Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder...
"
Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)
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domingo, 22 de maio de 2011

O computador

Meu amigo, queria lhe pedir: tenha paciência com o computador. 

Como todo artefato - objeto não natural - ele é também uma projeção do nosso ser. 

Nós nos projetamos neles e eles nos projetam a nós mesmos, de volta. E isso é importante porque permite entendermo-nos melhor, por meio daquilo que é a nossa criação. 

Perceba como a cadeira tem sua ergonomia própria, adaptando-se ao nosso corpo, que é o que é, que dobra do jeito que dobra.

O que ele, o computador, tem de especial em relação aos outros artefatos? 
Como todos os outros, ele nos retorna a nós mesmos, como que um espelho; mas ele o faz melhor que todos os outros, e mais profundamente.

Não é agradável pensar que ele nos liberta de todo trabalho repetitivo, para dedicarmo-nos ao desenvolvimento de nosso espírito, nossa criatividade, nosso destino?

Digo-lhe que o que me tira do sério, em minha vida, é ter que fazer, eu próprio, o que ele pode fazer por mim.

Nessa consideração eu encontro boa parte, ou talvez todo o meu interesse pessoal pela informática: com a ajuda do computador somos capazes de automatizar o que há de repetitivo em nossas tarefas, bem como os processos repetitivos e burocráticos de nossas organizações. 

Assim podemos nos libertar deles, e de sua opressão "tarefeira". 

Dessa forma, se utilizado com sabedoria, o computador nos torna mais produtivos, nos liberta e nos potencializa para criar; ainda mais, ainda melhor.  

Sem sabedoria, contudo, não são mais do que verdadeiras armas a nos desumanizar.
A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
(…)
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Um histórico sobre Ontologias Informacionais

Inspirado do verbete de Tom Gruber
na Enciclopédia de Sistemas de Banco de Dados, Ling Liu e M. Tamer Özsu (Eds.), Springer-Verlag, 2009.

O termo "ontologia" tem sua origem no campo da filosofia que se preocupa com o estudo do "ser" ou da "existência".  Em filosofia fala-se de uma ontologia como uma teoria da natureza da "existência" ou da natureza daquilo "que há" (no universo). Um exemplo é a ontologia de Aristóteles, que identifica categorias primitivas, tais como "substância" e "qualidade", que se presumia no passado dar conta da constituição fundamental de "Tudo Que É" ou de "Tudo Que Há".  Já na ciência da informação e da computação, ontologia é um termo técnico que indica um artefato que é projetado para uma finalidade, que é permitir a modelagem, o mais fielmente possível, do conhecimento sobre algum domínio, real ou imaginado. 

Para além da Filosofia, o termo foi adotado na área de Inteligência Artificial (IA) cujos pesquisadores reconheceram a aplicabilidade da lógica matemática [6] em seu trabalho, e criaram ontologias como modelos computacionais que permitiram certos tipos de raciocínio automatizado [5].  Nos anos 80, a comunidade de IA passou a usar o termo ontologia para se referir a uma dada teoria de um mundo modelado (por exemplo, Naive Física [5]) ou a um componente presente na arquitetura de todo sistema baseados em conhecimento (na época: sistemas especialistas). Alguns pesquisadores, inspirando-se na Filosofia, usaram o termo para designar a construção de  modelos segundo uma espécie de filosofia aplicada [10].

No início dos anos 90, um esforço para criar padrões de interoperabilidade entre sistemas -- antevendo-se provavelmente o futuro da Web --, identificou a conveniência em se usar uma pilha de tecnologias na qual uma camada identificada como ontológica devia ser componente padrão para a construção de sistemas baseados em conhecimento [8].  

Em [3] define-se ontologia como uma "especificação explícita de uma conceitualização", que é, por sua vez, formada dos "objetos, conceitos e outras entidades que se presume existir em alguma área de interesse e as relações que mantêm entre si."  Os  termos "especificação" e "conceituação" causaram e ainda causam muitos debates, entretanto, os pontos essenciais desta definição dada por T. Gruber são:
  • Uma ontologia define (especifica) os conceitos, relacionamentos e outras distinções que são relevantes para a modelagem de um domínio.
  • A especificação assume a forma das definições do vocabulário representacional (classes, relações, e assim por diante), que fornecem significados em um vocabulário e restrições formais que incidem sobre a sua utilização coerente. 
Uma objeção comum a esta definição é que ela é muito ampla, permitindo representar uma série de especificações desde glossários simples, até teorias lógicas expressas em Cálculo de Predicados [9].
Porém, Gruber responde que isso é verdade também para modelos de dados de qualquer complexidade, por exemplo, um banco de dados relacional de uma única tabela e coluna ainda é uma instância do modelo de dados relacional, embora seja extremamente simples. 

A acepção de Gruber assume uma posição pragmática, podendo-se dizer que uma ontologia informacional é uma ferramenta e/ou produto de engenharia e, assim, seria definida em função de seu uso. Nesta perspectiva, o que importa é o uso que se faz de ontologias para fornecer a representação com a qual pode-se instanciar modelos de domínio em bases de conhecimento, fazer consultas a serviços (baseados em conhecimento), e representar os resultados das chamadas a tais serviços. Por exemplo, uma API de um serviço de busca pode oferecer não mais do que um glossário textual de termos com os quais é feita a formulação de consultas, e este agiria como uma ontologia. Por outro lado, e isso parece corroborar o entendimento de Gruber, atualmente o padrão de Web Semântica do W3C sugere um formalismo específico para ontologias (OWL), em várias versões, que variam em poder de expressão [7].  Isso parece refletir a intenção de que uma ontologia é uma especificação de um modelo de dados abstrato (a conceituação de um domínio), que é independente da sua forma particular (ou de uma realidade possivelmente inatingível, mesmo pela ciência).

FUNDAMENTOS CIENTÍFICOS
De qualquer forma, o termo "ontologia" deve ser discutido no contexto aplicado da modelagem de vocabulários e da engenharia de software e bancos de dados, porém isso não dispensa uma forte fundamentação teórica.
Uma ontologia especifica um vocabulário com o qual se deseja fazer afirmações, que podem ser entradas ou saídas de agentes de software.  Como uma especificação de interface de comunicação, a ontologia fornece uma linguagem para se comunicar com o agente.  Um agente que suporte a interface não é obrigado a usar os termos da ontologia numa codificação interna de seu conhecimento. No entanto, as definições e restrições formais da ontologia vão restringir aquilo que pode ser significativamente afirmado na linguagem usada.  Em essência, comprometer-se com uma ontologia (e.g., suportar uma interface usando a ontologia do vocabulário) exige que as declarações que são feitas nas entradas e saídas sejam logicamente consistentes com as definições e as restrições da ontologia [3].  
Isso é análogo à exigência de que as linhas de uma tabela do banco de dados (ou instruções de inserção em SQL) devem ser consistentes com as restrições de integridade, que são colocadas de forma declarativa e independentemente do formato interno dos dados.

Da mesma forma, enquanto uma ontologia deve ser formulada por alguma linguagem de representação, a especificação deve ser construída no nível semântico - ou seja, independente da estratégia de modelagem de dados ou da implementação.  Por exemplo, um modelo de banco de dados convencional pode representar a identidade dos indivíduos usando uma chave primária, que atribui um identificador único para cada indivíduo.  No entanto, o identificador de chave primária é um artefato próprio ao processo de modelagem física/lógica e não denota algo explícito no domínio.  Ontologias são tipicamente formuladas em linguagens que estão mais próximos do poder expressivo de formalismos lógicos como o cálculo de predicados.  Isso permite que o projetista da ontologia seja capaz de indicar abstrações e restrições semânticas sobre abstrações, sem forçar a representação a seguir uma ou outra estratégia de codificação específica. Por exemplo, um formalismo típico de ontologias seria capaz de dizer que um indivíduo é um membro de uma determinada classe ou tem algum valor de atributo sem se referir diretamente a quaisquer padrões de implementação (pattern), como por exemplo a utilização ou explicitação de identificadores de chave primária.  Similarmente, em uma ontologia pode-se representar restrições que valem para relações simples (A é uma subclasse de B), que podem ser codificadas como um join em chaves estrangeiras no modelo relacional.

A engenharia de ontologias se preocupa em sistematizar o processo de como fazer escolhas de representação que capturem as distinções relevantes de um domínio em seu mais alto nível de abstração, deixando os significados dos termos o mais claro possível.  Como em outras formas de modelagem de dados, são necessários muitos conhecimentos e habilidades do analista ou engenheiro. Vale notar que a herança das ontologias informacionais na filosofia acaba sendo um rico acervo de teorias que indicam sobre como fazer escolhas (compromissos) ontológicas de forma sistemática e coerente. Por exemplo, muitos dos insights vindos das "ontologias formais" motivadas pela compreensão "do mundo real" podem ser aplicados na construção de ontologias informacionais para os mundos de dados [4].  
Quando ontologias são codificados em formalismos padrão, torna-se possível a sua reutilização, o que é motivado pelo custo e pela dificuldade da consideração sistemática do conhecimento humano ou da linguagem [11].  Com efeito, ontologias devem incorporar os resultados das pesquisas acadêmicas feitas no domínio modelado. Elas oferecem um método operacional para colocar as teorias dos domínios para funcionarem na prática em sistemas de banco de dados.

PRINCIPAIS APLICAÇÕES
Ontologias são parte da pilha de padrões do W3C para a Web Semântica, e são usadas para especificar vocabulários conceituais padrão para a troca de dados entre sistemas, prestação de serviços de atendimento para consultas, publicar bases de conhecimento reutilizáveis, e ofertar serviços para facilitar a interoperabilidade entre múltiplos e heterogêneos, sistemas e bancos de dados.  
O papel fundamental das ontologias no que diz respeito a sistemas de banco de dados é especificar uma representação de modelagem de dados em um nível de mais abstração, acima daqueles específicos que compõem os projetos de banco de dados (lógico ou físico). Assim, com base na ontologia do domínio os dados podem ser exportados, traduzidos para outras línguas, consultados e unificados por sistemas e serviços desenvolvidos de forma independente. Aplicações bem sucedidas até o momento incluem a interoperabilidade de banco de dados, pesquisas em múltiplos bancos de dados, e a integração de serviços web.

LEITURA RECOMENDADA
[1] Berners-Lee, T., Hendler, J. and Lassila, O.  The Semantic Web,Scientific American, May 2001.  Also http://www.w3.org/2001/sw/
[3] Gruber, T. R., Toward Principles for the Design of Ontologies Used for Knowledge SharingInternational Journal Human-Computer Studies, 43(5-6):907-928, 1995.
[4] Guarino, N. Formal Ontology, Conceptual Analysis and Knowledge Representation, International Journal of Human-Computer Studies, 43(5-6):625–640, 1995.
[5] Hayes, P. J. The Second Naive Physics Manifesto, in Hobbs and Moore (eds.), Formal Theories of the Common-Sense World, Norwood:Ablex, 1985.
Artificial Intelligence, 5(13): 27-39, 1980.
[7] McGuinness, D. L. and van Harmelen, F.  OWL Web Ontology Language.  W3C Recommendation 10 February 2004. http://www.w3.org/TR/owl-features/
[8] Neches, R., Fikes, R. E., Finin, T., Gruber, T. R., Patil, R., Senator, T., & Swartout, W. R. Enabling technology for knowledge sharingAI Magazine, 12(3):16-36, 1991.
[9] Smith, B. and Welty, C.  Ontology---towards a new synthesis. Proceedings of the International Conference on Formal Ontology in Information Systems (FOIS2001). ACM Press, 2001.
[10] Sowa, J. F. Conceptual Structures. Information Processing in Mind and Machine, Reading, MA: Addison Wesley, 1984.
[11] Standard Upper Ontology Working Group (SUO) IEEE P1600.1, http://suo.ieee.org/

Ontologias informacionais

Inspirado de Tom Gruber
na Enciclopédia de Sistemas de Banco de Dados, Ling Liu e M. Tamer Özsu (Eds.), Springer-Verlag, 2009.

DEFINIÇÃO
No contexto das ciências da informação e da computação, uma ontologia define um conjunto de primitivas de representação para modelar um domínio de conhecimento ou de discurso.  As primitivas são tipicamente classes (ou conjuntos), atributos (ou propriedades), e relações (ou relações entre membros de classes).  

As definições das primitivas incluem a descrição textual de seus significados, mas também várias restrições à sua aplicação de forma logicamente coerente. 

No contexto dos sistemas de banco de dados, as ontologias podem ser vistas como representando um nível de abstração acima dos modelos de dados (hierárquico ou relacional), mas destinada a modelagem do conhecimento sobre os indivíduos representados no sistema, seus atributos e suas relações com outros indivíduos.

Ontologias são tipicamente especificadas em linguagens que permitem abstrair estruturas de dados e estratégias de implementação. Na prática, as linguagens de ontologias estão mais próximas do poder expressivo da lógica de primeira ordem do que as linguagens utilizadas para modelar bancos de dados.

Por esta razão, as ontologias estariam em um nível dito "semântico", enquanto os modelos ou esquemas de dados pertenceriam ao nível "lógico", logo acima do nível "físico" (que é como os dados estão organizados fisicamente).  

Devido à sua independência de modelos de dados de níveis mais baixos, as ontologias são usadas para integrar bancos de dados heterogêneos, permitindo a interoperabilidade entre sistemas distintos, e a especificação de interfaces para serviços baseados em conhecimento independentes.  

Na pilha de tecnologias da Web Semântica [1], as ontologias são localizadas em uma camada explícita de alto nível.  Existem hoje várias linguagens e ferramentas de código aberto (open source) e comerciais para criar e trabalhar com ontologias.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dado, informação, conhecimento e sabedoria.

Em quê contribui a TI (Tecnologia da Informação) para o desenvolvimento de uma espiritualidade necessária à própria reflexão acerca de sua evolução? ou à ética de seu uso?
Me parece que o homem quebrará, neste século ainda, outros limites do imaginável em seu processo de criação. Porém, os horrores do século passado deixaram mais do que claro que a razão pura, ciência/tecnologia, não basta; precisamos aprofundar e fazer evoluir cada vez mais a razão prática, os valores. Mas como esta última pode evoluir? Qual é o papel da ciência e da tecnologia nessa evolução? se é que possa existir algum, já que parece impossível passar do conhecimento descritivo ao normativo. Da ciência à ética.
É possível lançar pontes para além do conhecimento, alcançando algum grau de sabedoria? A tecnologia pode nos ajudar nisso, como?

Em filosofia a pergunta (clássica) seria: "é possível passar da descrição ao valor?" e, classicamente, a resposta da filosofia a esta pergunta é, em geral, negativa: não há como explicar o surgimento de valores a partir apenas da descrição de processos naturais (da ciência), mesmo que apoiados na mais avançada tecnologia. Porém, em filosofia raramente (nunca) existe consenso. Sam Harris é um nome a contestar a negatividade desta resposta.

Distante do racionalista Sam Harris mas na mesma sintonia de pensamento, o místico Pierrre Weil denominou "Mutantes"[1] as pessoas que experimentam e vivem valor e verdade como uma coisa só. Nesse livro ele discute as etapas evolutivas da consciência humana, dividindo o processo de hominização em três fases. Num extremo está o ser Estagnante, no outro o ser Iluminado. No meio, entre esses dois extremos, está o ser Mutante. O ser mutante seria como uma ponte para um novo paradigma existencial (cf. o conceito de hominescência de M. Serres), onde desapareceria totalmente a ilusão metafísica das separações ser/mundo, sujeito/objeto, valor/verdade etc. e suas consequências (nefastas?) para o homem. Caminha-se então na trilha que vai do pensamento metafísico para o dialético ou pragmatista (de Kant para Dewey[2]).

De toda forma, voltando ao cerne desse post, na disciplina Sistemas de Informação, quando buscamos entender a natureza da relação que o homem constrói com suas máquinas, e consigo mesmo através delas, o conceito de Pirâmide Informacional é recorrente. Trata-se de uma complexa hierarquia, ou pirâmide, que relaciona os fenômenos dado, informação, conhecimento (explícito e passível de representação; ou tácito, i.e., empírico, advindo da experiência e de difícil representação) e sabedoria.

Esses fenômenos formam um todo. São dificilmente separáveis uns dos outros, mas podem ser distinguidos por nossa inteligência analítica. Tais fenômenos são todos interessantes, objetos de estudos aprofundados de uma nascente disciplina, a Filosofia da Informação (vide L. Floridi).

Quero, neste post, me ater a apenas um deles, a Sabedoria. Como definição do termo, esta me parece razoável: sabedoria seria o "máximo grau de lucidez, presente no máximo grau de felicidade" (C. Sponville). Somos capazes de experimentar algo assim? Estaria a humanidade, em sua evolução, trilhando esse percurso? Seria possível alcançar uma sabedoria que nos salve da auto-destruição, da aplicação da tecnologia sem preocupação ou reflexão ética?

Alguns filósofos disseram, e outros ainda dizem, que somos capazes disso, e sem cair no obscurantismo. Precisaríamos, contudo, para alcançar a sabedoria, desenvolver no caminho uma certa espiritualidade. Espiritualidade que pode até prescindir da religião, mas dificilmente poderia prescindir da comunhão em determinados valores. Leio que precisaríamos aprender mais sobre o Amor, e assim aprendermos a amar mais e a amar melhor. "Ciência é conhecimento organizado, sabedoria é vida organizada" (I. Kant). E é preciso ir além da experiência já que "esta não nos ensina sobre as essências das coisas" (B. Espinoza, em dito racionalista).

Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo, vai mais longe ao recusar o auxílio de qualquer religião, e diz em um de seus livros: "O Século XXI será o de uma espiritualidade laica ou não será nada". Ele exagera?
Embora a religião, baseada que está na esperança, possa atrapalhar o desenvolvimento de uma espiritualidade focada mais fortemente no amor e na fidelidade (e não na fé e na esperança), muitos ainda encontram nela o locus de possibilidade único para o desenvolvimento de qualquer vida espiritual. Ou daquilo que normalmente em sociedade nomeia-se 'vida espiritual'.

Acompanhando o pensamento de Sponville, uma espiritualidade laica não se fundamenta na esperança, que teima em nos desviar a vida do momento presente. Deve-se esperar por uma outra vida que não esta, prendendo-se ao passado ou ao futuro, mas não no presente, no agora. Esperar aquilo que não depende de si? qual o sentido? Mas daquilo que depende de si, para que esperar? o melhor seria agir. Fé ou fidelidade? Se o reino é para ser experimentado aqui e agora, para que ter fé?

A religião ocidental possui uma concepção acerca da eternidade que pode estar enganada. Uma eternidade como tempo linear, que não acaba... Outra concepção poderia ser a de eternidade como ausência do tempo. Apenas o presente existiria. O presente que se mantém presente. Pode-se pensar: "no agora, o passado não existe mais, e o futuro ainda não existe". Resta então apenas o momento presente, com a memória presente do passado e com os projetos que virão no futuro, apenas os que dependem de mim.
Mas é caminho difícil. Na maior parte das vezes em que estamos conscientes nos pegamos presos ao futuro, a esperar o que não depende de nós; ou presos ao passado, porque não conseguimos resolver nossas contas com ele (arrependidos, frustrados). 

Dados > informação > conhecimento > ..., sim, mas parece haver um hiato aqui, separando a sabedoria dos outros anteriores. Com efeito, as sociedades mais "bem resolvidas" sob o ponto de vista tecnológico e científico não parecem entretanto mais felizes, além de um limite constante. Pelo jeito, depois de termos conquistado tudo em nossas vidas, não nos sentimos mais felizes por isso.

Mas mesmo assim, esse poderia ser o destino do ser humano, uma evolução em direção à sabedoria? (cf. F. Hegel) Mesmo que seja possível, uma coisa parece clara: se nesse percurso ou evolução, que passa também por uma natural e forte humanização da tecnologia (i.e. sua apropriação definitiva pela Cultura), pararmos no patamar ou nível do conhecimento, e se esse patamar nos bastar, então talvez não sobrevivamos mesmo ao Século XXI. Não desenvolveremos nossa dimensão espiritual prática. Daí a premência da ética na ciência hoje, mas de uma ética não-Platônica. Uma ética desmstificada, que desafie a tradição das religiões monoteistas.

Como Sponville, também acredito que é preciso encontrar uma espiritualidade sem dogmas, laica. Paradoxalmente, a igreja pode nos abrir ou fechar para a espiritualidade. A espiritualidade nada mais é do que a vida do espírito em nós, ou seja a experiência da consciência em nós. É a relação entre o finito em nós e o infinito do universo, do temporal em nós com o eterno (ou atemporal). Se, por acaso, nos sentirmos fechados por dogmas, devemos nos libertar. Nos libertar dos conceitos incutidos muitas vezes pela igreja ou pela  tradição. Infelizmente, em sua maior parte, essas tendem a verbalizar ideologicamente a mensagem de Cristo. 

Com efeito, parece premente hoje buscarmos uma espiritualidade que nos previna, tanto contra o fanatismo quanto contra o niilismo, mas que não nos jogue no obscurantismo. No post Falando de Amor escolhi, para me instruir sobre o tema do Amor, as ideias de Sponville que versam sobre a história contada no livro Banquete de Platão - ou, "a propósito do Amor".

Segundo guias espirituais, como o contemporâneo Eckhart Tolle, a passagem do nível do conhecimento para o nível da sabedoria na pirâmide informacional, requer forte trabalho sobre o ego. Com efeito, parece que o ego nos impede de viver o "agora". Nos aprisiona no passado ou nos ilude com expectativas ou esperanças futuras. Porém, como podemos nos relacionar adequadamente com o outro sem um ego minimamente maduro. Nem o ódio nem o louvor ao ego, portanto.

Buscando subir na pirâmide e alcançar algum grau de sabedoria, parece que o conhecimento não é mais suficiente ou pouco importa. Muito menos a informação ou menos ainda o dado (parece haver um fosso que os separa da sabedoria). Além de um determinado limite, os nossos problemas individuais ou coletivos não parecem poder ser resolvidos com mais reflexão, mais racionalidade, com mais pensamento ou pensando mais fortemente (no sentido de um subjetivismo cartesiano, ou do racionalismo).
Talvez, na maior parte dos casos isso possa até atrapalhar, pois o mistério mais profundo do Ser não nos é dado conhecer, mas apenas sentir, experimentar (caberia reflexão sobre como a filosofia de Merleau-Ponty, fenomenologia da percepção, que pode ser útil aqui). Nesse sentido, pode-se citar Inácio de Loyola quando diz:  "Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir, experimentar e saborear todas as coisas internamente".

Um caminho? místico, racional? difícil dizer. Talvez buscando uma maior conexão com o momento presente e também com o outro (pessoa humana), possamos trazer alguma "energia cósmica" inerente à vida que possa nos ajudar. Uma sensação mística que às vezes, embora raramente, nos ocorre de ligação com o Todo; de que somos parte de um Todo muito maior do que nosso corpo ou nossa insignificante personalidade (experiência de unidade). O exercício de manter nossa consciência mais alerta, mais presente, mais atenta ao momento presente, me parece também um caminho (experiência de simplicidade).

Talvez essas experiências possam ser desenvolvidas a partir de um melhor entendimento acerca do papel do amor em nossa existência. Coração e razão não são duas coisas diferentes, mas formam um todo (que na modernidade Kant separou em suas obras críticas). Sente-se que é o coração que abre o Ser à razão, ao entendimento. A razão seria a guia, mas o amor é o motor, vem primeiro.
Se conseguirmos preservar essa conexão com o momento presente durante os nossos dias, ao realizarmos nossas tarefas do dia-a-dia, em nossos relacionamentos, então seremos mais tranquilos, serenos, mansos, mais em paz.
Talvez assim, não somente seremos capazes de atingir algum grau de sabedoria, como comporemos o conjunto, cada vez mais numeroso, de seres conscientes de que são dotados da energia positiva e criadora de vida no universo (seres Mutantes).

Mas, voltando ao início, em que contribui a TI para o desenvolvimento de uma espiritualidade necessária à própria reflexão sobre sua evolução e nossa evolução?

Alguns elementos para responder poderiam ser: imaginar como a Internet e a Web quebram os limites do tempo/espaço, e ideias (memes) iluminadas, de pessoas mais sábias, de raciocínio claro, passam a ter divulgação universal e imediata.
Na medida em que a Web vai ficando mais e mais semântica, não apenas essas ideias estão à disposição, como estão relacionadas entre si formando estruturas, grafos de conhecimento. Nesses novos sistemas de conhecimento, as ideias competem entre si, já que todas as ideias são imediatamente relacionadas pelos mecanismos de navegação, busca e recuperação de informação cada vez mais poderosos.

Claro que o mal está também presente entre nós. Antes de nascer, ainda no ventre de nossa mãe fazemos parte do Todo. Ao nascer somos separados desse todo, ganhamos aos poucos uma consciência. Com esse movimento nos tornamos então expostos ao mal, assim como ao bem. Pecar seria escolher o mal. É porque o mal existe, em cada um de nós, que precisamos nos esforçar e participar da construção do bem. Abracemos a glória e não a miséria humana em nós (B. Pascal).

Precisamos espalhar e alargar a comunidade dos "Mutantes" de Pierre Weil (Universidade da Paz) e tantos outros sábios; mas este é outro assunto.


[1]Pierre Weil. “Os Mutantes – Uma Nova Humanidade para um novo milênio” (Ed. Verus).
[2]Richard Rorty. “Kant contra Dewey: a situação atual da filosofia moral” (Filosofia como Política Cultura, ed. Martins Fontes).