Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder...
"
Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Hominescência


Michel Serres nos oferece a palavra hominescência para dizer que a humanidade vive, desde a segunda metade do século 20, uma grande mudança na sua relação com o tempo e com a morte.
O termo tem como desinência "escência" (incoativa*), que desígna o início frágil de um processo; por exemplo de fervura, de iluminação, de floração: efervecência, luminescência, florescência, incandescência, senescência ou adolescência.

Percebe-se nestas palavras uma dimensão de "vai-e-vem", de crescimento/decaimento, brilho/escurecimento, avanço/regressão. A hominescência seria um processo que, por afastamentos repetidos de um extremo a outro, vai renovando a hominização.

Não está claro o que ela vai produzir: uma humanidade, uma outra humanidade ou outros graus de humanidade. A hominescência é concentrada em um período reduzido de tempo: algumas décadas... em uma escala (de hominização) que pode ser contada em milhares de anos ou milênios.

Segundo Michel Serres, a hominescência se desenvolve por ciclos sucessivos:
1. Primeiro ciclo: o homem cria ferramentas externas e técnicas que estendem seus órgãos. Alguns animais são domesticados e o homem vive com eles.
2. Segundo ciclo: o corpo se globaliza, a Terra entra na história. Constituindo um novo habitat, o homem produz a natureza.
3. Terceiro ciclo: o homem perde suas faculdades, que são terceirizadas para dispositivos: memória, voz, conhecimento. A ciência e a tecnologia tornam-se capazes de mudar o seu corpo (que se torna visível e glorioso), e melhorar a sua saúde. Inventam-se objetos mundiais (Internet, genoma, a bomba atômica), ferramentas paradoxais que moldam o seu mundo, lhes dão poder de decisão sobre sua própria emergência e/ou morte, mas que ele não controla.
A história se faz evolução. Ela procura um novo equilíbrio.
Definindo os limites do humano, a hominescência os move. Ela exige um debate bioético que redefine e reconstrói a humanidade.


*Adj. Que começa; inicial; inceptivo. Diz-se dos verbos que denotam o começo de uma ação, como envelhecer, adormecer etc.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ontologias e seus espaços de aplicação

Queria dar uma palavrinha sobre ontologias e seus espaços de aplicação. Me refiro, de maneira bem geral, aos espaços público, social e privado e não à domínios específicos circunscritos nesses espaços.

Além disso, as ontologias a que me refiro aqui são, mais especificamente, modelos conceituais concebidos graças a conhecimentos que estão na confluência das áreas disciplinares da 
Filosofia, Ciência da Computação, Ciência da Informação e da Linguística. Na medida em que ontologias nos ajudam a refletir mais profundamente sobre a modelagem conceitual do mundo real, elas estão sendo desenvolvidas em todos os domínios da atividade humana onde se aplica a tecnologia da informação. Elas são ferramenta útil para dirigir e orientar o esforço de modelagem do real nos três espaços principais onde se dá a existência humana: no trabalho, na ciência e na economia, existimos no espaço social, por exemplo. Mas há ainda outros dois espaços, o espaço público e o espaço privado.

O espaço privado, que no mundo real é representado pela família, é onde o ser humano encontra descanso e cuida de sua sobrevivência no sentido mais natural de sua existência no mundo. Trata-se de um espaço hoje muito confundido com o espaço social. As ontologias encontram interessantes aplicações nesse espaço também, vide as redes sociais, facebook, twitter etc.

Para além dos espaços social e privado, há também o espaço público, tão caro aos gregos -- quando o indivíduo não era mais importante do que a coletividade -- e que vem se enfraquecendo desde a era moderna com a paulatina e gradual transformação da "polis" em "metro-polis". Na metrópolis, o espaço público se confunde com o espaço social (sem o cuidado que têm as cidades européias, algumas milenares, as nossas cidades são infelizmente organizadas para a produção e o fluxo de mercadorias e não para o encontro dos cidadãos).

Onde estaria o espaço público hoje, na contemporânea pós-modernidade?
Que desiludida ideia fazemos da política, exercício realizado na pólis?
O espaço público é por excelência o espaço da política, uma ordem acima da ordem da economia e da ciência. É no espaço público que o homem constroi a sua humanidade, mais do que no espaço social e privado. É nesse espaço que o homem excede a sua natureza, no sentido de ir além de sua mera reprodução e sobrevivência, e projeta no espaço comum, comunitário, público, a força da sua expressão, da sua vontade, da sua humanidade.

Pois quero notar que estão neste espaço público -- esquecido hoje, já que sobrepujado por uma vida cada vez mais individualizada -- interessantes aplicações de ontologias. Penso principalmente nas aplicações de dados abertos vinculados, governo aberto, governo eletrônico, e também nos WikiLeaks que se multiplicam pela internet etc. Aqui, pesquisadores de ontologia necessitam do socorro de disciplinas, para além daquelas que citei no início, como a Sociologia e a História e outras das humanidades.

Queria concluir imaginando que, na tarefa sem fim de modelar o real, há muito o que fazer ainda em cada um desses espaços: social, público e privado. Muitas aplicações virtuais serão desenvolvidas com apoio das ontologias. Cuidemos apenas para que no desenvolvimento e uso dessas aplicações estejamos atentos e não confundamos, como ocorre hoje, os espaços público, social e privado. São espaços bem diferentes, complementares e necessários.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sobre o paradoxo da igualdade na diferença


Por que tratar todos como iguais requer antes reconhecer e explicitar diferenças?

De fato, se as diferenças não forem reconhecidas explicitamente e protegidas pela sociedade enquanto portadoras de legítimas diversidades dos sujeitos, elas serão fatalmente plasmadas em desigualdades sociais indesejáveis por todos. Negar tais diferenças significa perder a oportunidade de materializa-las na pluralidade salutar e criativa que constitui os sujeitos sociais. Assim, a negação ou não explicitação das diferenças acaba por escamotear os sujeitos e despotencializar seu desenvolvimento pleno, fazendo-os vítimas de estruturas sociais implícitas que os massacram.



sábado, 31 de março de 2012

Reflexões sobre estar desconectado equivaler às vezes a "estar no inferno".

Essa palestra do filósofo L. Floridi explica aspectos de algo que ouvi outro dia: de que "estar desconectado hoje, especialmente na escola, faculdade, universidade, é pelo menos um pouco como estar no "inferno", na tristeza, na baixa de potência"; pelo menos quando esse "estar" desconectado resulta de uma restrição tecnológica, exclusão digital, i.e. de uma imposição ao indivíduo. Pois é claro que a pessoa é livre para escolher estar ou não em um meio-ambiente exclusivamente, ou mais ou menos, natural e limitado em relação à tecnologia ou culturalmente (assumindo-se uma divisão ontológica entre cultura e natureza).

Fato é que, de 20 anos para cá, nosso meio ambiente vem mudando cada vez mais rapidamente com as TICs. Se aceito o pensamento de Heidegger apresentado abaixo, esse novo meio-ambiente também nos transforma. Ele pode nos dizer fortemente algo sobre nós mesmos. Por exemplo, podemos nos descobrir como "inforgs", acrônimo usado por L. Floridi para designar "organismos informacionais". 
Vou tentar me basear no pensamento de Heidegger para fundamentar melhor o que eu quis dizer com a brincadeira do "inferno" a que me referi acima. Pois, até onde eu pude entender, esse filósofo tentou mostrar, em sua obra "Ser e Tempo" o que é o próprio do Ser do ser-humano (e com isso fundamentou boa parte do existencialismo do Sec XX, influenciando pensadores como H. Arendt, J. P. Sartre, Merleau-Ponty, P. Ricoeur, M. Levinas e incontáveis outros desse mesmo peso). 
Para tanto ele partiu metodologicamente de uma fenomenologia profunda do Ser. Ele se pergunta para sí mesmo "o que é o Ser"? vai então anotando suas impressões, como prescreve a fenomenologia do ponto de vista metodológico.
Em um contra-ponto com o platonismo metafísico e o racionalismo da modernidade (inaugurado por Descartes), explica o filósofo que o Ser é um ser-ai ("dasein"), um ser-no-mundo; um ser-temporal. O Ser é constituido historicamente. Ele nasce, vive e morre e isso ocorre também embebido por uma época, por um período histórico. Ou seja, segundo Heidegger, o Ser não é uma essência estática, independente do tempo e do espaço. O Ser não se posicionaria fora desse mundo, e por isso não lhe possível colocar em perspectiva (da razão pura) o universo que ele habita. Como geralmente se entendia no campo da ciência e da metafísica desde Platão e sua teoria das ideias/formas/universais. Segundo Platão todas as coisas ou entes no mundo são explicados por suas respectivas essências imutáveis, a-temporais e não-espaciais, porém concretas! mais até do que os particulares, indivíduos, entes. Para Platão o conhecimento não seria possível de outra forma, já que deve ser mais do que a mera percepção pelos sentidos. A noção platônica de conhecimento envolve a nossão de verdade e verdade é o isomorfismo entre o mundo das formas/ideias e o mundo real. 
Contrapondo-se a ninguém menos que Platão, Heidegger desvela uma compreensão possível do ser humano que passa a ser visto como possibilidades de abertura para um fundo sem fim, ou um horizonte universal aberto. O Ser passa a ser entendido então como essa própria possibilidade de abertura. 
Essa nova forma de pensar o Ser tem implicações profundas. Por exemplo, ela implica um novo entendimento da noção de verdade. A verdade passa a ser não a adequação entre o julgamento das ideias e o estado do mundo, como num cenário onde o sujeito observa o objeto que lhe é transcendente ou externo, mas como o desvelamento contínuo e sem fim do mistério do universo pelo sujeito, na presença do próprio Ser do sujeito. 
Mas o Ser não é o sujeito propriamente, tal como normalmente é entendido em geral. O Ser é o universo que engloba também o Ser do sujeito. Para Heidegger, o Ser é essa abertura do sujeito para o Ser do universo, juntamente com o próprio universo, formando um só Ser. Essa abertura que é o Ser, o autor denomina "Dasein"; que, em alemão, significa algo como "ser-aí"; um neologismo criado por Heidegger para expressar essa nova nova conceituação de Ser. 
Conforme sua abertura, o Dasein é mais ou menos permeável ao Ser do mundo, que por sua vez inclui os outros seres e entes humanos e não humanos, todo o universo. Além disso, se o Ser é ser-no-mundo, ele é essencialmente temporal. Ele é a partir da história de sua própria existência, no seu meio ambiente, histórico-cultural e natural. 

Vejamos as implicações desse pensamento para a época de hoje. Que implicações tem essa conceituação do Ser por Heidegger, para o entendimento mais profundo do mundo contemporâneo? Para o entendimento da sociedade da informação, abarcada e "embebida" pelas TICs? 

Ora, quando a parte cultural do mundo que engloba o Ser se virtualiza, é claro que o meio-ambiente cultural do Ser não se reduz mais ao mundo físico. Pode-se esperar que pelo menos uma parte do Ser passe a existir também em uma nova dimensão virtualizada (o mundo virtual da internet/web). 
Ocorre também que a existência nessa nova dimensão predispõe os sentidos do Ser à uma expansão. Por exemplo, muitos consideram seu notebook uma extensão de sua memória, do seu corpo, de sua sensibilidade social etc. é de se esperar que constitua-se assim, com o passar do tempo, um certo sentido expandido ou até, melhor dizendo, um outro sentido adicional, um "sexto sentido" do Ser. 
Pode-se considerar até como uma espécie de "sentido da informação", que o conecta ao mundo virtual e que se naturaliza com o passar do tempo. 
Por outro lado, vão existir também vários efeitos adversos que impactam o sujeito. Há pesquisas mostrando prejuízos do desenvolvimento cognitivo e redução da capacidade crítica, além de vários outros como a alienação, consumismo e dependência. 

Voltando ao início do texto, é aí que se poderia pensar que o fato de estar em um meio-ambiente desconectado, sobretudo para alguém dependente, pode passar a ser análogo à anulação de um dos sentidos do Ser, desse "sentido da informação". 
Extrapolando bastante (talvez nem tanto), pode-se dizer que essa perda seja até mesmo comparável ao que seria a perda de um nos sentidos naturais. Como se, em determinado espaço físico (uma bar, uma praça, uma escola) o Ser ficasse cego, surdo, sem paladar, olfato ou tato.  

Sugere-se que o "bem-estar" subjetivo hoje significa também poder articular-se no ideal de um novo meio-ambiente, em parte virtualizado, que permite e as vezes requer e exige a imersão do Ser na infosfera. 

Portanto, seguindo esse pensamento, acho que será difícil para uma instituição como a escola hoje atrair alunos se esses mesmos alunos têm a sensação de ter o seu sentido da informação bloqueado, logo quando eles mais necessitam dele, no momento do aprendizado, da intelecção. A angústia que gera essa necessidade não satisfeita, seria talvez responsável pela impressão ou sensação de ir para, ou estar no "inferno"... passar algumas horas desconectados tendo aula com professores que, às vezes, dão a impressão de ter parado no tempo, há mais de 20 anos.

Claro que alguns indivíduos irão utilizar a conexão para fugir do mundo físico e se alienar, mesmo que momentaneamente, caso este não o satisfaça por uma razão ou outra (fuja para o facebook por exemplo). Mas, numa concepção mais libertária da educação, essa fuga é prerrogativa de liberdade. Não parece haver muito o que fazer, pois o Ser é livre para escolher sua vida a cada momento da existência. 
Pirâmide informacional
Aqui parece haver matéria para se pensar também várias outras questões fundamentais: como a questão da educação (grau de autoridade e hierarquia x liberdade necessária para originar o novo); a questão ética na sociedade da informação e a ética da informação. 

Na sociedade da informação parece existir, cada vez mais, uma pressão sob a dimensão ou ordem da ética. Dimensão representada esquematicamente pelo 4o. andar da "pirâmide informacional" (dado > informação > conhecimento > sabedoria). 

Quando tudo se transforma em sistema de informação, parece haver uma pressão social que vem de baixo para cima na pirâmide informacional. Como forças que, se por um lado impelem ou obrigam o Ser a uma existência mais moral e ética, por outro aliena e confunde tantos outros. 

Costumo dizer que, na sociedade da informação, quem sobe no palco é a ética. Mas esse fenômeno ainda não está tão claro e articulado em minha mente. Há vários efeitos adversos decorrentes da ubiquidade da informação que precisam ser mais amplamente discutidos.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Arte de Viver, segundo o Frei Cláudio


Reproduzo e comento abaixo, texto retirado do blog do Frei Cláudio.


Segundo o Frei Cláudio, há os que reduzem a arte de viver a uma concepção popular do hedonismo que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana – uma espécie de felicidade subjetiva que se realiza, por exemplo, na possibilidade do consumo de bens, sejam básicos ou supérfluos.

"De fato, supõe-se acesso ao alimento, à água, saúde, educação, salário, lazer etc. Mas isso ainda não garante a felicidade. Há tantos que, sendo privados de algo essencial, ainda se julgam felizes." 


Na ética de Aristóteles, continua Frei Cláudio "tudo tende à sua própria perfeição. Alcançar esse objetivo teria a ver com virtude que - êxito nas iniciativas – resulta na felicidade. É o que pode suceder com um casal, um professor, um lavrador, um mecânico, um empresário, um médico, um administrador, um político, um líder, etc."


Conforme Aristóteles felicidade, portanto, não se reduz a um bem-estar subjetivo, mas implica o sucesso em nossos empreendimentos. Por exemplo, "a felicidade de um colecionador implica seu esforço de coletar. Isto é bem mais que o simples receber de algo já feito - pronto, completo - sem que tenha custado algum esforço".


A meditação auto-reflexiva, no sentido de busca pelo auto-conhecimento, surge então como meio para se estabelecer com maior clareza a natureza desses nossos empreendimentos, pois "a arte de viver implica deixar conduzir-se pelo objetivo intrínseco de suas atividades, o que supera algo extrínseco como dinheiro, prestígio e poder (não raro vantagens de carreirista). Pessoas internamente motivadas merecem o respeito de todos. Parecem felizes e irradiam impulsos positivos em seu meio.
Virtude é desenvolver as próprias potencialidades, o que é o primeiro dever para consigo. Aristóteles, em uma perspectiva elitista, julgava que condições indispensáveis - além do esforço pessoal – eram: muito tempo livre e um bom número de escravos. 
À potencialidade existente hão de corresponder condições favoráveis, sobretudo em casos de pessoas excepcionais. Nesse caso, cresce a responsabilidade do poder público quanto ao trabalho, alimentação, saúde, transporte, educação e lazer. A partir disso, as pessoas poderão tomar rumo.


Uma vida com êxito não depende só do esforço das pessoas e de suas escolhas. Entra o fator sorte – eudaimônia = circunstância favorável. Quanto a isso, encontramo-nos em situações bem melhores do que séculos e décadas passados. Hoje – ainda para uma minoria - quase tudo se encontra sob nosso comando, graças à ciência e tecnologia. Entram também em jogo as ‘ocasionalidades” – certos acasos (des-)favoráveis – fora de nosso controle como também vulnerabilidade, envelhecimento, enfermidade e mortalidade. Grave ilusão é querer transformar o mundo em um parque global de diversão como se tivéssemos o dever de ser felizes só no cultivo do prazer.


Ignorar a limitação humana é negar nossa condição de simples mortais. Também a morte (M. Heidegger- sein zum Tode) tem um aspecto positivo. Por mais que doença, velhice e morte sejam uma ruptura, são também o horizonte inevitável que torna a vida significativa. 
Luis Borges o ilustrou pelo conto “O Imortal”, mostrando que a morte enriquece o viver com desafios, fazendo superar indiferença, letargia, imobilidade."


Embora a vida se nos apresente como sem sentido intrínseco (todo sentido só pode ser encontrado fora daquilo a que se deseja dar sentido), vivemos buscamos sentidos para a nossa vida. Como diz o autor, "Vida é mais que sobre-vida, pois o que dá sentido ao viver é seu objetivo. Vida de qualidade vale mais que vida longa esvaziada. Carecemos de projetar nossa vida para além do horizonte atual. Não nos contentamos com nosso limitado existir; buscamos algo que nos transcenda. O direcionamento para algo diferente – um fim superior a nós - dá sentido ao viver. Todos vivemos em vista de algo fora e além de nós – ideal - como a pessoa amada, filhos, trabalho, empresa, sociedade, ciência, filosofia, espiritualidade."


Claro que nessa busca de sentido o risco que nos acompanha é o fracasso ou a perda... "Basta lembrar de adeptos de uma ideologia que não se realiza, de um amor que fracassa, de um Deus que não existe, de uma religião que não corresponde." 

Não nos envolver ou nos apegar à pessoas ou as coisas no sentido erótico (eros platônico, sentimento de falta) seria uma saída então para não sofrer perdas ou fracassos?
Continua o Frei Cláudio...  "Certo, quem não se engaja, não corre risco, não se (des-)ilude, porém leva uma vida vazia, sem ideal, desinteressante, enjoada. O estoicismo é uma alternativa, porém, enquanto preserva de perdas, não preenche o vazio. Vida sem risco é vida sem valor. Ninguém imuniza sua felicidade contra azar ou destino. Basta viver bem e, mesmo em adversidades, ter um pouco de sorte, a fim de que vida não pese demais e até adquira um sentido, embora exija um preço. Aqui, a alegria é uma oferta gratuita; ela nos pode surpreender, mesmo que não a tivéssemos em vista. Viver vale a pena. Quase sempre."

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Arte de Cinzelar Palavras de Vida Através da Conversa

“Como os filólogos nos advertem, as palavras estão grávidas de significados existenciais. Nelas, os seres humanos acumularam infindáveis experiências, positivas e negativas, experiências de busca, de encontro, de certeza, de perplexidade e de mergulho no Ser. Precisamos desentranhar das palavras sua riqueza escondida” (L. Boff)

Texto de: Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
Jo. 14,15-21: Este trecho do Evangelho de João faz parte de uma longa conversa de Jesus com os seus amigos durante a Última Ceia (Jo 13 a 17).
Era uma conversa amiga, que ficou na memória do discípulo amado. Jesus, assim parece, queria prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. Para João, a conversa de Jesus tem uma conotação de profundidade e trato, de certa familiaridade e intimidade.
Nesta interação Jesus-discípulos, tanto os conteúdos expressos como os aspectos relacionais ganham uma grande importância: as palavras, os gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza da revelação de Jesus aos seus mais íntimos. Jesus extrai palavras significativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam dinamismo, sentido e alteridade; sua conversa brota de uma vida interior fecunda e conduz a uma vida comprometida. Trata-se de um verdadeiro “testamento espiritual”
Nesta conversação Jesus não só verbaliza o que pensa, senão que também expressa o que sente. O grau de autorevelação e transparência aumenta. Esta longa conversa é uma oportunidade única para os discípulos conhecerem mais profundamente o Mestre; ao mesmo tempo lhes é dado a chance de se conectarem com o significado nem sempre consciente daquilo que Jesus quer dizer.
Nesta maneira de conversar, Jesus se manifesta tal e como é, verbalizando aspectos de si mesmo muito íntimos e pessoais. A experiência do “nós” revela um significa especial de comunhão e entrega.
A conversação constitui, portanto, o núcleo diferencial de qualidade de trato próximo e fraterno daqueles que, além de viverem juntos, compartilham a vida com um projeto comum.
O mesmo acontece hoje. Há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que vai fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo.
Conversar constitui uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de nosso ser. Ela não se reduz a um mero intercâmbio de palavras; é um processo essencialmente ativo, inerente à nossa natu-reza relacional, cuja finalidade última é viver a experiência do encontro.
Conversar é uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento.
A arte da conversação é um caminho pedagógico, um processo gradual que requer de nós uma capacidade de escuta, de acolher e deixar-nos tocar pelo que o outro é, não só pelo que diz; uma capacidade de olhar com profundidade para reconhecer uma história santa, um caminho de salvação. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom, formoso, e descobrir como o dinamismo de Deus atua no coração dele. É ajudá-lo a descobrir, na trama de sua vida, as motivações profundas que o levam a ser e a agir de uma maneira muito pessoal.
Uma “conversação”, carregada de inspiração e sentido, brota de um coração apaixonado pelo bem do outro, de querer ajudá-lo na direção de seu fim último, de comprometê-lo intensamente em seu processo de crescimento e maturação de uma vida engajada.
Para que a pessoa possa abrir seu interior, ela deve sentir-se envolvida pelo grau de altruísmo e acolhida que o outro pode lhe manifestar. Tal comunicação centra-se no universo original da pessoa, acessado fundamentalmente através de uma comunhão de sentimentos. Trata-se de uma empatia a serviço de uma relação de ajuda segundo o critério do Evangelho. A conversação deixa, então, transparecer as convicções, os sonhos, os sentimentos... da pessoa. “As palavras me escondem sem cuidado” (Manoel Barros)
A conversação é uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de inter-câmbio, de ternura... um encontro entre caminhantes que vão compartilhando histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de transcender... Na conversação, o que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do outro.
Conversar” e “converter-se”, etimologicamente, vem da mesma raiz. Em seu sentido mais radical e profundo “conversar” é “converter-se” ao mistério do outro, é converter-se à alteridade.
Sair dos corredores do próprio claustro interior e de seus mecanismos de defesa para converter-se em um servidor do outro, com a arma mais humana, mais sutil, mais imediata e universal, mais iluminadora e mais reveladora da própria maturidade: a palavra.
A conversação nos liberta da solidão e do fechamento, fazendo-nos crescer na transparência. As inúme-ras possibilidades de conversar são encontros que nos reconciliam com a vida, nos movem a crescer e a sair de nosso egocentrismo. Ela nos permite sentir que formamos parte da vida de outros e nos ajuda a levantar-nos quando as perdas, os fracassos, as enfermidades... tornam difícil nosso caminhar.
Conversar é uma das vias privilegiadas que temos para fazer e fazer-nos sentir que nossa vida é habitada por outros, que grande parte de nossa felicidade está no fato de sermos capazes de nos fazer presentes na vida dos outros e, ao mesmo tempo, deixar que estes se aninhem em nosso interior.
Reconhecimento, pertença, celebração da vida; sentir-se capazes de pensar autonomamente, desenvolver a própria individualidade, ser aceito e querido a partir da própria originalidade.... Cada conversação tem seu porquê, seu ritmo e seu processo.
Para chegar a conversações mais profundas e íntimas precisamos percorrer o caminho que se inicia no cotidiano e no aparentemente superficial. Encontrar-nos com os outros é uma experiência que requer seu tempo, seu espaço, seu ritmo. Nossa natureza relacional continuamente nos oferece oportunidades para conversar; depende de nós fazê-las banais ou convertê-las em experiência de vida.

Textos bíblicos: Jo. 3,1-21 2Tim. 1,6-14 Jo. 4,1-12
Na oração: O protagonista principal da conversa é o Espírito, que
                   gera em nosso interior palavras de vida e criatividade.
- Pela conversa a pessoa manifesta quem ela é. “Onde está
sua conversa, aí está seu coração”.
- Quais são suas conversas? Elas animam os outros, eleva-os, “aquecem seus corações?...
- Aguce seus sentidos, abra o coração; há tantos que não podem mais esperar, pois ansiosos aguardam uma
presença que acolha e uma palavra que os anime. 


Cinzelar
v.t. Lavrar a cinzel; esculpir.
Fig. Trabalhar com extrema precisão; aprimorar, apurar.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Depoimento da professora Amanda Gurgel


Profa. Amanda Gurgel, minha querida. Enxergo a mensagem do Amor iluminada nos seus olhos. Quanta luz!... Acolher de forma inteligente e ponderada, como você fez nesse vídeo, é o que nos importará daqui para frente, e não apenas quando o assunto for educação. O Brasil já está mudando, junto com o mundo... esse é o verdadeiro poder da Internet. Sua fala nesse momento nos ilumina fortemente o caminho acerca da educação que queremos. Depois dela, cada cidadão desse país não aceitará mais tratar a educação da forma como se faz hoje. 10% do PIB já! Obrigado!

sábado, 31 de julho de 2010

Como ser um conservador-liberal-socialista

Por Leszek Kolakowski.

Lema: "Por favor, um passo à frente para trás!" Essa é a tradução aproximada de uma solicitação que um dia eu ouvi em um bonde em Varsóvia. Proponho-me a fazer dela o slogan de uma poderosa Internacional, que não existe.

Um conservador acredita:

1. Que na vida humana nunca houve e nunca haverá melhorias que não sejam pagas com deteriorações e males, assim, ao considerar cada projeto de reforma e melhoria, o seu preço tem de ser avaliado. Dito de outra forma, inúmeros males são compatíveis (ou seja, que podemos sofre-los de forma abrangente e ao mesmo tempo), enquanto que muitos bens são limitados ou anulam-se uns aos outros e, portanto, nós nunca vamos aproveitá-los completamente, ao mesmo tempo. Uma sociedade em que não há igualdade nem liberdade de qualquer tipo, é perfeitamente possível, mas uma ordem social que combina a igualdade total e a liberdade não o é. O mesmo se aplica à compatibilidade do planejamento e do princípio da autonomia, a segurança e o progresso técnico. Dito de outra maneira, não há final feliz da história humana.

2. Que nós não sabemos até que ponto várias formas tradicionais de vida social - família, os ritos, a nação, as comunidades religiosas - são necessários para tornar a vida tolerável na sociedade ou mesmo possível. No entanto, não há razão para acreditar que a destruição dessas formas ou por expor sua irracionalidade, possamos aumentar nossas chances de felicidade, paz, segurança e liberdade. Não podemos saber o que ocorreria se, por exemplo, a família monogâmica fosse revogada, ou se o honrado costume de enterrar os mortos cedesse lugar à reciclagem racional de cadáveres para fins industriais. Seria aconselhável, no entanto, esperar o pior.

3. Que a idéia fixa da filosofia do Iluminismo - a saber, que a inveja, vaidade, ganância e agressão são causadas pelas deficiências das instituições sociais e que desaparecerão uma vez que estas instituições forem reformadas - não só é completamente inverossímil e contrária à experiência, mas extremamente perigosa. Como estas instituições teriam podido existir se fossem tão contrárias à verdadeira natureza do homem? A esperança de que podemos institucionalizar fraternidade, amor e altruísmo é já ter um plano confiável para o despotismo.

Um liberal é convicto de que:

1. Essa idéia antiga de que a finalidade do Estado é a segurança continua a ser válida. Ela mantém o seu valor mesmo se a noção de "segurança" for expandida para incluir não só a protecção de pessoas e bens por meio da lei, mas também todo um sistema de seguro: que as pessoas não deveriam morrer de fome se encontram-se desempregadas, que os pobres não devem ser condenados à morte por falta de assistência médica, que as crianças devem ter acesso gratuito à educação - todos estes também devem fazer parte da segurança. No entanto, a segurança nunca deve ser confundida com a liberdade. O Estado não garante a liberdade de ação regulamentando vários aspectos da vida, mas sim não fazendo nada. Na verdade, a segurança só pode ser expandida às custas da liberdade. Em todo caso, fazer as pessoas felizes não é a função do Estado.

2. Que as comunidades humanas são ameaçados não só pela estagnação, mas também pela degradação quando eles são tão organizados que não há mais espaço para a iniciativa individual e a criatividade. O suicídio coletivo da humanidade é concebível, mas um formigueiro humano permanente não é, pela simples razão de que não somos formigas.

3. Que é altamente improvável que uma sociedade na qual todas as formas de competitividade tenham sido aniquiladas continuaria a ter o estímulo necessário para a criatividade e progresso. Mais igualidade não é um fim em si, mas apenas um meio. Em outras palavras, não há sentido em lutar por mais igualdade, se os resultados forem apenas o nivelamento por baixo daqueles que estão em melhor situação, e não a elevação dos desfavorecidos. Perfeita igualdade é um ideal auto-destrutivo.

Um socialista acredita que:

1. Sociedades em que a busca do lucro é o único regulador do sistema produtivo são ameaçadas por catástrofes - talvez mais graves - que sociedades em que o lucro tenha sido totalmente eliminado da regulação das forças de produção. Há boas razões para que liberdade de atividade econômica deva ser limitada por razões de segurança, e para que o dinheiro não deva automaticamente produzir mais dinheiro. Mas a limitação da liberdade nesse caso deve ser compreendida tal como, e não considerada como uma forma superior de liberdade.

2. É absurdo e hipócrita concluir que, simplesmente porque uma sociedade perfeitamente sem conflitos é impossível, todas as formas existentes de desigualdade sejam inevitáveis e que todas as formas de fins lucrativos justificadas. O tipo de pessimismo antropológico conservador que conduziu à convicção surpreendente de que um imposto de renda progressivo era uma abominação desumana é o mesmo, ou tão suspeito quanto, o tipo de otimismo histórico em que o Arquipélago Gulag foi baseado.

3. A tendência a submeter a economia a importantes controles sociais deve ser incentivada, mesmo que o preço a ser pago seja o aumento da burocracia. Tais controles, porém, devem ser exercidos no âmbito da democracia representativa. Assim, é essencial planejar instituições que combatam a ameaça à liberdade que é produzida pelo crescimento desses controles eles mesmos.

Tanto quanto eu posso ver, este conjunto de ideias reguladoras não é auto-contraditório. E, portanto, é possível ser um conservador-liberal-socialista. Isto equivale a dizer que essas três denominações particulares já não são (opções) mutuamente exclusivas.

Quanto à poderosa Internacional, que mencionei no início - ela nunca vai existir, porque não pode prometer às pessoas que elas vão ser felizes.

Leszek Kolakowski, Modernity on Endless Trial, University of Chicago Press, 1990.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Esse maravilhoso analfabeto

                                  Texto de Pedro Lima
                       (Economista e Professor da UFRJ)

FHC, o farol, o sociólogo, entende tanto de Sociologia quanto o governador de São Paulo, José Serra, entende de economia. Lula, que não entende de sociologia, levou 32 milhões de miseráveis e pobres à condição de consumidores; e que também não entende de economia; pagou as contas de FHC, zerou a dívida com o FMI e ainda empresta algum aos ricos Lula, o analfabeto, que não entende de educação, criou mais escolas e universidades que seus antecessores juntos [14 universidades públicas e entendeu mais de 40 campi], e ainda criou o PRÓ-UNI, que leva o filho do pobre à universidade [meio milhão de bolsa para pobres em escolas particulares].

Lula, que não entende de finanças nem de contas públicas, elevou o salário mínimo de 64 para mais de 291 dólares [valores de janeiro de 2010], e não quebrou a previdência como queria FHC.
Lula, que não entende de psicologia, levantou o moral da nação e disse que o Brasil está melhor que o mundo. Embora o PIG-Partido da Imprensa Golpista, que entende de tudo, diga que não.

Lula, que não entende de engenharia, nem de mecânica, nem de nada, reabilitou o Proálcool, acreditou no biodiesel e levou o país à liderança mundial de combustíveis renováveis [maior programa de energia alternativa ao petróleo do planeta].
Lula, que não entende de política, mudou os paradigmas mundiais e colocou o Brasil na liderança dos países emergentes, passou a ser respeitado e enterrou o G-8 [criou o G-20].

Lula, que não entende de política externa nem de conciliação, pois foi sindicalista brucutu; mandou às favas a ALCA, olhou para os parceiros do sul, especialmente para os vizinhos da América Latina, onde exerce liderança absoluta sem ser imperialista. Tem fácil trânsito junto a Chaves, Fidel, Obama, Evo etc. Bobo que é, cedeu a tudo e a todos.

Lula, que não entende de mulher nem de negro, colocou o primeiro negro no Supremo (desmoralizado por brancos) uma mulher no cargo de primeira ministra, e que pode inclusive, fazê-la sua
sucessora.

Lula, que não entende de etiqueta, sentou ao lado da rainha (a convite dela) e afrontou nossa fidalguia branca de lentes azuis.

Lula, que não entende de desenvolvimento, nunca ouviu falar de Keynes, criou o PAC; antes mesmo que o mundo inteiro dissesse que é hora de o Estado investir; hoje o PAC é um amortecedor da crise.

Lula, que não entende de crise, mandou baixar o IPI e levou a indústria automobilística a bater recorde no trimestre [como também na linha branca de eletrodomésticos].

Lula, que não entende de português nem de outra língua, tem fluência entre os líderes mundiais; é respeitado e citado entre as pessoas mais poderosas e influentes no mundo atual [o melhor do mundo
para o Le Monde, Times, News Week, Financial Times e outros...].

Lula, que não entende de respeito a seus pares, pois é um brucutu, já tinha empatia e relação direta com George Bush - notada até pela imprensa americana - e agora tem a mesma empatia com Barack Obama.

Lula, que não entende nada de sindicato, pois era apenas um agitador;.. é amigo do tal John Sweeny [presidente da AFL-CIO - American Federation Labor-Central Industrial Congres - a central de
trabalhadores dos Estados Unidos, que lá sim, é única...] e entra na Casa Branca com credencial de negociador e fala direto com o Tio Sam lá, nos "States".

Lula, que não entende de geografia, pois não sabe interpretar um mapa é autor da [maior] mudança geopolítica das Américas [na história].

Lula, que não entende nada de diplomacia internacional, pois nunca estará preparado, age com sabedoria em todas as frentes e se torna interlocutor universal.

Lula, que não entende nada de história, pois é apenas um locutor de bravatas; faz história e será lembrado por um grande legado, dentro e fora do Brasil.

Lula, que não entende nada de conflitos armados nem de guerra, pois é um pacifista ingênuo, já é cotado pelos palestinos para dialogar com Israel.

Lula, que não entende nada de nada;.. é bem melhor que todos os outros...!

Pedro Lima
Economista e professor de economia da UFRJ

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O que é ter sucesso?

Em uma lista de discussão falávamos a respeito do que seria "ter sucesso".
Gostei do texto que reproduzo abaixo, de autoria do Hugo Nogueira. Acho que ele diz o essencial de forma simples. Além disso, o texto me fez lembrar da canção Un Homme Heureux, de William Sheller (video).

"Um executivo que passa a maior parte do dia estressado, lutando para ganhar mais, para pagar bugigangas mais caras, que deixa de lado as raízes e a família e que não vê nenhum outro futuro, exceto a perpetuação dos problemas que já tem, pode ser extremamente mal sucedido. Viciado em endorfinas --- que o corpo produz em algumas situações, entre as quais as de estresse -- tal pessoa nunca está feliz, embora possa estar alegre todo o tempo, mascarando a infelicidade. E, confundindo alegria e êxtase com felicidade, vira um verdadeiro perdigueiro em busca de situações que gerem mais e mais endorfinas...
Por outro lado, um homem bem sucedido pode ser aquele que tem somente uma cabana e uma jangada para pescar, mas que encontra realização naquilo que faz, felicidade pelos anos, meses e dias que vive e que sente que tem raízes, um passado e um futuro. Que tem amor e dá amor. Que baliza suas sensações por relacionamentos ricos, não produtos caros.
Claro que há muitos jangadeiros mal sucedidos e muitos executivos bem sucedidos. Este é o ponto importante: não importa o que você tem, mas quem você é. Por isso há milionários felizes e bem sucedidos, e milionários infelizes e mal sucedidos; por isso há jangadeiros felizes e bem sucedidos e jangadeiros infelizes e mal sucedidos. Não são as posses de uma pessoa que definem seu sucesso, mas o que estas pessoas são.
Os comerciais de televisão, e os anúncios sofisticados nas revistas, tentam convencer milhões de pessoas (e conseguem) de que a felicidade está atrelada ao novo carro, computador, casa, celular, vestido... ou o que quer que seja. Aqueles que acreditam nisso, se tornam escravos da ansiedade, escravos dos comerciais de TV, das coleções de moda, dos lançamentos automotivos. E, como um traficante que oferece cada vez mais drogas, e mais fortes, os mesmos comerciais parecem nunca oferecer a tralha definitiva. Tudo é descartável no próximo lançamento -- de brinquedos à jatos comerciais.
Sucesso é aquilo que você é, não aquilo que você tem, porque tudo aquilo que você tem, pode perder amanhã. Um terremoto, um vulcão, um incêndio, uma guerra, uma quebra da bolsa de valores, uma explosão nuclear, um vírus, um acidente na estrada, um meteorito, um atropelamento,um azar... qualquer coisa pode acontecer e tirar tudo aquilo que você tem. Mas nenhuma dessas coisas pode tirar aquilo que você é.
Sucesso é um modo de ser, de pensar, de agir. Ser um sucesso é saber escolher a cada momento, mudar sempre naquilo que não importa, e mudar raramente naquilo que importa. Ser um sucesso é saber que a queda é parte da caminhada. Ser um sucesso é não descontar em outros as agressões recebidas. Ser um sucesso é ver-se como dono da sua vontade, escolhendo o que você diz, escolhendo o que você vai deixar para trás, escolhendo os seus compromissos.
Pode ser que você seja um grande sucesso, sem dinheiro, sem posses e sem tralhas. 
Pode ser que você seja um grande sucesso com dinheiro, com posses e com tralhas. 
No fundo, as pessoas bem sucedidas sabem que não importa o que você tem, mas quem você é. Por isso, pessoas bem sucedidas são muito mais atraentes, muito mais interessantes e têm muito mais conteúdo. Você sabe que as pessoas bem sucedidas são como taças de cristal. Você as reconhece. Diferentes das pessoas mal sucedidas (ricas ou pobres), que mais parecem copos plásticos amassados, até quando estão cobertas de jóias.
Da próxima vez que você sentir vontade em dizer que alguém é bem sucedido, ou mal sucedido, verifique se você está fazendo uma avaliação do que a pessoa é ou somente do cargo, dinheiro e produtos que ela possui. 
Da próxima vez que você sentir vontade em avaliar se aquela pessoa no espelho é bem sucedida, verifique se você está fazendo uma avaliação do que a pessoa no espelho é, ou somente do cargo, dinheiro e produtos que ela possui."
Hugo Nogueira
Gestor de Tecnologia e Informação
Masterhouse Soluções em Tecnologia

terça-feira, 30 de março de 2010

O capitalismo é moral?

Comentando o livro onde o filósofo André Comte-Sponville adverte para o perigo de transformar o mercado em religião, Oscar Pilagallo, editor da revista EntreLivros se expressa assim: "Há muita conversa, hoje em dia, sobre responsabilidade social da empresa, sobre ética empresarial, sobre moral no mundo dos negócios. O que significa isso? Numa palavra: marketing."
Segundo Sponville o capitalismo não é moral nem imoral, é amoral: “Não contem com o mercado para ser moral no lugar de vocês”, avisa. “Um sistema econômico é feito para criar riqueza. (…) O erro seria crer que baste a riqueza para fazer uma civilização ou mesmo uma sociedade humanamente aceitável. É por isso que necessitamos também do direito e da política… Não peçamos à economia para fazer as vezes deles!” Seria “a mais ridícula das tiranias, a da riqueza”, completa Comte-Sponville. Concordo com Marcelo Coelho, colunista da Folha, que é nessa menção ao ridículo e à tirania que se concentra o aspecto mais interessante do livro. O autor propõe, inspirando-se de Pascal, uma nova definição do conceito de barbárie e de seu oposto simétrico, o angelismo. Confundem-se, diz ele, ordens de natureza distinta: não se avalia a economia com os instrumentos da moral nem vice-versa.
Para o autor, lido por Oscar Pilagallo, "num momento em que a defesa da moral empresarial virou um negócio lucrativo é oportuno desconfiar do discurso que tenta camuflar o real propósito do capitalismo: gerar lucro". Faz sentido, pois não parece ser a moral que determina os preços, é a lei da oferta e da procura (quem se lembra do ridículo dos fiscais do Sarney nos anos 80?); não é a virtude que cria o valor econômico, mas sim o trabalho. Pergunta-se então: "mas a empresa não deve gerar emprego? Sim, mas só se o empregado gerar valor maior que seu salário (a mais-valia descrita por Marx). E o cliente não deve ser satisfeito? Sim, mas não é para satisfazer o cliente que se quer satisfazer o dono da empresa, o acionista; é o contrário: é para satisfazer o acionista que se quer satisfazer o cliente."
O texto deixa claro: "O capitalismo é antipático. Enriqueça. Seja egoísta. Aja segundo seus interesses. Se cada um cuidar de si, a sociedade progride economicamente. Essa é a lógica do capitalismo. Cruel e perversa. A realidade é que apenas reflete a natureza humana. Essa é a origem de sua eficácia, relativamente superior à do comunismo, tal como foi experimentado no século passado."

Um ponto alto do texto é a explicação de é o comunismo, esse sim, que tem a ver com moral, pelo menos em sua concepção. Para o comunismo triunfar seria necessário que as pessoas deixassem de ser egoístas e pusessem o interesse geral acima do interesse particular. Como isso não acontece voluntariamente, recorreu-se à coerção. O totalitarismo não seria, portanto, apenas um desvio de rota. "É assim que se passa da bela utopia marxista, no século XIX, ao horror totalitário que todos conhecem, no século XX", escreve Comte-Sponville. "O erro simpático e nefasto de Marx foi o de querer erigir a moral em economia."
O filósofo, que flertou com o comunismo na juventude dos anos 60, fala da perspectiva de um liberal de esquerda, como se define. Ele explica o que entende por isso: "Os liberais de esquerda são os que constatam o fracasso do marxismo, sem renunciar com isso a agir pela justiça (inclusive a justiça social) e pela liberdade (inclusive a liberdade econômica)".
Para Comte-Sponville, a moral numa sociedade capitalista deve ser procurada fora da esfera econômica. "Querer fazer do capitalismo uma moral seria fazer do mercado uma religião e da empresa, um ídolo. Se o mercado virasse uma religião, seria a pior de todas, a do bezerro de ouro. E a mais ridícula das tiranias, a da riqueza." Eis o perigo oculto do marketing da moral.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dado, informação, conhecimento e sabedoria.

Em quê contribui a TI (Tecnologia da Informação) para o desenvolvimento de uma espiritualidade necessária à própria reflexão acerca de sua evolução? ou à ética de seu uso?
Me parece que o homem quebrará, neste século ainda, outros limites do imaginável em seu processo de criação. Porém, os horrores do século passado deixaram mais do que claro que a razão pura, ciência/tecnologia, não basta; precisamos aprofundar e fazer evoluir cada vez mais a razão prática, os valores. Mas como esta última pode evoluir? Qual é o papel da ciência e da tecnologia nessa evolução? se é que possa existir algum, já que parece impossível passar do conhecimento descritivo ao normativo. Da ciência à ética.
É possível lançar pontes para além do conhecimento, alcançando algum grau de sabedoria? A tecnologia pode nos ajudar nisso, como?

Em filosofia a pergunta (clássica) seria: "é possível passar da descrição ao valor?" e, classicamente, a resposta da filosofia a esta pergunta é, em geral, negativa: não há como explicar o surgimento de valores a partir apenas da descrição de processos naturais (da ciência), mesmo que apoiados na mais avançada tecnologia. Porém, em filosofia raramente (nunca) existe consenso. Sam Harris é um nome a contestar a negatividade desta resposta.

Distante do racionalista Sam Harris mas na mesma sintonia de pensamento, o místico Pierrre Weil denominou "Mutantes"[1] as pessoas que experimentam e vivem valor e verdade como uma coisa só. Nesse livro ele discute as etapas evolutivas da consciência humana, dividindo o processo de hominização em três fases. Num extremo está o ser Estagnante, no outro o ser Iluminado. No meio, entre esses dois extremos, está o ser Mutante. O ser mutante seria como uma ponte para um novo paradigma existencial (cf. o conceito de hominescência de M. Serres), onde desapareceria totalmente a ilusão metafísica das separações ser/mundo, sujeito/objeto, valor/verdade etc. e suas consequências (nefastas?) para o homem. Caminha-se então na trilha que vai do pensamento metafísico para o dialético ou pragmatista (de Kant para Dewey[2]).

De toda forma, voltando ao cerne desse post, na disciplina Sistemas de Informação, quando buscamos entender a natureza da relação que o homem constrói com suas máquinas, e consigo mesmo através delas, o conceito de Pirâmide Informacional é recorrente. Trata-se de uma complexa hierarquia, ou pirâmide, que relaciona os fenômenos dado, informação, conhecimento (explícito e passível de representação; ou tácito, i.e., empírico, advindo da experiência e de difícil representação) e sabedoria.

Esses fenômenos formam um todo. São dificilmente separáveis uns dos outros, mas podem ser distinguidos por nossa inteligência analítica. Tais fenômenos são todos interessantes, objetos de estudos aprofundados de uma nascente disciplina, a Filosofia da Informação (vide L. Floridi).

Quero, neste post, me ater a apenas um deles, a Sabedoria. Como definição do termo, esta me parece razoável: sabedoria seria o "máximo grau de lucidez, presente no máximo grau de felicidade" (C. Sponville). Somos capazes de experimentar algo assim? Estaria a humanidade, em sua evolução, trilhando esse percurso? Seria possível alcançar uma sabedoria que nos salve da auto-destruição, da aplicação da tecnologia sem preocupação ou reflexão ética?

Alguns filósofos disseram, e outros ainda dizem, que somos capazes disso, e sem cair no obscurantismo. Precisaríamos, contudo, para alcançar a sabedoria, desenvolver no caminho uma certa espiritualidade. Espiritualidade que pode até prescindir da religião, mas dificilmente poderia prescindir da comunhão em determinados valores. Leio que precisaríamos aprender mais sobre o Amor, e assim aprendermos a amar mais e a amar melhor. "Ciência é conhecimento organizado, sabedoria é vida organizada" (I. Kant). E é preciso ir além da experiência já que "esta não nos ensina sobre as essências das coisas" (B. Espinoza, em dito racionalista).

Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo, vai mais longe ao recusar o auxílio de qualquer religião, e diz em um de seus livros: "O Século XXI será o de uma espiritualidade laica ou não será nada". Ele exagera?
Embora a religião, baseada que está na esperança, possa atrapalhar o desenvolvimento de uma espiritualidade focada mais fortemente no amor e na fidelidade (e não na fé e na esperança), muitos ainda encontram nela o locus de possibilidade único para o desenvolvimento de qualquer vida espiritual. Ou daquilo que normalmente em sociedade nomeia-se 'vida espiritual'.

Acompanhando o pensamento de Sponville, uma espiritualidade laica não se fundamenta na esperança, que teima em nos desviar a vida do momento presente. Deve-se esperar por uma outra vida que não esta, prendendo-se ao passado ou ao futuro, mas não no presente, no agora. Esperar aquilo que não depende de si? qual o sentido? Mas daquilo que depende de si, para que esperar? o melhor seria agir. Fé ou fidelidade? Se o reino é para ser experimentado aqui e agora, para que ter fé?

A religião ocidental possui uma concepção acerca da eternidade que pode estar enganada. Uma eternidade como tempo linear, que não acaba... Outra concepção poderia ser a de eternidade como ausência do tempo. Apenas o presente existiria. O presente que se mantém presente. Pode-se pensar: "no agora, o passado não existe mais, e o futuro ainda não existe". Resta então apenas o momento presente, com a memória presente do passado e com os projetos que virão no futuro, apenas os que dependem de mim.
Mas é caminho difícil. Na maior parte das vezes em que estamos conscientes nos pegamos presos ao futuro, a esperar o que não depende de nós; ou presos ao passado, porque não conseguimos resolver nossas contas com ele (arrependidos, frustrados). 

Dados > informação > conhecimento > ..., sim, mas parece haver um hiato aqui, separando a sabedoria dos outros anteriores. Com efeito, as sociedades mais "bem resolvidas" sob o ponto de vista tecnológico e científico não parecem entretanto mais felizes, além de um limite constante. Pelo jeito, depois de termos conquistado tudo em nossas vidas, não nos sentimos mais felizes por isso.

Mas mesmo assim, esse poderia ser o destino do ser humano, uma evolução em direção à sabedoria? (cf. F. Hegel) Mesmo que seja possível, uma coisa parece clara: se nesse percurso ou evolução, que passa também por uma natural e forte humanização da tecnologia (i.e. sua apropriação definitiva pela Cultura), pararmos no patamar ou nível do conhecimento, e se esse patamar nos bastar, então talvez não sobrevivamos mesmo ao Século XXI. Não desenvolveremos nossa dimensão espiritual prática. Daí a premência da ética na ciência hoje, mas de uma ética não-Platônica. Uma ética desmstificada, que desafie a tradição das religiões monoteistas.

Como Sponville, também acredito que é preciso encontrar uma espiritualidade sem dogmas, laica. Paradoxalmente, a igreja pode nos abrir ou fechar para a espiritualidade. A espiritualidade nada mais é do que a vida do espírito em nós, ou seja a experiência da consciência em nós. É a relação entre o finito em nós e o infinito do universo, do temporal em nós com o eterno (ou atemporal). Se, por acaso, nos sentirmos fechados por dogmas, devemos nos libertar. Nos libertar dos conceitos incutidos muitas vezes pela igreja ou pela  tradição. Infelizmente, em sua maior parte, essas tendem a verbalizar ideologicamente a mensagem de Cristo. 

Com efeito, parece premente hoje buscarmos uma espiritualidade que nos previna, tanto contra o fanatismo quanto contra o niilismo, mas que não nos jogue no obscurantismo. No post Falando de Amor escolhi, para me instruir sobre o tema do Amor, as ideias de Sponville que versam sobre a história contada no livro Banquete de Platão - ou, "a propósito do Amor".

Segundo guias espirituais, como o contemporâneo Eckhart Tolle, a passagem do nível do conhecimento para o nível da sabedoria na pirâmide informacional, requer forte trabalho sobre o ego. Com efeito, parece que o ego nos impede de viver o "agora". Nos aprisiona no passado ou nos ilude com expectativas ou esperanças futuras. Porém, como podemos nos relacionar adequadamente com o outro sem um ego minimamente maduro. Nem o ódio nem o louvor ao ego, portanto.

Buscando subir na pirâmide e alcançar algum grau de sabedoria, parece que o conhecimento não é mais suficiente ou pouco importa. Muito menos a informação ou menos ainda o dado (parece haver um fosso que os separa da sabedoria). Além de um determinado limite, os nossos problemas individuais ou coletivos não parecem poder ser resolvidos com mais reflexão, mais racionalidade, com mais pensamento ou pensando mais fortemente (no sentido de um subjetivismo cartesiano, ou do racionalismo).
Talvez, na maior parte dos casos isso possa até atrapalhar, pois o mistério mais profundo do Ser não nos é dado conhecer, mas apenas sentir, experimentar (caberia reflexão sobre como a filosofia de Merleau-Ponty, fenomenologia da percepção, que pode ser útil aqui). Nesse sentido, pode-se citar Inácio de Loyola quando diz:  "Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir, experimentar e saborear todas as coisas internamente".

Um caminho? místico, racional? difícil dizer. Talvez buscando uma maior conexão com o momento presente e também com o outro (pessoa humana), possamos trazer alguma "energia cósmica" inerente à vida que possa nos ajudar. Uma sensação mística que às vezes, embora raramente, nos ocorre de ligação com o Todo; de que somos parte de um Todo muito maior do que nosso corpo ou nossa insignificante personalidade (experiência de unidade). O exercício de manter nossa consciência mais alerta, mais presente, mais atenta ao momento presente, me parece também um caminho (experiência de simplicidade).

Talvez essas experiências possam ser desenvolvidas a partir de um melhor entendimento acerca do papel do amor em nossa existência. Coração e razão não são duas coisas diferentes, mas formam um todo (que na modernidade Kant separou em suas obras críticas). Sente-se que é o coração que abre o Ser à razão, ao entendimento. A razão seria a guia, mas o amor é o motor, vem primeiro.
Se conseguirmos preservar essa conexão com o momento presente durante os nossos dias, ao realizarmos nossas tarefas do dia-a-dia, em nossos relacionamentos, então seremos mais tranquilos, serenos, mansos, mais em paz.
Talvez assim, não somente seremos capazes de atingir algum grau de sabedoria, como comporemos o conjunto, cada vez mais numeroso, de seres conscientes de que são dotados da energia positiva e criadora de vida no universo (seres Mutantes).

Mas, voltando ao início, em que contribui a TI para o desenvolvimento de uma espiritualidade necessária à própria reflexão sobre sua evolução e nossa evolução?

Alguns elementos para responder poderiam ser: imaginar como a Internet e a Web quebram os limites do tempo/espaço, e ideias (memes) iluminadas, de pessoas mais sábias, de raciocínio claro, passam a ter divulgação universal e imediata.
Na medida em que a Web vai ficando mais e mais semântica, não apenas essas ideias estão à disposição, como estão relacionadas entre si formando estruturas, grafos de conhecimento. Nesses novos sistemas de conhecimento, as ideias competem entre si, já que todas as ideias são imediatamente relacionadas pelos mecanismos de navegação, busca e recuperação de informação cada vez mais poderosos.

Claro que o mal está também presente entre nós. Antes de nascer, ainda no ventre de nossa mãe fazemos parte do Todo. Ao nascer somos separados desse todo, ganhamos aos poucos uma consciência. Com esse movimento nos tornamos então expostos ao mal, assim como ao bem. Pecar seria escolher o mal. É porque o mal existe, em cada um de nós, que precisamos nos esforçar e participar da construção do bem. Abracemos a glória e não a miséria humana em nós (B. Pascal).

Precisamos espalhar e alargar a comunidade dos "Mutantes" de Pierre Weil (Universidade da Paz) e tantos outros sábios; mas este é outro assunto.


[1]Pierre Weil. “Os Mutantes – Uma Nova Humanidade para um novo milênio” (Ed. Verus).
[2]Richard Rorty. “Kant contra Dewey: a situação atual da filosofia moral” (Filosofia como Política Cultura, ed. Martins Fontes).

sábado, 20 de junho de 2009

Sobre a exigência incondicional de diploma universitário

Interessante a revogação da exigência pelo diploma de jornalismo. Considero uma importante evolução para o País. Um jornalista admirável, o Heródoto Barbeiro, é formado em direito, pós-graduado em história. Ou seja, já devia ser um bom jornalista quando cursou o bacharelado de comunicação. Se as ações da ocupação profissional não impactarem diretamente em risco à vida humana, então deve ser o mercado a regular a atuação profissional e não a lei.

Revogação do diploma de jornalismo

A obrigatoriedade do diploma em jornalismo vigorava desde 1969 graças ao Decreto-Lei 972. O questionamento judicial sobre a constitucionalidade do diploma começou em 2001, quando a 16ª Vara da Justiça Federal de São Paulo concedeu liminar determinando que o documento não seria mais necessário para obtenção do registro profissional. Em 2005 a decisão foi revogada pelo Tribunal Regional Federal. Ontem, 17 de junho, a decisão de suspensão da necessidade do diploma foi tomada pelo STF, instância máxima da justiça brasileira, por oito votos a um. O resultado não pode mais ser revertido.