This is because the mind and the attention flow outside, and rarely inside.
You might ask: "Why do I need to be aware of this consciousness? I have never thought about it before. Why now?"
You are this consciousness - it is your being, and you therefore need to know about it. If you own a car, don't you want to know, at least superficially, how to take care of it? If you own a TV, a mobile phone or some other electrical appliance, don't you want to know how to use it efficiently, and understand, at least a little, how it works?
The more you become aware of your consciousness, the more you become conscious and aware of its power, and can utilize its power. Calmness, peace of mind, freedom from anxiety and worry, inner strength and happiness are some of the by-products of becoming conscious and aware of your inner consciousness.
When watching a beautiful, breathtaking landscape, do you sometimes become immersed and overwhelmed by it, and for some moments you cease to be aware of your body, feelings and thoughts? For a little while you become merged in some sort of silence.
A little while later, your mind starts verbalizing about the landscape, and you become aware again of your feelings and thoughts. You return to your ordinary consciousness and awareness of your body and its sensations.
You did not lose consciousness during this experience. It was a happy and joyous experience, in which you became aware of something beyond your ordinary awareness.
This consciousness is beyond the body, feelings and thoughts. It is beyond beliefs, attitudes, names, gender, family and social or economic status. It is your inner being.
Body feelings and thoughts are changeable and impermanent. Even the cells of the body change in time. Yet, the Higher Consciousness never changes. It is immutable. It holds everything else together like a string that holds a necklace of pearls. It is constant, but all the "things" attached to it or revolving around it always change.
When you reject every component as not your "I", the residue that remains is something, which cannot be described, only lived. It is an impersonal "I". It cannot be the object of thought, because it is above and beyond thoughts and the mind.
You can know, experience and be this "I", but you cannot think about it or analyze it, as it is not an outside object. This "I", this consciousness is the real you.
Discussing this consciousness is just mental acrobatics, because this consciousness is beyond thoughts. It is fully experienced only when thoughts cease, whether unintentionally, as in the above case of watching a landscape, or intentionally when special exercises are performed to enhance it.
By teaching yourself to be aware and immersed of this consciousness, the mind and the flow of thoughts calm down, and you experience inner peace. This is usually done through meditation and proper mental attitude.
Being able to concentrate is a great help. Reading spiritual literature, or coming in contact with people who are living in constant spiritual awareness are great aids. Your practice should be done in a relaxed and calm way, without thinking of the target or worrying about it too much.
You do not need to search for this Consciousness. It is here, and you are living in it all the time. You only forgot it. You are letting thoughts rule your life. The sky is always up there. If you don't see it, this is because of the clouds that cover it. In the same way the clouds of thoughts cover your Consciousness, but by removing them you become aware of it.
This Consciousness I am talking about, is not the everyday, ordinary awareness of our body, ego and personality. It is not the awareness of the world around us. It is a sort of "Higher Consciousness" that stands beyond the ordinary one, and is responsible for it.
The ordinary consciousness is changeable and intermittent. At times we are aware of the outer world and at other times unaware or only partially aware. There are times of sleep and times of wakefulness. Yet, the "Inner Consciousness" is always present. It never ceases to be and is always present. It is at the background of whatever happens in life.
Developing the power of concentration, practicing meditation and trying to be aware of your Awareness, Consciousness, and Being, is the way to the golden key that opens the door of Enlightenment.
O sujeito existe como abertura do ser e é a consciência que o constitui
Inúmeras dimensões ou entidades constituem o nosso ser (que é sempre ser no mundo, espacial e temporal). São dimensões inseparáveis na prática, embora possam ser distinguíveis em teoria.
Teoricamente podemos esquematizar da seguinte maneira: há a sensibilidade, através dos cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição (responsáveis por diferentes sensações e emoções: fome, sede, libido, desejo etc.) e há o pensamento, entendimento (ou razão) ... estão todos profundamente relacionados e, inseparáveis, vão constituindo o sujeito. São inseparáveis pois basta notar que só há razão se houver desejo de razão.
Mas há ainda algo que não foi mencionado... e o que seria essa terceira entidade a constituir o nosso ser, para além do sujeito? refiro-me à consciência. A consciência é a dimensão que, colocando-se entre as duas outras, faz cessar a soberania do sujeito e exige obediência do ser ao seu próprio entendimento.
É ela, a consciência, que permite a liberdade do ser humano em relação à natureza. Com ajuda da razão, embebida e inseparável da sensibilidade, e orientada pelo conhecimento (i.e., a crença numa ordem exterior mais ou menos compreendida), a consciência delibera e gera a ação humana (que pode ser virtuosa ou não, adequada ou não).
A razão, a consciência e a sensibilidade inapelavelmente juntas constituem o ser, essas dimensões simplesmente parecem ter vida própria no meu ser! Contudo, é a consciência em seus variados graus de potência que pode me libertar dos outros dois, quando esses me fazem mal; ou me permite, mais profundamente, beneficiar-me deles quando são bons.
É a consciência que me traz o sentido de presença; presença do sensível e do racional, da emoção e do pensamento.
Um exemplo? vejamos: se em determinada circunstância a emoção sensível vem espontaneamente ou causada por um pensamento (vem por causa dele, já que a razão é também uma espécie de sensibilidade), e eu não a dissimulo, eu não a nego, mas a compartilho (com uma simples frase, p. ex.) com outras pessoas a minha volta, então isso fará com que ela, a emoção, diminua e deixe de controlar o meu ser. Experimenta-se melhor então a plenitude do momento presente (presença), e tem-se a emoção do pensamento adequado, encadeado e racional.
Eis o efeito da consciência, da presença, do ser humano vivendo e experimentando o mundo. É ela a geradora da liberdade que o projeta para além do animal (identificado à natureza) e o aproxima do espiritual, que é separado do natural. Essa dimensão espiritual do homem, que é separada do natural e ao mesmo tempo contida nele (porque imanente), é o sagrado no homem. O conjunto do espiritual em cada ser humano conforma o divino. Nesse sentido a consciência é a verdade do ser. Ao longo da vida ela constitui o sujeito em sua essência, que poderá ser mais ou menos autêntica.
Esquema:
AÇÃO <(dirige) = (condiciona)> PENSAMENTO <(orienta) = (elabora)> CONHECIMENTO
^
||=> DESEJO
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segunda-feira, 25 de junho de 2012
Fé é fidelidade. É praticar o que se prega.
De toda a apologética teológica, o mais importante conselho é também o mais subestimado. O argumento mais convincente é o que é feito sem palavras. A palavra nunca basta. Com frequência dizemos uma coisa e fazemos outra. Proclamamos mudanças de vida, mas estamos constantemente a reincidir em nossos velhos hábitos.
O exercício da convivência com o outro expõe claramente esse estado de coisas e nos indica o quanto há a percorrer, a meditar. Muitos nos achamos salvos, com frequência por algo fora de nós mesmos. Algo que nos perdoará sempre, sob quaisquer circunstâncias. Mas mesmo nos achando salvos, muitas vezes, nos pegamos irritados, nervosos, descentrados, entristecidos, aborrecidos e entediados conosco e com nossos próximos.
Insistimos em viver nossas vidas num oceano de vaidades, de insegurança e de desamor. Aceitamos isso com resignação pois pretendemos que o espírito nos salvará um dia desse mar de lágrimas, de nosso corpo "diabólico", dessas nossas falas, desses nossos gestos e comportamentos. E assim vamos vivendo como seres divididos, corpo escondido atrás da máscara do espírito.
A separação platônico/cartesiana espírito-corpo é a expressão clara da dualidade do nosso ser. Ela justifica a constante luta na busca do controle do corpo pecador pelo espírito obstinado. Convictos de sermos essa dualidade, poucos de nós chamamos para nós mesmos a responsabilidade pela salvação de nossa vida na terra.
Como cristãos, quando nos esforçamos em ser testemunhos para outros, o que estamos realmente dizendo é que a nossa vida é regida pelo exemplo de Cristo. Por um conjunto de crenças e doutrinas reveladas por Cristo. Recomendamos a outros que também aceitem essas mesmas crenças, doutrinas e fé. Que os levaria a um estilo de vida preferível ao que eles já estão vivendo. Mas, se nosso estilo de vida como apologistas não reflete isso, o que estamos realmente dizendo às pessoas? Se nosso estilo de vida não é diferente do deles, o que isso realmente quer dizer sobre as nossas crenças, doutrinas e fé?
Com frequência, a principal queixa contra o cristianismo é a hipocrisia. Para muitos ateus, a ideia de que ser cristãos nos torna boas pessoas é tão boba quanto achar um mentiroso sincero.
Ao invés de nos crermos escolhidos e protegidos pelo amor de Deus, de agirmos como seres arrogantes que se creem minideuses, reconheçamos que somos todos humanos, todos falíveis e fracos em nossos próprios caminhos. Reconheçamos isso e a partir daí tenhamos fé. Mas não qualquer fé. Refiro-me à fé de acreditar que o homem está destinado a levar uma vida melhor, menos sofrida e mais serena, tranquila, de coração apaziguado e integrado ao universo cósmico. Essa fé não significa necessariamente acreditar que há algo/alguém fora do universo, algo transcendente, que me indica o caminho e me salva, apesar de mim mesmo, apesar de meus erros, mentiras e traições. A salvação por essa fé vem do interior do ser próprio e do ser humanidade. Essa fé emancipa, transforma a realidade do ser, o humaniza e mostra o caminho de união com o Todo, através de ações conscientemente plenas, saudáveis, amorosas e cuidadosas.
Mais valeria reconhecer esse estado de penúria e colocar-se inteiros (e não divididos) no caminho da unidade consigo mesmo e com o cosmos. Entretanto, através de nossas ações, estamos a minar qualquer argumento apologético, a doutrina, a crença e até mesmo a nossa própria fé proclamada. A apologética não deveria ser sobre conquistar uma mentalidade obstinada, um espírito em constante luta contra o corpo que o hospeda, que abomina a falta de lógica do corpo. A apologética é respeitar o velho ditado "pratica o que prega" e é, de longe, o menos refletido de todos os métodos apologéticos - e por boas razões, porque é o mais difícil. Enquanto dizemos a outros para reconhecer suas próprias falhas, estamos muitas vezes mostrando as nossas. E, embora elas estejam bem debaixo do nosso nariz, nós muitas vezes não as reconhecemos plenamente.
Diz-se sempre que a salvação pela fé é um dom, mas muitas vezes dizemos isso sem entender o que realmente significa. Aqueles que tem fé dizem isso com tanta frequência que perdem de vista o princípio real envolvido.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Capítulo 13 da epístola de São Paulo sobre o AMOR (ÁGAPE)
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o Amor, estes três; mas o maior destes é o Amor”.
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Penso que esse "então" (S. Paulo nessa carta) é o "aqui e agora": i.e., o eterno presente da vida quando vivida no Amor. Fé e esperança são meras ilusões, úteis entretanto, para acalmar nossos fracos corações e mentes. Principalmente porque desse Amor puro não somos capazes. Amamos pouco, amamos mal.
sexta-feira, 16 de março de 2012
A Arte de Viver, segundo o Frei Cláudio
Reproduzo e comento abaixo, texto retirado do blog do Frei Cláudio.
Segundo o Frei Cláudio, há os que reduzem a arte de viver a uma concepção popular do hedonismo que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana – uma espécie de felicidade subjetiva que se realiza, por exemplo, na possibilidade do consumo de bens, sejam básicos ou supérfluos.
"De fato, supõe-se acesso ao alimento, à água, saúde, educação, salário, lazer etc. Mas isso ainda não garante a felicidade. Há tantos que, sendo privados de algo essencial, ainda se julgam felizes."
Na ética de Aristóteles, continua Frei Cláudio "tudo tende à sua própria perfeição. Alcançar esse objetivo teria a ver com virtude que - êxito nas iniciativas – resulta na felicidade. É o que pode suceder com um casal, um professor, um lavrador, um mecânico, um empresário, um médico, um administrador, um político, um líder, etc."
Conforme Aristóteles felicidade, portanto, não se reduz a um bem-estar subjetivo, mas implica o sucesso em nossos empreendimentos. Por exemplo, "a felicidade de um colecionador implica seu esforço de coletar. Isto é bem mais que o simples receber de algo já feito - pronto, completo - sem que tenha custado algum esforço".
A meditação auto-reflexiva, no sentido de busca pelo auto-conhecimento, surge então como meio para se estabelecer com maior clareza a natureza desses nossos empreendimentos, pois "a arte de viver implica deixar conduzir-se pelo objetivo intrínseco de suas atividades, o que supera algo extrínseco como dinheiro, prestígio e poder (não raro vantagens de carreirista). Pessoas internamente motivadas merecem o respeito de todos. Parecem felizes e irradiam impulsos positivos em seu meio.
Virtude é desenvolver as próprias potencialidades, o que é o primeiro dever para consigo. Aristóteles, em uma perspectiva elitista, julgava que condições indispensáveis - além do esforço pessoal – eram: muito tempo livre e um bom número de escravos.
À potencialidade existente hão de corresponder condições favoráveis, sobretudo em casos de pessoas excepcionais. Nesse caso, cresce a responsabilidade do poder público quanto ao trabalho, alimentação, saúde, transporte, educação e lazer. A partir disso, as pessoas poderão tomar rumo.
Uma vida com êxito não depende só do esforço das pessoas e de suas escolhas. Entra o fator sorte – eudaimônia = circunstância favorável. Quanto a isso, encontramo-nos em situações bem melhores do que séculos e décadas passados. Hoje – ainda para uma minoria - quase tudo se encontra sob nosso comando, graças à ciência e tecnologia. Entram também em jogo as ‘ocasionalidades” – certos acasos (des-)favoráveis – fora de nosso controle como também vulnerabilidade, envelhecimento, enfermidade e mortalidade. Grave ilusão é querer transformar o mundo em um parque global de diversão como se tivéssemos o dever de ser felizes só no cultivo do prazer.
Ignorar a limitação humana é negar nossa condição de simples mortais. Também a morte (M. Heidegger- sein zum Tode) tem um aspecto positivo. Por mais que doença, velhice e morte sejam uma ruptura, são também o horizonte inevitável que torna a vida significativa.
Luis Borges o ilustrou pelo conto “O Imortal”, mostrando que a morte enriquece o viver com desafios, fazendo superar indiferença, letargia, imobilidade."
Embora a vida se nos apresente como sem sentido intrínseco (todo sentido só pode ser encontrado fora daquilo a que se deseja dar sentido), vivemos buscamos sentidos para a nossa vida. Como diz o autor, "Vida é mais que sobre-vida, pois o que dá sentido ao viver é seu objetivo. Vida de qualidade vale mais que vida longa esvaziada. Carecemos de projetar nossa vida para além do horizonte atual. Não nos contentamos com nosso limitado existir; buscamos algo que nos transcenda. O direcionamento para algo diferente – um fim superior a nós - dá sentido ao viver. Todos vivemos em vista de algo fora e além de nós – ideal - como a pessoa amada, filhos, trabalho, empresa, sociedade, ciência, filosofia, espiritualidade."
Claro que nessa busca de sentido o risco que nos acompanha é o fracasso ou a perda... "Basta lembrar de adeptos de uma ideologia que não se realiza, de um amor que fracassa, de um Deus que não existe, de uma religião que não corresponde."
Não nos envolver ou nos apegar à pessoas ou as coisas no sentido erótico (eros platônico, sentimento de falta) seria uma saída então para não sofrer perdas ou fracassos?
Continua o Frei Cláudio... "Certo, quem não se engaja, não corre risco, não se (des-)ilude, porém leva uma vida vazia, sem ideal, desinteressante, enjoada. O estoicismo é uma alternativa, porém, enquanto preserva de perdas, não preenche o vazio. Vida sem risco é vida sem valor. Ninguém imuniza sua felicidade contra azar ou destino. Basta viver bem e, mesmo em adversidades, ter um pouco de sorte, a fim de que vida não pese demais e até adquira um sentido, embora exija um preço. Aqui, a alegria é uma oferta gratuita; ela nos pode surpreender, mesmo que não a tivéssemos em vista. Viver vale a pena. Quase sempre."
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sábado, 11 de junho de 2011
Até que ponto a informação nos revela a verdade?
Resenha do Capítulo "A verdade e nós" do livro “Valor e verdade: estudos cínicos”, de André Comte-Sponville.
O livro reúne “doze estudos que têm em comum versar sobre um mesmo objeto, que é a relação entre valor e verdade”.
O autor estrutura seu texto em torno das três perguntas fundamentais com as quais I. Kant define a filosofia:
O autor estrutura seu texto em torno das três perguntas fundamentais com as quais I. Kant define a filosofia:
- "O que podemos conhecer?" questionamento respondido pelas disciplinas: epistemologia e ontologia. Esta última pergunta: "o que há? para podermos conhecer";
- "O que devemos fazer?" objeto de estudo da filosofia moral (ética); e
- "O que podemos esperar?" problema refletido pela metafísica e pela espiritualidade. A metafísica o aborda por meio de termos, conceitos e raciocínios. A espiritualidade por meio de experiências e vivências às vezes compartilhadas.
O que é a verdade para o cientista? se para o filósofo a resposta pode variar, para o cientista a verdade é, no mínimo, tudo aquilo que se sabe cientificamente hoje; mesmo que o futuro a revele sempre incompleta e as vezes equivocada.
Nossa modernidade teórica (o que podemos conhecer?)
Aprendemos a distinguir nossos conhecimentos (relativos, parciais, provisórios) da verdade (eterna e absoluta). O próprio progresso do conhecimento e da lucidez epistemológica nos desiludiu desse ideal. A identidade entre o ser o e conhecimento nos é vedada - não apenas de fato, como de direito e definitivamente - pelas próprias condições que tornam esse conhecimento possível. O pensamento só pode se identificar com seu objeto na medida em que primeiro o constitui como objeto (de conhecimento), o qual não é o ser. O real é velado ou distante, embora estejamos dentro dele. Lição da física quântica (Bohr, Heisenberg), bem como da epistemologia contemporânea (Popper). Mesmo antes, Montaigne e Pascal já diziam: "Não temos nenhuma comunicação com o ser". Nunca conheceremos o verdadeiro a não ser indiretamente, pela mediação do falso, que às vezes sabemos detectar. Nenhum contato absoluto com o absoluto: o ser nos contém, mas nem por isso saberíamos contê-lo adequadamente.
Quer isso dizer que não há verdade, como às vezes ouve-se falar? Claro que não: se nada fosse verdade, não seria verdade que não há verdade, e é por isso que a proposição "não há verdade" se auto-destroi. A verdade é o que diferencia nossos conhecimentos de nossas convicções ou opiniões. Kant separava três ordens de pensamento. O "saber": como um pensamento subjetiva e objetivamente suficientes; de uma "convicção": um pensamento subjetivamente suficiente mas objetivamente insuficiente; de uma "opinião": um pensamento tanto subjetiva quanto objetivamente insuficientes.
Postulado da razão teórica, que garante algum racionalismo: há verdade já que há conhecimento. Só há conhecimento na norma da verdade dada ou possível.
Com isso não se altera a concepção semântica da verdade. Como diria Tarski, a verdade de uma proposição consiste sempre em sua correspondência com a realidade. "A proposição 'a neve é branca' só é verdadeira se a neve é branca"; mas isso não altera o estatuto ou o alcance ontológico do conhecimento (o ser, para ele, está fora de alcance, ou só poderia ser atingido indireta e aproximadamente). Pode haver verdade em nossos conhecimentos, mas nossos conhecimentos não são a verdade, nem poderiam identificar-se com ela. Este é o abismo que funda nossa modernidade teórica.
Nossa modernidade prática (o que devemos fazer?)
Separação entre valor e verdade. Classicamente os filósofos consideravam que o verdadeiro e o bem andavam juntos: que o verdadeiro era o bom e o bom era o verdadeiro.
Aristóteles (em Metafísica): "É porque algo é bom que este algo nos parece desejável, em vez de este algo nos parecer bom porque o desejamos: o princípio é o pensamento; ora, o intelecto é movido pelo inteligível..." Como desejaríamos o que não conhecemos? E por que desejaríamos conhecer se a verdade não fosse boa?
"Tudo o que é, é bom", dirá Santo Agostinho; "o bem e o ser são uma única e mesma coisa", dirá são Tomás; e o mal nada mais é que uma privação ou que um ser menor. Deus é a verdade que faz norma: graças ao que nossos valores são verdadeiros, graças ao que nossas verdades valem. Isso durou uns dois mil anos, e fez uma civilização - a nossa civilização judeo-cristã.
Descristianizando-se o Ocidente, foi necessário porém procurar outra coisa. O que primeiro se encontrou foram deuses substitutos: a ciência depois a história, ou antes, os que diziam seguí-la pretenderam assim conjungir por sua vez o verdadeiro e o bem, o ser e o dever-ser, a verdade e o valor. Daí essa religião da Ciência, que foi o cientificismo, ou essa religião da História, que foi o marxismo.
Dizia Hegel: "O mundo real é tal como deve ser", "o verdadeiro bem, a razão divina universal é também a potência apta a se realizar. Esse bem, essa razão, sob a sua representação mais concreta, é Deus".
Esses ídolos não existem mais. Quanto mais as ciências progridem, mais parece que eles são incapazes de resolver qualquer problema normativo. As ciências não comandam; as ciências não julgam. As ciências não poderiam portanto substituir nem a religião, nem a moral, nem a filosofia. Incapazes que são de nos prescrever o que fazer. Assim as ciências ou a história não nos dizem mais sobre o bem. Conhecer não é mais julgar; julgar não é mais conhecer. Os conhecimentos cessaram de erigir-se em norma; os valores cessaram de ser verdadeiros. Nossos valores não se fundam mais em nossos saberes. Em que fundá-los então? No desejo. É preciso inverter a proposição de Aristóteles: "uma coisa nos parece boa porque nós a desejamos, e não o contrário: só desejamos porque ela nos parece boa" (Espinosa). O Verdadeiro não é o bem: nenhum bem é verdadeiro. É mais um abismo que funda nossa modernidade prática. O que vale não é o que conhecemos, mas o que desejamos, queremos e amamos. "A justiça não existe, é por isso que é preciso fazê-la" (Alan).
Nossa modernidade espiritual (o que podemos esperar?)
Amar a Deus, se nele cremos, era amar a Verdade que nos amava - e a verdade era, assim, tanto mais amável quanto a sabíamos infinitamente amante! Mas eis que a verdade, sem se abolir, cessa de se fazer passar por amante, em outra palavras, Deus morre. Eis que nos anunciam, não que não há mais verdade, mas que ela não nos ama, que é indiferente a tudo, isto é, a ela própria! Divórcio entre amor e verdade. Conhecer não é amar; amar não é conhecer. Quantas verdades odiosas! Quantos erros amáveis! modernidade espiritual: nem mesmo a verdade é Deus!
Devemos por isso nos afogar no niilismo e na sofística? Somos capazes de amar a verdade apesar de tudo, ainda que ela não corresponda às nossas esperanças. É possível que a verdade seja triste?
Ainda que ela não nos corresponda, saberemos aprender a amá-la sem retorno, de um amor desinteressado, amar em pura perda, a amar solitariamente, desesperadamente (sem esperar)?
Não que seja preferível. Quem não prefere ser amado? Quem não gostaria que esse amor fosse a própria verdade? Desde quando é preciso ser amado para aceitar amar? O amor é uma alegria que acompanha a ideia de uma causa externa (Espinosa), e a única: a verdade só é alegre para quem ama conhecer, só é triste para quem fracassa em amar.
Não há portanto que escolher entre o conhecimento e o amor. Amar e conhecer são duas coisas diferentes, mas não incompatíveis nem separadas: o desejo de verdade pode encontrar a verdade do desejo. O conhecimento do amor pode confortar o amor ao conhecimento. Seria preferível que nos bastasse amar para conhecer ou conhecer para amar. É por isso que os dois são necessários, um não podendo substituir o outro e não podendo se unirem de outro modo que em nós, contanto que amemos o verdadeiro, contanto que conheçamos o amor. Que isso seja pouco, que esperávamos outra coisa (a conjunção do verdadeiro e do bem, da verdade e do amor)... mas não se trata de esperar, mas de viver, e azar o nosso se é difícil. Precisamos de coragem.
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segunda-feira, 16 de maio de 2011
Inácio de Loyola
A oração de Inácio de Loyola diz assim:
"Tomai senhor e recebei toda a minha liberdade e a minha memória também. O meu entendimento e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e possuo, vós me destes com o Amor. Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo, dispondes deles Senhor, segundo a vossa vontade. Dai-me somente o vosso amor vossa graça, isso me basta nada mais quero pedir."
De repente um pensamento curioso me vem e desejo partilhar... e assim faço uso deste blog de maneira inaciana, fazendo uma Partilha. Ele, o pensamento, é assim: - vai chegar um dia em que eu serei capaz de rezar a oração acima de coração (i.e., decorada), impressa no meu corpo, mas sem chorar. Então, com o coração manso e humilde, meu Ser dissolvido no Todo, encontrará o mistério que vivo revelado quando estou na presença de outra pessoa.
Obrigado, a cada um (em especial aos amigos e amigas inacianos), por me acolherem ontem, hoje, tanto e sempre. Ouso imaginar que nesse dia, quando não mais me emocionar como uma criança que aprende, e meu Ser não mais derramar lágrimas, terei finalmente logrado passar da emoção para a moção, que vocês me revelam ser o Espírito Santo realizando minha vida.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Cartas a um jovem poeta
Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,
![]() |
| Rainer Maria Rilke |
Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.
Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.
Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
sábado, 8 de janeiro de 2011
Excerto da Carta de Joel Goldsmith a seu filho Sammy.
Trecho da carta de Joel S. Goldsmith ao seu filho Sammy, quando este se ausentou do lar, no Hawai, para cursar a universidade na América.
"Ofereço-te aqui, Sammy, uma lição importante, não só para um dia, mas suficiente para toda tua existência, se a praticares fielmente – ainda que não recebesses nenhuma outra de mim ou de qualquer instrutor espiritual. Se a gravares no íntimo, ainda que ficasses só num deserto ou num barquinho, no meio do oceano, sem qualquer pessoa ou livro por perto, poderias sobreviver, encontrando salvação e segurança, alimento e vestuário, paz e tudo o mais que te fosse necessário.
Quero revelar-te o segredo de minha felicidade, alegria, êxito, prosperidade e capacidade de servir a crianças e adultos ao redor do mundo inteiro, como sabes. Desejo que conheças este segredo, para que possas agir como eu. Em primeiro lugar, quando defrontares algum problema, seja de saúde, estudos, desentendimentos com os colegas ou mestres, retira-te a um lugar tranqüilo, senta-te com os pés no chão e mãos descansando nas coxas, fecha os olhos e lembra-te de que Deus está mais perto do que tua respiração: mais próximo do que teus pés e mãos. Ele está exatamente onde estiveres. Aquieta-te por um momento e Deus resolverá teu problema. Pode parecer estranho que não tenhas, pelo menos mentalmente, de expor teu caso a Deus, de não pedir-Lhe nada e nem fazeres qualquer afirmação.
No entanto, basta fechar os olhos, aquietar-te por um momento e saber que Deus está bem perto de ti: no centro de teu ser. Depois, sem ansiedade ou pressa, espera alguns minutos. O Espírito, Ele mesmo, se incumbirá de tudo. Se for um problema ou fórmula que não entendes, Ele te esclarecerá, como sucedeu uma vez aqui em casa, em que pediste ajuda em matemática: sentamo-nos e meditamos e quando voltaste ao livro, encontraste a resposta plena, como se a tivessem escrito ali para ti.
Sempre que tiveres alguma dificuldade, pára o que estavas fazendo e conscientiza Deus exatamente ali onde estás, em teu íntimo. Espera alguns minutos e verás que Ele é a Inteligência de teu ser e sabe porque O estás procurando. Não receies: de bom grado Ele sempre te responderá, se estiveres “ligado”. Se Lhe perderes a sintonia, não poderás receber ajuda. Isto é compreensível. Digamos que estivesses aqui perto de mim, recebendo instrução espiritual. Se te distraísses, pensando em outra coisa ou saísses a passear, como poderia receber a lição que eu tinha a oferecer-te gostosamente? Como pai humano, bem gostaria de oferecer-te cada segredo espiritual que possuo, como dou dinheiro quando dele necessitas. Mas não lhos poderei dar, se não estiveres receptivo e atento.
A mesma coisa se dá em nossa relação com Deus: temos que dar-Lhe plena atenção, amor, obediência e gratidão. Não é propriamente amar um Deus que não vês, senão amá-Lo nos colegas e professores com quem convives. Ainda que Deus esteja em teu íntimo, só Lhe podes receber a graça se tiveres amor, júbilo e respeito, em tua mente, em teu coração e em tua alma.
Cada pessoa é responsável por si mesma. Não há um Deus sentado no céu a olhar e julgar os que estão aqui em baixo. A Consciência divina está em nosso íntimo e sabe tudo o que pensamos, sentimos, falamos e fazemos, atraindo imediatamente de fora tudo o que mandamos para lá. Portanto, o amor e respeito que exprimes aos outros, logo os recebes de volta. Mas, tudo isto ainda é pouco. Mesmo que sejas humanamente bom em todos os sentidos, estás simplesmente cumprindo os Dez Mandamentos. Agora te estou instruindo a cumprir o Sermão da Montanha, pois o Caminho espiritual é uma revelação mais alta: diz que não precisas de falar com Deus, senão apenas reservar pequenos períodos, durante o dia e à noite, para ouvi-Lo dentro de ti. Mesmo que não ouças literalmente uma voz, ao abrir os ouvidos a Deus e silenciar por um minuto ou dois, permitir-te-ás encher o vácuo que formaste internamente.
Atenta bem para o que deves fazer, para formar este vazio expectante: logo ao acordar senta-te confortavelmente, pés no chão, braços apoiados relaxadamente nas coxas, olhos fechados, sintonizando o Cristo interno em silêncio, escutando o íntimo por alguns minutos. Em seguida, lembra-te de que o dia que se estende diante de ti será governado e protegido por Deus. Serás então mantido e inspirado por Ele, porque abriste, anelante e conscientemente, tua consciência à Presença e Direção de Deus. Mas se não fizeres cada manhã, fielmente, teu contato com Deus, o teu encontro com o mundo será como de um ser humano comum, sujeito a todas as surpresas e desencontros da vida, sem a assistência divina.
Em tua idade atual, com o preparo que já recebeste aqui, estás apto a quatro pequenos exercícios diários: de manhã cedo, ao meio-dia, ao anoitecer e antes de dormir. Sentado, relaxado e quieto, podes dedicar dois minutos de cada vez a Deus. Inicialmente, para facilitar, podes mentalmente dizer: “Aqui estou, Pai. Fala que teu filho escuta. Desejo fazer a Tua vontade”. Em seguida, aquieta-te. Se fores fiel nesta prática, garanto que tua vida na universidade e de modo geral, será um sucesso e ainda mais do que isso: uma bênção. Estarás preparando os fundamentos para uma vida inteiramente governada por Deus.
Procure estar em harmonia com teus colegas em tudo que seja bom. Se te convidarem a cerimônias religiosas, sugiro que os acompanhes. Entra em cada templo com a mente aberta, agradecendo à oportunidade de aquietar e ouvir a “pequenina e silenciosa voz”.
Não te esqueças de que a sintonia com Deus é mais importante que o ritual. A união com os colegas no que seja construtivo suscita o bem, embora o verdadeiro bem te venha porque reconheces a graça e a glória de Deus em tudo e em todos. A coisa mais importante que desejo sublinhar-te é que, em qualquer instante do dia ou da noite, Deus é instantaneamente acessível. Basta que O sintonizes e ouças. Enfatizo este ponto para que compreendas que não precisas falar, de fazer afirmações ou lembrar a Deus tuas necessidades.
O segredo que recebi é que Deus, como Inteligência infinita, já conhece tuas necessidades, antes mesmo de Lhas pedires. Ele vê nosso íntimo quando Lho abrimos em atitude receptiva e confiante. Não é por nosso falar ou pensar, pois o Mestre ensinou: “não vos preocupeis por vossa vida, pelo que tendes de comer: nem por vosso corpo, pelo que tendes de vestir. Vosso Pai sabe que necessitais destas coisas. É do bom agrado dEle dar-vos todas elas”. Compreendes, Sammy? É do agrado do Pai dar-te o Reino! Deus não te castiga quando te arrependes sinceramente do erro ou pecado que acaso cometas. No instante em que reconheces que não agiste bem, estás perdoado. Não carregarás a penalidade quando em teu coração vibra o reconhecimento do mal que fizeste e te arrependeres. Mas deves compreender que ao reconhecer as falhas, não deves repeti-las. Caso contrário, perderás a sintonia com a graça divina. Tu mesmo é que te cortas dela. Quando isto acontecer, procura reatar com a graça, reconhecendo verdadeiramente: “Sei que errei!” Ou talvez: “Não sei se agi erradamente, mas se o fiz, ajuda-me a compreender e limpa isto de mim, Pai. Não tive má intenção. Não quero fazer o mal. Ao contrário, desejo fazer aos outros o que gostaria que me fizessem”.
Dessa maneira te purificas. Tenho-me curado de diversas enfermidades, pedindo simplesmente a Deus perdão por meus pecados. É claro que meus pecados não são graves. Conheces nosso modo de viver. Mas sempre que cedemos à crítica e condenação, não estamos amando e perdoando suficientemente. Assim, é recomendável que nos voltemos de vez em quando e digamos: “Reconheço, Pai, que não estou agindo perfeitamente. Perdoa meus pecados. Limpa as minhas transgressões, para eu começar tudo de novo”. Grava bem, Sammy, a mais importante lição que me foi dada: “que o lugar em que estás é solo santo”, ou seja, Deus está exatamente onde estás, disponível, no instante em que páras de pensar, de falar e de te identificar com as coisas externas, e te voltas ao íntimo, reconhecendo-Lhe o Poder e a graça.
Conscientiza o Espírito de Deus em ti e, em seguida, relaxa-te por um ou dois minutos, deixando que Ele Se manifeste. Isto é tudo. Todo o nosso propósito é de levar as pessoas à realização da onipresença de Deus e sua constante disponibilidade; de nos dirigir a Ele sem pensamento nem palavras: basta a humildade de sentar-nos (ou mesmo em pé ou deitado), fechar os olhos e reconhecer: “Eu, de mim mesmo, nada posso. O Pai, em mim, é Quem faz as obras. Fala, Senhor, que teu filho escuta”. Em seguida, aguardar um ou dois minutos em silêncio expectante, antes de se levantar e prosseguir as tarefas. Se aprenderes a praticar corretamente este exercício quatro vezes ao dia, como lhe estou sugerindo, não demorará muito para que o faças mais vezes ao dia, para teu inteiro benefício."
"Ofereço-te aqui, Sammy, uma lição importante, não só para um dia, mas suficiente para toda tua existência, se a praticares fielmente – ainda que não recebesses nenhuma outra de mim ou de qualquer instrutor espiritual. Se a gravares no íntimo, ainda que ficasses só num deserto ou num barquinho, no meio do oceano, sem qualquer pessoa ou livro por perto, poderias sobreviver, encontrando salvação e segurança, alimento e vestuário, paz e tudo o mais que te fosse necessário.
Quero revelar-te o segredo de minha felicidade, alegria, êxito, prosperidade e capacidade de servir a crianças e adultos ao redor do mundo inteiro, como sabes. Desejo que conheças este segredo, para que possas agir como eu. Em primeiro lugar, quando defrontares algum problema, seja de saúde, estudos, desentendimentos com os colegas ou mestres, retira-te a um lugar tranqüilo, senta-te com os pés no chão e mãos descansando nas coxas, fecha os olhos e lembra-te de que Deus está mais perto do que tua respiração: mais próximo do que teus pés e mãos. Ele está exatamente onde estiveres. Aquieta-te por um momento e Deus resolverá teu problema. Pode parecer estranho que não tenhas, pelo menos mentalmente, de expor teu caso a Deus, de não pedir-Lhe nada e nem fazeres qualquer afirmação.
No entanto, basta fechar os olhos, aquietar-te por um momento e saber que Deus está bem perto de ti: no centro de teu ser. Depois, sem ansiedade ou pressa, espera alguns minutos. O Espírito, Ele mesmo, se incumbirá de tudo. Se for um problema ou fórmula que não entendes, Ele te esclarecerá, como sucedeu uma vez aqui em casa, em que pediste ajuda em matemática: sentamo-nos e meditamos e quando voltaste ao livro, encontraste a resposta plena, como se a tivessem escrito ali para ti.
Sempre que tiveres alguma dificuldade, pára o que estavas fazendo e conscientiza Deus exatamente ali onde estás, em teu íntimo. Espera alguns minutos e verás que Ele é a Inteligência de teu ser e sabe porque O estás procurando. Não receies: de bom grado Ele sempre te responderá, se estiveres “ligado”. Se Lhe perderes a sintonia, não poderás receber ajuda. Isto é compreensível. Digamos que estivesses aqui perto de mim, recebendo instrução espiritual. Se te distraísses, pensando em outra coisa ou saísses a passear, como poderia receber a lição que eu tinha a oferecer-te gostosamente? Como pai humano, bem gostaria de oferecer-te cada segredo espiritual que possuo, como dou dinheiro quando dele necessitas. Mas não lhos poderei dar, se não estiveres receptivo e atento.
A mesma coisa se dá em nossa relação com Deus: temos que dar-Lhe plena atenção, amor, obediência e gratidão. Não é propriamente amar um Deus que não vês, senão amá-Lo nos colegas e professores com quem convives. Ainda que Deus esteja em teu íntimo, só Lhe podes receber a graça se tiveres amor, júbilo e respeito, em tua mente, em teu coração e em tua alma.
Cada pessoa é responsável por si mesma. Não há um Deus sentado no céu a olhar e julgar os que estão aqui em baixo. A Consciência divina está em nosso íntimo e sabe tudo o que pensamos, sentimos, falamos e fazemos, atraindo imediatamente de fora tudo o que mandamos para lá. Portanto, o amor e respeito que exprimes aos outros, logo os recebes de volta. Mas, tudo isto ainda é pouco. Mesmo que sejas humanamente bom em todos os sentidos, estás simplesmente cumprindo os Dez Mandamentos. Agora te estou instruindo a cumprir o Sermão da Montanha, pois o Caminho espiritual é uma revelação mais alta: diz que não precisas de falar com Deus, senão apenas reservar pequenos períodos, durante o dia e à noite, para ouvi-Lo dentro de ti. Mesmo que não ouças literalmente uma voz, ao abrir os ouvidos a Deus e silenciar por um minuto ou dois, permitir-te-ás encher o vácuo que formaste internamente.
Atenta bem para o que deves fazer, para formar este vazio expectante: logo ao acordar senta-te confortavelmente, pés no chão, braços apoiados relaxadamente nas coxas, olhos fechados, sintonizando o Cristo interno em silêncio, escutando o íntimo por alguns minutos. Em seguida, lembra-te de que o dia que se estende diante de ti será governado e protegido por Deus. Serás então mantido e inspirado por Ele, porque abriste, anelante e conscientemente, tua consciência à Presença e Direção de Deus. Mas se não fizeres cada manhã, fielmente, teu contato com Deus, o teu encontro com o mundo será como de um ser humano comum, sujeito a todas as surpresas e desencontros da vida, sem a assistência divina.
Em tua idade atual, com o preparo que já recebeste aqui, estás apto a quatro pequenos exercícios diários: de manhã cedo, ao meio-dia, ao anoitecer e antes de dormir. Sentado, relaxado e quieto, podes dedicar dois minutos de cada vez a Deus. Inicialmente, para facilitar, podes mentalmente dizer: “Aqui estou, Pai. Fala que teu filho escuta. Desejo fazer a Tua vontade”. Em seguida, aquieta-te. Se fores fiel nesta prática, garanto que tua vida na universidade e de modo geral, será um sucesso e ainda mais do que isso: uma bênção. Estarás preparando os fundamentos para uma vida inteiramente governada por Deus.
Procure estar em harmonia com teus colegas em tudo que seja bom. Se te convidarem a cerimônias religiosas, sugiro que os acompanhes. Entra em cada templo com a mente aberta, agradecendo à oportunidade de aquietar e ouvir a “pequenina e silenciosa voz”.
Não te esqueças de que a sintonia com Deus é mais importante que o ritual. A união com os colegas no que seja construtivo suscita o bem, embora o verdadeiro bem te venha porque reconheces a graça e a glória de Deus em tudo e em todos. A coisa mais importante que desejo sublinhar-te é que, em qualquer instante do dia ou da noite, Deus é instantaneamente acessível. Basta que O sintonizes e ouças. Enfatizo este ponto para que compreendas que não precisas falar, de fazer afirmações ou lembrar a Deus tuas necessidades.
O segredo que recebi é que Deus, como Inteligência infinita, já conhece tuas necessidades, antes mesmo de Lhas pedires. Ele vê nosso íntimo quando Lho abrimos em atitude receptiva e confiante. Não é por nosso falar ou pensar, pois o Mestre ensinou: “não vos preocupeis por vossa vida, pelo que tendes de comer: nem por vosso corpo, pelo que tendes de vestir. Vosso Pai sabe que necessitais destas coisas. É do bom agrado dEle dar-vos todas elas”. Compreendes, Sammy? É do agrado do Pai dar-te o Reino! Deus não te castiga quando te arrependes sinceramente do erro ou pecado que acaso cometas. No instante em que reconheces que não agiste bem, estás perdoado. Não carregarás a penalidade quando em teu coração vibra o reconhecimento do mal que fizeste e te arrependeres. Mas deves compreender que ao reconhecer as falhas, não deves repeti-las. Caso contrário, perderás a sintonia com a graça divina. Tu mesmo é que te cortas dela. Quando isto acontecer, procura reatar com a graça, reconhecendo verdadeiramente: “Sei que errei!” Ou talvez: “Não sei se agi erradamente, mas se o fiz, ajuda-me a compreender e limpa isto de mim, Pai. Não tive má intenção. Não quero fazer o mal. Ao contrário, desejo fazer aos outros o que gostaria que me fizessem”.
Dessa maneira te purificas. Tenho-me curado de diversas enfermidades, pedindo simplesmente a Deus perdão por meus pecados. É claro que meus pecados não são graves. Conheces nosso modo de viver. Mas sempre que cedemos à crítica e condenação, não estamos amando e perdoando suficientemente. Assim, é recomendável que nos voltemos de vez em quando e digamos: “Reconheço, Pai, que não estou agindo perfeitamente. Perdoa meus pecados. Limpa as minhas transgressões, para eu começar tudo de novo”. Grava bem, Sammy, a mais importante lição que me foi dada: “que o lugar em que estás é solo santo”, ou seja, Deus está exatamente onde estás, disponível, no instante em que páras de pensar, de falar e de te identificar com as coisas externas, e te voltas ao íntimo, reconhecendo-Lhe o Poder e a graça.
Conscientiza o Espírito de Deus em ti e, em seguida, relaxa-te por um ou dois minutos, deixando que Ele Se manifeste. Isto é tudo. Todo o nosso propósito é de levar as pessoas à realização da onipresença de Deus e sua constante disponibilidade; de nos dirigir a Ele sem pensamento nem palavras: basta a humildade de sentar-nos (ou mesmo em pé ou deitado), fechar os olhos e reconhecer: “Eu, de mim mesmo, nada posso. O Pai, em mim, é Quem faz as obras. Fala, Senhor, que teu filho escuta”. Em seguida, aguardar um ou dois minutos em silêncio expectante, antes de se levantar e prosseguir as tarefas. Se aprenderes a praticar corretamente este exercício quatro vezes ao dia, como lhe estou sugerindo, não demorará muito para que o faças mais vezes ao dia, para teu inteiro benefício."
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