Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder...
"
Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Hominescência


Michel Serres nos oferece a palavra hominescência para dizer que a humanidade vive, desde a segunda metade do século 20, uma grande mudança na sua relação com o tempo e com a morte.
O termo tem como desinência "escência" (incoativa*), que desígna o início frágil de um processo; por exemplo de fervura, de iluminação, de floração: efervecência, luminescência, florescência, incandescência, senescência ou adolescência.

Percebe-se nestas palavras uma dimensão de "vai-e-vem", de crescimento/decaimento, brilho/escurecimento, avanço/regressão. A hominescência seria um processo que, por afastamentos repetidos de um extremo a outro, vai renovando a hominização.

Não está claro o que ela vai produzir: uma humanidade, uma outra humanidade ou outros graus de humanidade. A hominescência é concentrada em um período reduzido de tempo: algumas décadas... em uma escala (de hominização) que pode ser contada em milhares de anos ou milênios.

Segundo Michel Serres, a hominescência se desenvolve por ciclos sucessivos:
1. Primeiro ciclo: o homem cria ferramentas externas e técnicas que estendem seus órgãos. Alguns animais são domesticados e o homem vive com eles.
2. Segundo ciclo: o corpo se globaliza, a Terra entra na história. Constituindo um novo habitat, o homem produz a natureza.
3. Terceiro ciclo: o homem perde suas faculdades, que são terceirizadas para dispositivos: memória, voz, conhecimento. A ciência e a tecnologia tornam-se capazes de mudar o seu corpo (que se torna visível e glorioso), e melhorar a sua saúde. Inventam-se objetos mundiais (Internet, genoma, a bomba atômica), ferramentas paradoxais que moldam o seu mundo, lhes dão poder de decisão sobre sua própria emergência e/ou morte, mas que ele não controla.
A história se faz evolução. Ela procura um novo equilíbrio.
Definindo os limites do humano, a hominescência os move. Ela exige um debate bioético que redefine e reconstrói a humanidade.


*Adj. Que começa; inicial; inceptivo. Diz-se dos verbos que denotam o começo de uma ação, como envelhecer, adormecer etc.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ontologias e seus espaços de aplicação

Queria dar uma palavrinha sobre ontologias e seus espaços de aplicação. Me refiro, de maneira bem geral, aos espaços público, social e privado e não à domínios específicos circunscritos nesses espaços.

Além disso, as ontologias a que me refiro aqui são, mais especificamente, modelos conceituais concebidos graças a conhecimentos que estão na confluência das áreas disciplinares da 
Filosofia, Ciência da Computação, Ciência da Informação e da Linguística. Na medida em que ontologias nos ajudam a refletir mais profundamente sobre a modelagem conceitual do mundo real, elas estão sendo desenvolvidas em todos os domínios da atividade humana onde se aplica a tecnologia da informação. Elas são ferramenta útil para dirigir e orientar o esforço de modelagem do real nos três espaços principais onde se dá a existência humana: no trabalho, na ciência e na economia, existimos no espaço social, por exemplo. Mas há ainda outros dois espaços, o espaço público e o espaço privado.

O espaço privado, que no mundo real é representado pela família, é onde o ser humano encontra descanso e cuida de sua sobrevivência no sentido mais natural de sua existência no mundo. Trata-se de um espaço hoje muito confundido com o espaço social. As ontologias encontram interessantes aplicações nesse espaço também, vide as redes sociais, facebook, twitter etc.

Para além dos espaços social e privado, há também o espaço público, tão caro aos gregos -- quando o indivíduo não era mais importante do que a coletividade -- e que vem se enfraquecendo desde a era moderna com a paulatina e gradual transformação da "polis" em "metro-polis". Na metrópolis, o espaço público se confunde com o espaço social (sem o cuidado que têm as cidades européias, algumas milenares, as nossas cidades são infelizmente organizadas para a produção e o fluxo de mercadorias e não para o encontro dos cidadãos).

Onde estaria o espaço público hoje, na contemporânea pós-modernidade?
Que desiludida ideia fazemos da política, exercício realizado na pólis?
O espaço público é por excelência o espaço da política, uma ordem acima da ordem da economia e da ciência. É no espaço público que o homem constroi a sua humanidade, mais do que no espaço social e privado. É nesse espaço que o homem excede a sua natureza, no sentido de ir além de sua mera reprodução e sobrevivência, e projeta no espaço comum, comunitário, público, a força da sua expressão, da sua vontade, da sua humanidade.

Pois quero notar que estão neste espaço público -- esquecido hoje, já que sobrepujado por uma vida cada vez mais individualizada -- interessantes aplicações de ontologias. Penso principalmente nas aplicações de dados abertos vinculados, governo aberto, governo eletrônico, e também nos WikiLeaks que se multiplicam pela internet etc. Aqui, pesquisadores de ontologia necessitam do socorro de disciplinas, para além daquelas que citei no início, como a Sociologia e a História e outras das humanidades.

Queria concluir imaginando que, na tarefa sem fim de modelar o real, há muito o que fazer ainda em cada um desses espaços: social, público e privado. Muitas aplicações virtuais serão desenvolvidas com apoio das ontologias. Cuidemos apenas para que no desenvolvimento e uso dessas aplicações estejamos atentos e não confundamos, como ocorre hoje, os espaços público, social e privado. São espaços bem diferentes, complementares e necessários.

sábado, 31 de março de 2012

O Conhecimento segundo a Filosofia da Informação

A metafísica é o estudo do que há, do que existe. Os antigos descreviam-na como o problema do ser.
Não se pode fazer metafísica sem conhecer como se pode conhecer (questão epistemológica) o que há para se conhecer (questão ontológica). Ou seja, em que condições mínimas pode-se afirmar que se conhece algo?
A questão epistemológica de conhecer (saber) como conhecemos é uma questão fundamentalmente circular. A questão ontológica de conhecer algo sobre o que existe cria ainda um outro círculo, porque aquele que conhece é ele próprio uma das coisas que existem para ser conhecidas (auto-conhecimento).

Entretanto, a princípio nada indica que essas definições circulares precisam ser viciosas. Elas podem simplesmente constituir um conjunto coerente de idéias usadas para descrever a nós mesmos e o mundo externo. Se as descrições são logicamente válidas, ou verificáveis ​​empiricamente, conclui-se que se está aproximando da "verdade" sobre as coisas, adquirindo conhecimento.

É necessário então descrever o conhecimento em si - como uma coisa existente em nossas mentes e no mundo externo. A Filosofia da Informação faz isso baseando-se exclusivamente na noção abstrata, mas quantitativa de informação.

A informação é armazenada e codificada em estruturas. Estruturas no mundo constroem-se seguindo leis naturais, incluindo as leis físicas e biológicas. Estruturas na mente são parcialmente construídas por processos biológicos e parcialmente construídas pela inteligência humana, que é livre, criativa e imprevisível.

Conhecimento é informação gerada e armazenada na mente e nos artefatos humanos como histórias, livros e computadores interconectados. Conhecimento é informação acionável que forma a base para pensamentos, ações e crenças.

Conhecimento inclui toda a informação cultural criada pelas sociedades humanas. Também inclui as teorias e experimentos dos cientistas, que colaboram para estabelecer o nosso conhecimento do mundo externo. O conhecimento científico é o que mais próximo está de ser independente de qualquer mente humana, embora seja ainda dependente de uma comunidade aberta de inquiridores (sociedade aberta de K. Popper).

Para além da correspondência, do isomorfismo, do mapeamento um-para-um, entre as estruturas de informação (e processos) no mundo e as aquelas representativas dessas estruturas e funções na mente, a filosofia informação afirma que temos conhecimento pessoal ou subjetivo quantificável do mundo.

Para além do acordo (de novo uma correspondência ou isomorfismo) entre a informação nas mentes de uma comunidade aberta de investigadores que procuram as melhores explicações para os fenômenos, a filosofia da informação reivindica ainda que temos conhecimento inter-subjetivo quantificável de outras mentes e do mundo externo a elas. Este é o mais perto que chegamos do conhecimento "objetivo", e conhecimento dos objetos - "coisas em si" de Kant.

O conhecimento historicamente tem sido identificado pelos filósofos com a linguagem, a lógica e as crenças humanas. Epistemólogos, desde o Theatetus de Platão e dos Analíticos posteriores de Aristóteles aos filósofos da linguagem contemporâneos, identificam o conhecimento com as declarações ou proposições que podem ser logicamente analisadas ​​e validadas.

Especificamente, a epistemologia tradicional define o conhecimento como "crença verdadeira justificada". Crenças subjetivas são geralmente expressas em termos de proposições. Por exemplo,

     S sabe que P se e somente se
     (i) S acredita que P,
     (ii) P é verdadeira, e
     (iii) S está justificado em crer que P.

Na longa história do problema do conhecimento, todos essas três condições (elas mesmas formas de conhecer) revelaram-se muito difíceis para os epistemólogos. Entre as razões ...

(i) Uma crença é um estado mental interno que está para além da compreensão plena por parte de observadores externos especialistas. Mesmo o sujeito ele mesmo tem limitado acesso imediato a tudo o que sabe ou acredita. Por uma reflexão mais profunda, ou pela consulta de fontes externas de conhecimento, ele pode "mudar de idéia". Ou seja, revisar seus estados doxásticos.

(ii) A verdade sobre qualquer fato no mundo é vulnerável ao ataque cético ou sofista. O conceito de verdade deve ser limitado a usos em sistemas lógicos e matemáticos de pensamento. "Verdades" no mundo real/empírico são sempre falíveis e passíveis de revisão à luz de novos conhecimentos.

(iii) A noção da justificação de uma crença pelo fornecimento de razões é vaga, circular ou uma regressão infinita. Que razões podem ser dadas de que as razões elas mesmas não tem outras razões que as justifiquem? Em vista de (i) e (ii) que valor tem uma "justificação" que é falível, ou pior ainda, falsa?

(iv) Epistemólogos tem estudado principalmente crenças pessoais ou subjetivas. Temendo a concorrência com as ciências empíricas e seus métodos para o estabelecimento do que seja conhecimento, eles enfatizam que a justificação deve ser baseada em razões internamente acessíveis ao sujeito. Alguns descrevem erradamente como "externas" crenças inconscientes de um sujeito ou crenças indisponíveis para a memória imediata. Estas são apenas inacessíveis, e talvez apenas temporariamente.

(v) A ênfase na lógica tem levado alguns epistemólogos à alegação de que o conhecimento é fechado sob implicação estrita (ou material). Isto assume que o processo do conhecimento ordinário é informado pela lógica, em particular, que

        (fechamento) Se S sabe que P e P implica Q, então S sabe que Q.

Porém, nós só podemos dizer que S está em uma posição para deduzir Q, se ele é treinado em lógica.

Assim, não é surpresa que os epistemólogos falharam em todos os esforços para dar ao conhecimento uma base sólida, muito menos estabelecer o conhecimento como certeza apodítica, como Platão e Aristóteles esperavam e René Descartes achou que ele tinha estabelecido, para além de qualquer dúvida razoável.

Talvez exagerando a ameaça da ciência como um método comprovadamente mais bem sucedido para o estabelecimento do que seja o conhecimento, os epistemólogos esperavam se diferenciar e preservar sua abordagem filosófica própria. Alguns sustentaram que o objetivo do positivismo lógico (por exemplo, Russell, primeiro Wittgenstein e o Círculo de Viena) que a análise filosófica deveria fornecer um fundamento normativo à priori exclusivamente baseado no conhecimento científico empírico.

Argumentos lógicos positivistas para o caráter não-inferencial auto-validativo de percepções lógicas atômicas tais como "vermelho, aqui, agora" tenham talvez levado alguns epistemólogos a pensar que as percepções pessoais podem justificar diretamente algumas crenças "fundacionistas".

O método filosófico de análise lingüística (Filosofia da Linguagem, inspirada no segundo Wittgenstein) não tem conseguido muito mais. É pouco provável que o conhecimento de qualquer tipo seja redutível simplesmente à análise conceitual cuidadosa de frases, declarações e proposições.

A Filosofia da Informação olha mais profundamente, para além da superfície das ambigüidades da linguagem.

A Filosofia da Informação distingue pelo menos três tipos de conhecimento, cada um exigindo sua própria análise epistemológica especial:

     - Conhecimento subjetivo ou pessoal, incluindo introspecção e intuição, bem como as comunicações com e percepções de outras pessoas e do mundo externo.
     - Conhecimento comunal ou social das criações culturais, incluindo ficção, mitos, convenções, leis, história, etc
     - Conhecimento de um mundo físico externo, independente de uma mente.

Nos passos da mecânica quântica, interpreta-se que quando uma informação é armazenada em uma estrutura, seja no mundo, nos artefatos humanos, ou numa mente, dois processos físicos fundamentais ocorrem. O primeiro é um colapso de uma função de onda* da mecânica quântica. O segundo é uma diminuição local da entropia correspondente ao aumento da informação. A entropia que sobra deve ser transferida para longe para satisfazer a segunda lei da termodinâmica.

Estes processos de nível quântico são suscetíveis ao ruído. A informação armazenada pode ter erros. Quando a informação é recuperada, é novamente suscetíveis ao ruído, que pode adulterar o conteúdo da informação. Em ciência da informação, o ruído é geralmente o inimigo da informação. Mas um pouco de ruido pode criar liberdade, uma vez que é a fonte de novidades, de criatividade e invenção, e de variação no pool genético biológico.

Sistemas biológicos têm mantido e aumentado o seu conteúdo invariável de informação ao longo de bilhões de gerações. Nós (humanos) aumentamos nosso conhecimento do mundo exterior, apesar da incerteza lógica, matemática e física que persistem sobre ele. Ambos, sistemas biológicos e homens fazem-no em face do ruído aleatório, trazendo a ordem (ou cosmos) ao caos. Ambos fazem-no com a detecção de erros e o uso de esquemas sofisticados de correção que limitam os efeitos do acaso. O esquema que usamos para corrigir o conhecimento humano é a ciência, uma combinação de teorias livremente inventadas e experiências adequadamente determinadas.


*Na mecânica quântica, o colapso de uma função de onda (também chamado de colapso do vetor de estado ou redução do pacote de ondas) é o fenômeno em que uma função de onda inicialmente em uma superposição de vários diferentes possíveis eigenstates (valor próprio ou autovalor) - parece reduzir a um único dos estados após interação com um observador. Em termos simplificados, é a redução das possibilidades físicas em uma única possibilidade como pode ser vista por um observador. É um dos dois processos pelos quais os sistemas quânticos evoluem no tempo, de acordo com as leis da mecânica quântica como apresentados por John von Neumann.

Reflexões sobre estar desconectado equivaler às vezes a "estar no inferno".

Essa palestra do filósofo L. Floridi explica aspectos de algo que ouvi outro dia: de que "estar desconectado hoje, especialmente na escola, faculdade, universidade, é pelo menos um pouco como estar no "inferno", na tristeza, na baixa de potência"; pelo menos quando esse "estar" desconectado resulta de uma restrição tecnológica, exclusão digital, i.e. de uma imposição ao indivíduo. Pois é claro que a pessoa é livre para escolher estar ou não em um meio-ambiente exclusivamente, ou mais ou menos, natural e limitado em relação à tecnologia ou culturalmente (assumindo-se uma divisão ontológica entre cultura e natureza).

Fato é que, de 20 anos para cá, nosso meio ambiente vem mudando cada vez mais rapidamente com as TICs. Se aceito o pensamento de Heidegger apresentado abaixo, esse novo meio-ambiente também nos transforma. Ele pode nos dizer fortemente algo sobre nós mesmos. Por exemplo, podemos nos descobrir como "inforgs", acrônimo usado por L. Floridi para designar "organismos informacionais". 
Vou tentar me basear no pensamento de Heidegger para fundamentar melhor o que eu quis dizer com a brincadeira do "inferno" a que me referi acima. Pois, até onde eu pude entender, esse filósofo tentou mostrar, em sua obra "Ser e Tempo" o que é o próprio do Ser do ser-humano (e com isso fundamentou boa parte do existencialismo do Sec XX, influenciando pensadores como H. Arendt, J. P. Sartre, Merleau-Ponty, P. Ricoeur, M. Levinas e incontáveis outros desse mesmo peso). 
Para tanto ele partiu metodologicamente de uma fenomenologia profunda do Ser. Ele se pergunta para sí mesmo "o que é o Ser"? vai então anotando suas impressões, como prescreve a fenomenologia do ponto de vista metodológico.
Em um contra-ponto com o platonismo metafísico e o racionalismo da modernidade (inaugurado por Descartes), explica o filósofo que o Ser é um ser-ai ("dasein"), um ser-no-mundo; um ser-temporal. O Ser é constituido historicamente. Ele nasce, vive e morre e isso ocorre também embebido por uma época, por um período histórico. Ou seja, segundo Heidegger, o Ser não é uma essência estática, independente do tempo e do espaço. O Ser não se posicionaria fora desse mundo, e por isso não lhe possível colocar em perspectiva (da razão pura) o universo que ele habita. Como geralmente se entendia no campo da ciência e da metafísica desde Platão e sua teoria das ideias/formas/universais. Segundo Platão todas as coisas ou entes no mundo são explicados por suas respectivas essências imutáveis, a-temporais e não-espaciais, porém concretas! mais até do que os particulares, indivíduos, entes. Para Platão o conhecimento não seria possível de outra forma, já que deve ser mais do que a mera percepção pelos sentidos. A noção platônica de conhecimento envolve a nossão de verdade e verdade é o isomorfismo entre o mundo das formas/ideias e o mundo real. 
Contrapondo-se a ninguém menos que Platão, Heidegger desvela uma compreensão possível do ser humano que passa a ser visto como possibilidades de abertura para um fundo sem fim, ou um horizonte universal aberto. O Ser passa a ser entendido então como essa própria possibilidade de abertura. 
Essa nova forma de pensar o Ser tem implicações profundas. Por exemplo, ela implica um novo entendimento da noção de verdade. A verdade passa a ser não a adequação entre o julgamento das ideias e o estado do mundo, como num cenário onde o sujeito observa o objeto que lhe é transcendente ou externo, mas como o desvelamento contínuo e sem fim do mistério do universo pelo sujeito, na presença do próprio Ser do sujeito. 
Mas o Ser não é o sujeito propriamente, tal como normalmente é entendido em geral. O Ser é o universo que engloba também o Ser do sujeito. Para Heidegger, o Ser é essa abertura do sujeito para o Ser do universo, juntamente com o próprio universo, formando um só Ser. Essa abertura que é o Ser, o autor denomina "Dasein"; que, em alemão, significa algo como "ser-aí"; um neologismo criado por Heidegger para expressar essa nova nova conceituação de Ser. 
Conforme sua abertura, o Dasein é mais ou menos permeável ao Ser do mundo, que por sua vez inclui os outros seres e entes humanos e não humanos, todo o universo. Além disso, se o Ser é ser-no-mundo, ele é essencialmente temporal. Ele é a partir da história de sua própria existência, no seu meio ambiente, histórico-cultural e natural. 

Vejamos as implicações desse pensamento para a época de hoje. Que implicações tem essa conceituação do Ser por Heidegger, para o entendimento mais profundo do mundo contemporâneo? Para o entendimento da sociedade da informação, abarcada e "embebida" pelas TICs? 

Ora, quando a parte cultural do mundo que engloba o Ser se virtualiza, é claro que o meio-ambiente cultural do Ser não se reduz mais ao mundo físico. Pode-se esperar que pelo menos uma parte do Ser passe a existir também em uma nova dimensão virtualizada (o mundo virtual da internet/web). 
Ocorre também que a existência nessa nova dimensão predispõe os sentidos do Ser à uma expansão. Por exemplo, muitos consideram seu notebook uma extensão de sua memória, do seu corpo, de sua sensibilidade social etc. é de se esperar que constitua-se assim, com o passar do tempo, um certo sentido expandido ou até, melhor dizendo, um outro sentido adicional, um "sexto sentido" do Ser. 
Pode-se considerar até como uma espécie de "sentido da informação", que o conecta ao mundo virtual e que se naturaliza com o passar do tempo. 
Por outro lado, vão existir também vários efeitos adversos que impactam o sujeito. Há pesquisas mostrando prejuízos do desenvolvimento cognitivo e redução da capacidade crítica, além de vários outros como a alienação, consumismo e dependência. 

Voltando ao início do texto, é aí que se poderia pensar que o fato de estar em um meio-ambiente desconectado, sobretudo para alguém dependente, pode passar a ser análogo à anulação de um dos sentidos do Ser, desse "sentido da informação". 
Extrapolando bastante (talvez nem tanto), pode-se dizer que essa perda seja até mesmo comparável ao que seria a perda de um nos sentidos naturais. Como se, em determinado espaço físico (uma bar, uma praça, uma escola) o Ser ficasse cego, surdo, sem paladar, olfato ou tato.  

Sugere-se que o "bem-estar" subjetivo hoje significa também poder articular-se no ideal de um novo meio-ambiente, em parte virtualizado, que permite e as vezes requer e exige a imersão do Ser na infosfera. 

Portanto, seguindo esse pensamento, acho que será difícil para uma instituição como a escola hoje atrair alunos se esses mesmos alunos têm a sensação de ter o seu sentido da informação bloqueado, logo quando eles mais necessitam dele, no momento do aprendizado, da intelecção. A angústia que gera essa necessidade não satisfeita, seria talvez responsável pela impressão ou sensação de ir para, ou estar no "inferno"... passar algumas horas desconectados tendo aula com professores que, às vezes, dão a impressão de ter parado no tempo, há mais de 20 anos.

Claro que alguns indivíduos irão utilizar a conexão para fugir do mundo físico e se alienar, mesmo que momentaneamente, caso este não o satisfaça por uma razão ou outra (fuja para o facebook por exemplo). Mas, numa concepção mais libertária da educação, essa fuga é prerrogativa de liberdade. Não parece haver muito o que fazer, pois o Ser é livre para escolher sua vida a cada momento da existência. 
Pirâmide informacional
Aqui parece haver matéria para se pensar também várias outras questões fundamentais: como a questão da educação (grau de autoridade e hierarquia x liberdade necessária para originar o novo); a questão ética na sociedade da informação e a ética da informação. 

Na sociedade da informação parece existir, cada vez mais, uma pressão sob a dimensão ou ordem da ética. Dimensão representada esquematicamente pelo 4o. andar da "pirâmide informacional" (dado > informação > conhecimento > sabedoria). 

Quando tudo se transforma em sistema de informação, parece haver uma pressão social que vem de baixo para cima na pirâmide informacional. Como forças que, se por um lado impelem ou obrigam o Ser a uma existência mais moral e ética, por outro aliena e confunde tantos outros. 

Costumo dizer que, na sociedade da informação, quem sobe no palco é a ética. Mas esse fenômeno ainda não está tão claro e articulado em minha mente. Há vários efeitos adversos decorrentes da ubiquidade da informação que precisam ser mais amplamente discutidos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Hermenêutica

Hermenêutica é um ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação quanto à teoria da interpretação. A hermenêutica se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito. Numa visão contemporânea, engloba não somente textos escritos, mas também tudo o que entra em jogo no processo interpretativo. Isso inclui formas verbais e não-verbais de comunicação. A hermenêutica refere-se principalmente à teoria do conhecimento de Hans-Georg Gadamer, tal como desenvolvida em sua obra "Verdade e Método" (Wahrheit und Methode), e algumas vezes na obra de Paul Ricoeur (texto inspirado de verbete da wikipedia, consultado em outubro de 2011).

A interpretação de qualquer coisa envolve uma certa compreensão e eventualmente ser capaz de explicar essa coisa.

Sobre a diferença entre Explicação e Compreensão.
Segundo W. Dilthey, estes dois métodos de interpretação estariam opostos entre si. Explicação, própria das ciências naturais e compreensão, própria das ciências humanas e sociais, ciências do espírito:
    "Esclarecemos por meio de processos intelectuais (racionais), mas compreendemos pela cooperação de todas as forças sentimentais presentes na apreensão, pelo mergulhar das forças sentimentais no objeto." (Wilhelm Dilthey).

Paul Ricoeur, filósofo francês que trabalhou áreas da fenomenologia e da hermenêutica, visou superar esta dicotomia. Para ele, compreender um texto é encadear um novo discurso no discurso do texto. Ler é apropriar-se do sentido do texto. De um lado não há compreensão/reflexão sem meditação sobre os signos; do outro, não há explicação sem a compreensão do mundo e de si mesmo.

Essa contribuição de P. Ricoeur, que vence a dicotomia entre razão pura e prática, parece-me útil para ponderar sobre a natureza do processo de "tomada de decisão". Como tomamos uma decisão? no trabalho, em nosso dia-a-dia? Qual é o papel da razão e qual é o papel do coração em uma tomada de decisão? Pois P. Ricoeur parece estar dizendo que os dois estão juntos, sempre, inseparáveis. Nossas chances de errar, e tomar uma decisão equivocada aumentam se os considerarmos como dois absolutos, separados.
Eis a sequência temporal: e moção (produto involuntário do corpo), pensamento (a emoção atinge a conciência), razão/explicação (julgamento). Se assim for então Espinosa tem razão: "não é porque eu julgo que uma coisa é boa que eu tendo em sua direção, mas porque eu tendo em sua direção que eu a julgo boa".
Curiosamente encontrei a mesma questão, por acaso, em um diálogo entre o mestre Svami Prajnanpad, sábio indú, e seu aluno Daniel Roumanoff. Em uma das passagens o mestre  diz: "Sentir d'abord, puis décider, ensuite agir. Mais ce sentiment doit être un sentiment e non pas une identification émotionnelle." (do livro "Vers La Réalisation de Soi", Ed. Accarias L'Originel). "Primeiro sentir, depois decidir, em seguida agir. Mas o sentir deve ser um sentimento e não uma identificação emocional".
O que deixa claro como a razão aqui é considerada também como um afeto do corpo (vide Spinoza) e não como uma abstração instrumental de uma razão que se pretende "desembarcada", fora do corpo (no sentido do que pregava a dualidade Cartesiana).
Mas como um sentimento pode ser diferente de uma "identificação emocional"? Essa última se refere à identificação daquilo que está na ordem da intuição com algo que está na ordem do conceitual, de um conceito. Ora o que Prajnanpad parece querer dizer não é que tal identificação não deva ocorrer, mas que ela deve apenas ocorrer na fase posterior da decisão: "..., puis décider, ...".

Isso parece sugerir um ponto crucial para o nosso tempo ou sociedade contemporânea: toda decisão carece de um tempo (um tempo para "sentir"), toda decisão bem tomada não virá necessariamente sem um tempo adequado para a fase do "Sentir".
Esse sentir é anterior e mais interior (na ordem do conhecimento) do que a fase seguinte (da decisão), i.e., da identificação emocional, que já é conceitual, ou seja de ordem informacional.
A consideração desta passagem no diálogo referido me parece reforçar a reflexão de P. Ricoeur.

Indo além, recordo-me ainda de Santo Agostinho, que dizia: "Creio para enteder...". Mas não detalharei esse ponto agora. Fica para outro post

segunda-feira, 13 de junho de 2011

As quatro ordens

Tentei reproduzir abaixo, o mais fielmente possível, as ideias propostas pelo filósofo André Comte-Sponville sobre as 4 ordens.

"Se colocar o problema do limite é perguntar o que não é permitido.

1. A ordem econômica, técnica e científica 
Podemos começar por exemplo, nos perguntando sobre os limites que devem ser definidos para as ciências da vida. A biologia pode dizer quais são os fatores genéticos tecnicamente possíveis, mas não é o seu campo dizer que esses são ou não permitidos. Assim é para a economia de mercado.
Tem-se aqui um primeiro domínio, o domínio econômico-técnico-científico, estruturado internamente pela oposição entre o possível e o impossível. Deixado à sua
única e exclusiva espontaneidade, ele realizaria o que o biólogo Jacques Testart chamou de "uniquematie do universo técnico", cujo princípio é que tudo será feito, desde que a anarquia tome conta. No entanto, o possível torna-se particularmente assustador hoje. Por conseguinte, é necessário limitar esta tecno-ciência, e limitá-la do exterior, já que ela é incapaz de limitar-se.

2. A ordem política e jurídica
Então eu apresento uma segunda ordem, a ordem da lei e da justiça, estruturada internamente pela oposição de legal e ilegal. Ela também é incapaz de se limitar, e isso é necessário por duas razões:
- Uma razão individual: uma pessoa que respeitasse escrupulosamente a lei país onde vive, mas que se contentasse com apenas isso, poderia muito bem mentir, ser egoísta e má. A lei não a impediria tal comportamento, obviamente. Não se tem nada nessa ordem, nem na primeira, para escapar ao fantasma do "bastardo legalista" e, talvez, também cientificamente competente.
- Uma razão coletiva: alguns anos atrás, na Sorbonne, propus como tema de dissertação em filosofia política: "O povo teria todos os direitos?" Quase todos os alunos responderam que em uma democracia, o povo é soberano e ele tem todos os direitos, já que é ele que faz o direito. A conclusão lógica desta posição é que pessoas têm direito a medidas antidemocráticas.


3. A ordem da moral
O campo que limita a política e a justiça é aquele da moral, estruturada internamente pela oposição entre o bem e o mal, do dever e do proibido. Parece que a moral não precisa ser limitada: como é que seria algo "ético demais"? Mas essa ordem pode e deve ser completada, porque ela é insuficiente. Um indivíduo que fizesse sempre o seu dever, e apenas o seu dever, seria um fariseu, careceria de uma dimensão talvez essencial: o amor.

4. A ordem do amor
Daí uma quarta ordem: ordem da ética, a ordem do amor, que não se limita à ordem da moral, mas a completa, a abre pelo alto. Eu chamo o que fazemos por dever, de moral. A ética é o que fazemos por amor.

Eu não vejo bem o que poderia ser colocado acima do amor. Um crente pode considerar uma quinta ordem, a ordem do divino, o que garantiria a coesão do todo. Mas a fé é uma possibilidade que eu não posso fazer minha, e que eu não sinto falta, porque o amor infinito não é a temer, por duas razões: nós não desejaríamos nada melhor, e ele não é a nossa maior ameaça.

Pretender que o capitalismo seja moral, portanto, seria afirmar que a primeira ordem seria submetida à terceira, que eu acho que é excluída pela estrutura interna de cada uma dessas ordens: o possível e o impossível não tem nada a ver com o bem nem com o mal. 
Imagine a reação de um físico, que ao explicar-lhe a equação de Einstein: "E = mc2", e que você argumentasse que isso não é muito moral, porque detonou bombas atômicas. Ele responderia que vocês não falam da mesma coisa.

Na ordem econômico-técnico-científica, nada nunca é moral. Nada é imoral, porque, para ser moral, deve ser imoral. Tudo é amoral, o que significa que a moralidade privada é irrelevante explicar um processo que se desenrola nesta primeira ordem.
 

Para a pergunta: é o capitalismo Moral? Eu respondo isso: obviamente que não. Porque ele é radicalmente e permanentemente amoral. Se quisermos ter uma moral numa sociedade capitalista, essa moralidade deve vir de outro lugar que o mercado."

sábado, 11 de junho de 2011

Até que ponto a informação nos revela a verdade?

Resenha do Capítulo "A verdade e nós" do livro “Valor e verdade: estudos cínicos”, de André Comte-Sponville.
O livro reúne “doze estudos que têm em comum versar sobre um mesmo objeto, que é a relação entre valor e verdade”.

O autor estrutura seu texto em torno das três perguntas fundamentais com as quais I. Kant define a filosofia:
  1. "O que podemos conhecer?" questionamento respondido pelas disciplinas: epistemologia e ontologia. Esta última pergunta: "o que há? para podermos conhecer"; 
  2. "O que devemos fazer?" objeto de estudo da filosofia moral (ética); e 
  3. "O que podemos esperar?" problema refletido pela metafísica e pela espiritualidade. A metafísica o aborda por meio de termos, conceitos e raciocínios. A espiritualidade por meio de experiências e vivências às vezes compartilhadas. 
À luz desse esquema teórico, Comte-Sponvile analisa a nossa modernidade.

O que é a verdade para o cientista? se para o filósofo a resposta pode variar, para o cientista a verdade é, no mínimo, tudo aquilo que se sabe cientificamente hoje; mesmo que o futuro a revele sempre incompleta e as vezes equivocada.

Nossa modernidade teórica (o que podemos conhecer?)
Aprendemos a distinguir nossos conhecimentos (relativos, parciais, provisórios) da verdade (eterna e absoluta). O próprio progresso do conhecimento e da lucidez epistemológica nos desiludiu desse ideal. A identidade entre o ser o e conhecimento nos é vedada - não apenas de fato, como de direito e definitivamente - pelas próprias condições que tornam esse conhecimento possível. O pensamento só pode se identificar com seu objeto na medida em que primeiro o constitui como objeto (de conhecimento), o qual não é o ser. O real é velado ou distante, embora estejamos dentro dele. Lição da física quântica (Bohr, Heisenberg), bem como da epistemologia contemporânea (Popper). Mesmo antes, Montaigne e Pascal já diziam: "Não temos nenhuma comunicação com o ser". Nunca conheceremos o verdadeiro a não ser indiretamente, pela mediação do falso, que às vezes sabemos detectar. Nenhum contato absoluto com o absoluto: o ser nos contém, mas nem por isso saberíamos contê-lo adequadamente.
Quer isso dizer que não há verdade, como às vezes ouve-se falar? Claro que não: se nada fosse verdade, não seria verdade que não há verdade, e é por isso que a proposição "não há verdade" se auto-destroi. A verdade é o que diferencia nossos conhecimentos de nossas convicções ou opiniões. Kant separava três ordens de pensamento. O "saber":  como um pensamento subjetiva e objetivamente suficientes; de uma "convicção": um pensamento subjetivamente suficiente mas objetivamente insuficiente; de uma "opinião": um pensamento tanto subjetiva quanto objetivamente insuficientes.
Postulado da razão teórica, que garante algum racionalismo: há verdade já que há conhecimento. Só há conhecimento na norma da verdade dada ou possível.
Com isso não se altera a concepção semântica da verdade. Como diria Tarski, a verdade de uma proposição consiste sempre em sua correspondência com a realidade. "A proposição 'a neve é branca' só é verdadeira se a neve é branca"; mas isso não altera o estatuto ou o alcance ontológico do conhecimento (o ser, para ele, está fora de alcance, ou só poderia ser atingido indireta e aproximadamente). Pode haver verdade em nossos conhecimentos, mas nossos conhecimentos não são a verdade, nem poderiam identificar-se com ela. Este é o abismo que funda nossa modernidade teórica.

Nossa modernidade prática (o que devemos fazer?)
Separação entre valor e verdade. Classicamente os filósofos consideravam que o verdadeiro e o bem andavam juntos: que o verdadeiro era o bom e o bom era o verdadeiro.
Aristóteles (em Metafísica): "É porque algo é bom que este algo nos parece desejável, em vez de este algo nos parecer bom porque o desejamos: o princípio é o pensamento; ora, o intelecto é movido pelo inteligível..." Como desejaríamos o que não conhecemos? E por que desejaríamos conhecer se a verdade não fosse boa?
"Tudo o que é, é bom", dirá Santo Agostinho; "o bem e o ser são uma única e mesma coisa", dirá são Tomás; e o mal nada mais é que uma privação ou que um ser menor. Deus é a verdade que faz norma: graças ao que nossos valores são verdadeiros, graças ao que nossas verdades valem. Isso durou uns dois mil anos, e fez uma civilização - a nossa civilização judeo-cristã.
Descristianizando-se o Ocidente, foi necessário porém procurar outra coisa. O que primeiro se encontrou foram deuses substitutos: a ciência depois a história, ou antes, os que diziam seguí-la pretenderam assim conjungir por sua vez o verdadeiro e o bem, o ser e o dever-ser, a verdade e o valor. Daí essa religião da Ciência, que foi o cientificismo, ou essa religião da História, que foi o marxismo.
Dizia Hegel: "O mundo real é tal como deve ser", "o verdadeiro bem, a razão divina universal é também a potência apta a se realizar. Esse bem, essa razão, sob a sua representação mais concreta, é Deus".
Esses ídolos não existem mais. Quanto mais as ciências progridem, mais parece que eles são incapazes de resolver qualquer problema normativo. As ciências não comandam; as ciências não julgam. As ciências não poderiam portanto substituir nem a religião, nem a moral, nem a filosofia. Incapazes que são de nos prescrever o que fazer. Assim as ciências ou a história não nos dizem mais sobre o bem. Conhecer não é mais julgar; julgar não é mais conhecer. Os conhecimentos cessaram de erigir-se em norma; os valores cessaram de ser verdadeiros. Nossos valores não se fundam mais em nossos saberes. Em que fundá-los então? No desejo. É preciso inverter a proposição de Aristóteles: "uma coisa nos parece boa porque nós a desejamos, e não o contrário: só desejamos porque ela nos parece boa" (Espinosa). O Verdadeiro não é o bem: nenhum bem é verdadeiro. É mais um abismo que funda nossa modernidade prática. O que vale não é o que conhecemos, mas o que desejamos, queremos e amamos. "A justiça não existe, é por isso que é preciso fazê-la" (Alan).

Nossa modernidade espiritual (o que podemos esperar?)
Amar a Deus, se nele cremos, era amar a Verdade que nos amava - e a verdade era, assim, tanto mais amável quanto a sabíamos infinitamente amante! Mas eis que a verdade, sem se abolir, cessa de se fazer passar por amante, em outra palavras, Deus morre. Eis que nos anunciam, não que não há mais verdade, mas que ela não nos ama, que é indiferente a tudo, isto é, a ela própria! Divórcio entre amor e verdade. Conhecer não é amar; amar não é conhecer. Quantas verdades odiosas! Quantos erros amáveis! modernidade espiritual: nem mesmo a verdade é Deus!
Devemos por isso nos afogar no niilismo e na sofística? Somos capazes de amar a verdade apesar de tudo, ainda que ela não corresponda às nossas esperanças. É possível que a verdade seja triste?
Ainda que ela não nos corresponda, saberemos aprender a amá-la sem retorno, de um amor desinteressado, amar em pura perda, a amar solitariamente, desesperadamente (sem esperar)?
Não que seja preferível. Quem não prefere ser amado? Quem não gostaria que esse amor fosse a própria verdade? Desde quando é preciso ser amado para aceitar amar? O amor é uma alegria que acompanha a ideia de uma causa externa (Espinosa), e a única: a verdade só é alegre para quem ama conhecer, só é triste para quem fracassa em amar.
Não há portanto que escolher entre o conhecimento e o amor. Amar e conhecer são duas coisas diferentes, mas não incompatíveis nem separadas: o desejo de verdade pode encontrar a verdade do desejo. O conhecimento do amor pode confortar o amor ao conhecimento. Seria preferível que nos bastasse amar para conhecer ou conhecer para amar. É por isso que os dois são necessários, um não podendo substituir o outro e não podendo se unirem de outro modo que em nós, contanto que amemos o verdadeiro, contanto que conheçamos o amor. Que isso seja pouco, que esperávamos outra coisa (a conjunção do verdadeiro e do bem, da verdade e do amor)... mas não se trata de esperar, mas de viver, e azar o nosso se é difícil. Precisamos de coragem.

sábado, 4 de junho de 2011

Imposturas intelectuais ou cientificismo exacerbado. É possível um meio termo?

À luz das palavras de Gizêlda M. Nascimento abaixo, relato nesse post por que não terminei a leitura do livro "Imposturas Intelectuais" de Alan Sokal e Jean Bricmont.
"Uma reflexão sobre o Século das Luzes, leva-nos a julgar, grosso modo, tratar-se de uma tentativa para, à luz da razão, libertar o homem livrando-o das amarras do discurso religioso e sua posição centralizadora. Libertar a humanidade de todo um corolário de valores tais como: pecado, punição e sacrifício. Retirá-lo do centro para, enfim, poder acreditar nas convicções de Leibinz de que “este é o melhor dos mundos possíveis”. O sorridente século XVIII trazia a promessa de experimentarmos a felicidade aqui, neste mundo. E o aqui não representaria mais um estágio, um espaço de provações para se alcançar a felicidade no reino de Deus. A felicidade é aqui: começa e termina no mundo dos homens iluminados pela razão. 
Ora, ao trazer a razão e, conseqüentemente, a ciência a reboque (ciência como deveria ser interpretada: isenta de ideologias) para o centro das expectativas, como proposta para uma sociedade feliz, é possível afirmar que o século das Luzes – não em sua intenção originária, mas em seus desdobramentos – foi de pouco fôlego. Neste sentido e mesmo correndo o risco de sermos julgados essencialistas e deterministas perguntamos: não estaria a sociedade humana fadada, pelas perseguições obsessivas às suas idéias, à infelicidade? Senão vejamos: a proposta iluminista ao abrir flanco para o desenvolvimento da ciência, dá, por sua vez, passagem para a organização do discurso científico. E o que vamos assistir no decorrer do século XIX (logo após ou ao lado do projeto romântico) é à procura da explicação do homem, não mais como criação divina à semelhança de Deus, mas como espécie. Eis o grande salto em termos de concepção e visão de mundo. Libertos das noções de salvação ou perdição, livramo-nos do assombroso julgamento posterior a nossa existência; estaríamos livres, então, para vivermos o ‘paraíso’ (ou o inferno) na terra." (Gizêlda M. Nascimento).
Os autores do livro "Imposturas Intelectuais" criticam de forma virulenta e, na minha opinião, até irresponsável um certo relativismo característico, segundo eles,  da ciência pós-moderna. 
O problema é que o fazem sem antes oferecer ao leitor nenhum detalhamento daquilo que eles próprios entendem por "relativismo". Sem uma definição clara e precisa do fenômeno que estão criticando, toda a crítica cai no vazio.
Interessante notar que os autores partem de uma definição, em seus próprios dizeres: grosso modo, do termo "relativismo".

Designam relativismo "qualquer filosofia que afirme que a veracidade ou falsidade de uma asserção é relativa a um indivíduo ou a um grupo social.
Penso que trata-se de uma definição senão ingênua, ideológica do termo. Uma definição mais amplamente aceita seria: "o relativismo é um movimento de pensamento que atravessa os séculos desde a antiguidade greco-romana, que indica um conjunto de doutrinas que defendem a tese de que o sentido e o valor das crenças e comportamentos dos seres humanos não têm referência absoluta transcendente." (wikipédia). Ainda segundo a wikipédia: O sucesso do relativismo cultural a partir da segunda metade do século XX, no Ocidente garantiu a primazia e a exclusividade a este sentido da palavra. Os ideólogos anti-relativismo, também usam frequentemente o termo "relativismo", mas de forma frouxa, para se referir ao historicismo, uma das características mais acusadas do nosso tempo.

Existem variantes do relativismo, notadamente um relativismo cognitivo, que afirma um ponto de vista segundo o qual "o conhecimento é o produto de uma construção e por isso mesmo não pode ser considerado como objetivo", e um relativismo cultural que afirma que essas normas e valores são únicos para cada "cultura" ou "subcultura" e que por isso não pode ser fundamentado em base objetiva.
Tomando-se o termo "objetivo", usado na definição acima do relativismo cognitivo, no sentido de "absoluto", poderia-se afirmar que "é relativista uma doutrina filosófica que recusa a aceitar o absolutismo de qualquer doutrina." 
Com efeito, o relativismo cognitivo ou epistêmico não afirma, conforme alegam os autores, que o relativista aceita que a "veracidade é relativa a um indivíduo ou grupo". Tal relativismo afirmaria outrosim que "o conhecimento é que é relativo a um indivíduo ou grupo". Óbvio porque se o conhecimento não fosse relativo, seria então absoluto, o que é inaceitável. Pois não se encontrou ainda um fundamento absoluto para o conhecimento humano. Aliás, esse é todo o problema da epistemologia atualmente, como veremos abaixo.

Mais à frente no texto os autores afirmam: "[...] não há dúvida de que a atitude relativista está em conflito com a ideia dos cientistas sobre sua própria prática." Afirmação da qual discordo. Talvez concordasse um cientista absolutista, pregando um certo cientificismo exacerbado.
Conforme sugere Gizêlda Melo do Nascimento em seu texto, a razão Iluminista, evoluindo para o cientificismo exacerbado, vai se afastando da concepção proposta por seus primeiros pensadores e, à medida que ganha espaço nos debates, vai se aproximando do centro de interesse do poder.
"Voltaire já nos punha de sobreaviso que viver no “melhor dos mundos” na Europa corresponderia a viver o inferno em outras plagas. O inferno pode ser aqui mesmo. E é exemplar o gesto do escravo ao exibir pé e mão mutilados denunciando o quanto custava, para os subjugados, a doçura do açúcar consumido pelos europeus. O ‘doce cativeiro’ exibia a sua perversão discursiva no corpo mutilado do escravo.
E aí está o ponto nevrálgico da razão iluminista; onde ela se contradiz e revela sua efemeridade. Por que vamos assistir, a partir de então, a uma pletora de correntes tradutoras de valores e práticas, alvoroçando exaustiva e obsessivamente os debates do século XIX. Darwnismo, Positivismo, Evolucionismo e tantas outras correntes desenvolvidas à luz da razão e da ciência, assumindo o palco das discussões advogando em favor do aperfeiçoamento da família humana.
Obsessões frenológicas, medições de crânios, de maxilares, de ventre: o corpo humano passando por uma frenética inspeção ao ser vasculhado, medido, dissecado a cada milímetro de sua compleição. Todo um esforço ergométrico como forma de explicar a superioridade de uns sobre os outros, para distribuir e justificar o lugar de cada um na escala das representações sociais, para assim respaldar o status quo. Assim como dantes, o desenho da pirâmide continua irretocável: no topo a elite (esta não mais eleita por Deus e sim por sua compleição física portadora de um crânio maior), na base ‘os outros’ (não mais para redimir seus pecados na terra, e sim porque portadores de deformidades, sobretudo a que se revela no crânio de menor tamanho)."
Esse cientificismo exacerbado, adubado por um relativismo moral mal compreendido, próprio da nossa era, pode ir facilmente contra os direitos humanos universais. Violado um deles e aceito socialmente, o perigo é generalizado, em primeiro lugar para a pessoa e, em seguida, para o conjunto social.
"[...] a ciência, ‘à luz da própria razão’, deixa de ser um espaço de investigação isento de julgamento para assumir a cegueira comprometida e comprometedora do discurso hegemônico. Afinada com o poder, seu discurso muda de espaço deslocando-se para o do debate ideológico. E o que em seu princípio constituía a procura da explicação da origem da humanidade com a premissa de aperfeiçoá-la e projetá-la num futuro melhor (para este homem viver para sempre no melhor dos mundos) tornou-se base para o estabelecimento de hierarquias dentro de uma escala da espécie humana. Hierarquia de classe, raça e gênero. Hierarquia e classificação constituem suas palavras de ordem. Assim procedendo, a ciência abandona de vez sua isenção e torna-se servil ao discurso ideológico. O poder sobe-lhe à cabeça."

Ora o relativismo epistêmico diz apenas que não é possível erigir uma teoria científica ao status de absoluta. Com efeito, etimologicamente, o termo "relativo" não se opõe a "universal", mas a "absoluto"; assim como o termo "relativo" não é sinônimo de "particular", que é o oposto de "universal".

Pode-se ser relativista ou absolutista quanto à razão teórica e/ou quanto à razão prática (I. Kant foi o primeiro a mostrar isso). Os autores do livro em questão referem-se exclusivamente à razão teórica (conhecimento e verdade) e não à razão prática (norma/valor). Entretanto é notável que ignorem ou omitam em seu texto que, no caso da razão teórica, pode-se ainda assumir uma postura relativista ou absolutista em relação ao conhecimento como também em relação à verdade.
Eu considero particularmente difícil ser relativista quanto à verdade, mas não quanto ao conhecimento. Aí está o problema que identifiquei no livro: os autores gastam mais de 300 páginas para demonstrar uma tese que ninguém minimamente informado aceitaria, i.e., que os relativistas são relativistas em relação à verdade. Ora, salvo por um ou outro relativista mais heterodoxo ou desinformado, e até onde eu saiba, a grande maioria, me incluindo nela, é relativista em relação ao conhecimento, mas não em relação à verdade. Que eu esteja escrevendo este texto agora, trata-se de uma verdade incondicional e eterna, ninguém que tenha me acompanhado na sua formulação poderia negar, a menos de se enganar, desconhecer ou se esquecer. Por outro lado, que o conteúdo que eu esteja escrevendo nele constitui um conhecimento, eu não recriminaria ninguém de duvidar.

Relativistas epistêmicos não acreditam que possa haver um conhecimento absoluto, ou seja, que o conhecimento possa ser fundamentado, absolutizado.
Cabe aqui uma precisão quanto ao vocabulário. O termo "fundamento" é entendido como algo que garante a validade do valor (Nietzsche). Ou seja, um fundamento é uma garantia "de direito", não apenas "de fato". Garantiria que uma coisa é a boa coisa e, ao mesmo tempo, a coisa verdadeira. Conjunção de valor e verdade.
Assim, podemos falar em "conhecimentos científicos", mas não há "verdades científicas" absolutas (Popper, tese da falsificabilidade). Há conhecimentos científicos particulares de algumas verdades, e isso ocorre porque o conhecimento só existe na norma da verdade, dada ou possível (Popper). Às vezes o cientista tem sorte, e sua teoria perdura por bastante tempo. O que faz o valor de uma teoria científica é o quanto ela se deixa bater empiricamente. Se for uma boa teoria científica, outras baterão sem sucesso, sem que se logre falsificá-la.
Há, eventualmente, até conhecimento que possa atingir o status de universal, embora ainda assim relativo, relativo ao homem, à espécie humana. Não há, entretanto, o conhecimento absoluto da verdade (apenas universal e relativo ao homem). Com efeito, o homem não é Deus. A menos que se aceite um certo humanismo kantiano transcendente. Kant fundamenta a razão no próprio homem, ou em alguma transcendência que fundamenta o homem (exegese polêmica de Kant). 
Em epistemologia, defini-se conhecimento como: uma crença verdadeira justificada. O problema da epistemologia se concentra todo no termo "justificada", da definição acima. O homem ainda não conseguiu pensar ou elaborar essa justificação de forma absoluta. Conseguirá um dia?

Para resumir, dependendo da doutrina filosófica a que se adere (Espinoza, Kant, Nietzsche etc), esses absolutismos/relativismos podem vir em par, ou em separado. Uma doutrina filosófica pode professar tanto um absolutismo teórico (epistêmico, cognitivo) quanto um absolutismo prático (normativo). Nietzsche é relativista nos dois aspectos (talvez venha daí sua fama de niilista). Kant é relativista apenas teórico (pois seu princípio "categórico universal" fundamenta a moral). Espinoza é relativista apenas prático; ele acreditava que temos acesso absoluto à verdade, é um absolutista epistêmico (quanto ao conhecimento e quanto a verdade).

Mas, voltando ao livro de Alan Sokal e Jean Bricmont, estes ao invés de adotarem o espírito luminoso de Espinoza, que poderia lhe servir de argumento, fazem prova de humor ingênuo e infantil. Seguem por uma perspectiva cientificista e formalista, sem interrogar seus pressupostos. Oferecem tantas interpretações equivocadas dos autores que analisam no livro que, para mim, este acaba se tornando contre-performant. Perdi a paciência, parei de ler.

Está claro, e os autores acima não discordariam, que a ciência nos oferece apenas aspectos parciais da natureza e do ser humano. Isso porque ela não pode penetrar profundamente dentro do núcleo de suas realidades e explicar suas causas últimas. Este conhecimento profundo sobre o homem e sobre a natureza, que dá sentido a todo o conhecimento parcial, nos fornece a metafísica, por meio de termos, conceitos e raciocínios. Mas também ele nos é oferecido pela espiritualidade, por meio de silêncios, vivências e experiências compartilhadas. Filosofia e ciência se complementam, a primeira ilumina a aplicação da segunda, como coração guia a razão. A esse propósito, ver como sabedoria e conhecimento podem ser erroneamente considerados antagônicos por grandes autores contemporâneos.

Para concluir, a sociedade dominada pela ideológica do cientificismo exacerbado é a do estado totalitário e desumano, tal como pregado por Platão. Nele a massa deve obedecer cegamente seus guardiães-filósofos. Nele não há espaço nem para a solidariedade e muito menos para a compaixão.