quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dado, informação, conhecimento e sabedoria.

Em que contribui a TI (Tecnologia da Informação) para o desenvolvimento de uma espiritualidade necessária à própria reflexão acerca de sua evolução? ou à ética de seu uso?
Me parece que o homem quebrará, neste século ainda, outros limites do imaginável em seu processo de criação. Porém, os horrores do século passado deixaram mais do que claro que a razão pura, ciência/tecnologia, não basta; precisamos aprofundar e fazer evoluir cada vez mais a razão prática, os valores. Mas como esta última pode evoluir? Qual é o papel da ciência e da tecnologia nessa evolução? se é que possa existir algum, já que parece impossível passar do conhecimento descritivo ao normativo. Da ciência à ética.
É possível lançar pontes para além do conhecimento, alcançando algum grau de sabedoria? A tecnologia pode nos ajudar nisso, como?

Em filosofia a pergunta (clássica) seria: "é possível passar da descrição ao valor?" e, classicamente, a resposta da filosofia a esta pergunta é, em geral, negativa: não há como explicar o surgimento de valores a partir apenas da descrição de processos naturais (da ciência), mesmo que apoiados na mais avançada tecnologia. Porém, em filosofia raramente (nunca) existe consenso. Sam Harris é um nome a contestar a negatividade desta resposta. Distante do racionalista Sam Harris, o místico, Pierrre Weil denominou "Mutantes" as pessoas que experimentam e vivem esse processo de transformação.

De toda forma, voltando ao cerne desse post, na disciplina Sistemas de Informação, quando buscamos entender a natureza da relação que o homem constrói com suas máquinas, e consigo mesmo através delas, o conceito de Pirâmide Informacional é recorrente. Trata-se de uma complexa hierarquia, ou pirâmide, que relaciona os fenômenos dado, informação, conhecimento (explícito e passível de representação; ou tácito, i.e., empírico, advindo da experiência e de difícil representação) e sabedoria. Esses fenômenos formam um todo. São dificilmente separáveis uns dos outros, mas podem ser distinguidos por nossa inteligência analítica.
Tais fenômenos são todos interessantes, objetos de estudos aprofundados de uma nascente disciplina, a Filosofia da Informação (vide L. Floridi). Quero, neste post, me ater a apenas um deles, a Sabedoria.
Como definição do termo, esta me parece razoável: seria o "máximo grau de lucidez, no máximo grau de felicidade" (cf. alguns filósofos). Somos capazes de experimentar algo assim? Estaria a humanidade, em sua evolução, trilhando esse percurso? Seria possível alcançar uma sabedoria que nos salve da auto-destruição, da aplicação da tecnologia sem preocupação ou reflexão ética?
Alguns filósofos disseram, e outros ainda dizem, que somos capazes, e sem cair no obscurantismo. Precisaríamos, contudo, para alcançar a sabedoria desenvolver no caminho uma certa espiritualidade. Espiritualidade que pode até prescindir da religião, mas dificilmente poderia prescindir da comunhão em determinados valores. Precisaríamos aprender mais sobre o Amor, e assim aprendermos a amar mais e a amar melhor. "Ciência é conhecimento organizado, sabedoria é vida organizada" (I. Kant). E é preciso ir além da experiência já que "esta não nos ensina sobre as essências das coisas" (B. Espinoza).

Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo, vai mais longe ao recusar o auxílio de qualquer religião, e diz em um de seus livros: "O Século XXI será o de uma espiritualidade laica ou não será nada". Ele exagera? Acho que sim e não. Embora a religião, baseada que está na esperança, possa atrapalhar o desenvolvimento da espiritualidade focada mais fortemente no amor e na fidelidade (e não na fé e na esperança), muitos ainda encontram nela o locus de possibilidade único para o desenvolvimento de qualquer vida espiritual.

Uma espiritualidade laica não se fundamenta na esperança, que teima em nos desviar a vida do momento presente. Deve-se esperar por uma outra vida que não esta, nos prendendo no passado ou no futuro, mas não no presente, no agora. Esperar aquilo que não depende de mim? qual o sentido? Mas daquilo que depende de mim, para que esperar? o melhor seria agir. Fé ou fidelidade? Se o reino é para ser experimentado aqui e agora, para que ter fé?
A religião, ocidental, possui uma concepção acerca da eternidade que pode estar enganada. Eternidade como tempo linear, que não acaba. Outra concepção poderia ser a de eternidade como ausência do tempo. Apenas o presente existiria. O presente que se mantém presente. Pode-se pensar: "no agora, o passado não existe mais, e o futuro ainda não existe". Resta então apenas o momento presente, com a memória presente do passado e com os projetos que virão no futuro, apenas os que dependem de mim.
Mas é um caminho muito difícil. Na maior parte das vezes em que estamos conscientes nos pegamos presos no futuro, a esperar o que não depende de nós; ou presos no passado, porque não conseguimos resolver nossas contas com ele (arrependidos, frustrados). 

Dados > informação > conhecimento > ..., sim, mas parece haver um hiato aqui, separando a sabedoria dos outros anteriores. As sociedades mais bem resolvidas sob o ponto de vista tecnológico e científico não parecem entretanto mais felizes, além de um limite que parece constante. Depois de termos conquistado tudo em nossas vidas, não nos sentimos mais felizes por isso.
Mas mesmo assim, esse poderia ser o destino do ser humano, uma evolução em direção à sabedoria? Mesmo que seja possível, uma coisa parece clara: se nesse percurso ou evolução, que passa também por uma forte humanização da tecnologia (principalmente talvez da TI), pararmos no patamar (ou nível do) conhecimento, e se esse patamar nos bastar, então realmente talvez não sobrevivamos ao Século XXI. Não desenvolveremos nossa dimensão espiritual. Isso diz muito sobre a premência da ética na ciência hoje (poder-se-ia recorrer à fenomenologia aqui? mas não tratarei disso neste já extenso post).

Seguindo Comte-Sponville e vários outros autores, também acredito que é preciso encontrar uma espiritualidade sem dogmas, laica. Paradoxalmente, a igreja pode nos abrir ou fechar para a espiritualidade. A espiritualidade nada mais é do que a vida do espírito em nós, ou seja a experiência da consciência em nós. É a relação entre o finito em nós e o infinito do universo, do temporal em nós com o eterno (ou atemporal). Se, por acaso, nos sentirmos fechados por dogmas, devemos nos libertar. Nos libertar dos conceitos incutidos muitas vezes pela igreja ou pela  tradição, que infelizmente, em sua maior parte, tende a verbalizar ideologicamente a mensagem de Cristo. 

Com efeito, parece premente hoje buscarmos uma espiritualidade que nos previna, tanto contra o fanatismo quanto contra o niilismo, mas que não nos jogue no obscurantismo. No post Falando de Amor escolhi, para me instruir sobre o tema do Amor, as ideias de Sponville que versam sobre a história contada no livro Banquete de Platão - ou, "a propósito do Amor".

Segundo guias espirituais, como o contemporâneo Eckhart Tolle, a passagem do nível do conhecimento para o nível da sabedoria na pirâmide informacional, requer forte trabalho sobre o ego. Com efeito, parece que o ego nos impede de viver o "agora". Nos aprisiona no passado ou nos ilude com expectativas ou esperanças futuras.

Buscando subir na pirâmide e alcançar algum grau de sabedoria, parece que o conhecimento não é mais suficiente ou pouco importa, muito menos a informação ou o dado (parece haver um hiato que os separa da sabedoria). Além de um determinado limite, os nossos problemas individuais ou coletivos não parecem poder ser resolvidos com mais reflexão, mais racionalidade, com mais pensamento ou pensando mais fortemente (no sentido de um subjetivismo cartesiano). Na maior parte dos casos isso pode até atrapalhar, pois o mistério mais profundo do Ser não nos é dado conhecer, mas apenas sentir, experimentar (caberia reflexão sobre como a filosofia de Merleau-Ponty, fenomenologia da percepção, pode ser útil aqui). Nesse sentido, pode-se citar Inácio de Loyola quando diz:  "Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir, experimentar e saborear todas as coisas internamente".

Um caminho? místico, racional? difícil dizer. Talvez buscando uma maior conexão com o momento presente e também com o outro (pessoa humana), possamos trazer alguma "energia cósmica" inerente à vida que possa nos ajudar. Uma sensação mística que às vezes, embora raramente, nos ocorre de ligação com o Todo; de que somos parte de um Todo muito maior do que nosso corpo ou nossa insignificante personalidade (experiência de unidade). O exercício de manter nossa consciência mais alerta, mais presente, mais atenta ao momento presente, me parece também um caminho (experiência de simplicidade). Talvez essas experiências possam ser desenvolvidas a partir de um melhor entendimento acerca do papel do amor em nossa existência. Coração e razão não são duas coisas diferentes, mas formam um todo (que na modernidade Kant separou em suas obras críticas). Sente-se que é o coração que abre o Ser à razão, ao entendimento. A razão seria a guia, mas o amor é o motor, vem primeiro.
Se conseguirmos preservar essa conexão com o momento presente durante os nossos dias, ao realizarmos nossas tarefas do dia-a-dia, em nossos relacionamentos, então seremos mais tranquilos, serenos, mansos, mais em paz.
Talvez assim, não somente seremos capazes de atingir algum grau de sabedoria, como comporemos o conjunto, cada vez mais numeroso, de seres conscientes de que são dotados da energia positiva e criadora de vida no universo (seres Mutantes).

Mas, voltando ao início, em que contribui a TI para o desenvolvimento de uma espiritualidade necessária à própria reflexão sobre sua evolução e nossa evolução? Alguns elementos para responder poderiam ser: imaginar como a Internet quebra os limites do tempo/espaço, e ideias (memes) iluminadas, de pessoas sábias, de raciocínio claro, passam a ter divulgação universal e imediata. Não apenas essas ideias estão à disposição, como estão relacionadas entre si, e competem entre si, já que todas as ideias são imediatamente relacionadas pelos mecanismos de busca e recuperação de informação.

Claro que o mal está também presente. Antes de nascer, ainda no ventre de nossa mãe fazemos parte do Todo. Ao nascer somos separados desse todo, ganhamos aos poucos uma consciência. Estamos então expostos ao mal, assim como ao bem. Pecar é escolher o mal. É porque o mal existe, em cada um de nós, que precisamos participar da construção do Bem. Abraçemos a glória e não a miséria humana em nós (Pascal). Precisamos espalhar e alargar a comunidade dos "Mutantes" de Pierre Weil (Universidade da Paz) e tantos outros sábios; mas este é outro assunto.

3 comentários:

Lú Silva disse...

Concordo desque que a pessoa se sinta bem e semeie o bem, que mal tem?!
Acho possivel, mas não vivencio, a espiritualidade sem religião!!!!

Abraço

Marcello Bax disse...

Cristo é um modelo, para os ocidentais o maior, dessa espiritualidade vivida no amor pelo outro (amor agapè), ou seja na caridade. Mas a religião não é obra de Cristo, e sim dos homens. Assim, penso que a religião não é necessária à espiritualidade.

Marcello Bax disse...

Lú, assim como Compte-Sponville eu acredito que podemos encontrar uma espiritualidade sem dogmas, que nos previna, tanto contra o fanatismo quanto contra o niilismo. Isso porque diante do desenvolvimento científico que se dará nesse século, ou ele será laico ou não será.