Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder...
"
Como os gregos, nós hoje achamos que uma vida mortal bem-sucedida é melhor que ter uma imortalidade fracassada, uma vida infinita e sem sentido. Buscamos uma vida boa para quem aceita lucidamente a morte sem a ajuda de uma força superior." (Luc Ferry)
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Hominescência


Michel Serres nos oferece a palavra hominescência para dizer que a humanidade vive, desde a segunda metade do século 20, uma grande mudança na sua relação com o tempo e com a morte.
O termo tem como desinência "escência" (incoativa*), que desígna o início frágil de um processo; por exemplo de fervura, de iluminação, de floração: efervecência, luminescência, florescência, incandescência, senescência ou adolescência.

Percebe-se nestas palavras uma dimensão de "vai-e-vem", de crescimento/decaimento, brilho/escurecimento, avanço/regressão. A hominescência seria um processo que, por afastamentos repetidos de um extremo a outro, vai renovando a hominização.

Não está claro o que ela vai produzir: uma humanidade, uma outra humanidade ou outros graus de humanidade. A hominescência é concentrada em um período reduzido de tempo: algumas décadas... em uma escala (de hominização) que pode ser contada em milhares de anos ou milênios.

Segundo Michel Serres, a hominescência se desenvolve por ciclos sucessivos:
1. Primeiro ciclo: o homem cria ferramentas externas e técnicas que estendem seus órgãos. Alguns animais são domesticados e o homem vive com eles.
2. Segundo ciclo: o corpo se globaliza, a Terra entra na história. Constituindo um novo habitat, o homem produz a natureza.
3. Terceiro ciclo: o homem perde suas faculdades, que são terceirizadas para dispositivos: memória, voz, conhecimento. A ciência e a tecnologia tornam-se capazes de mudar o seu corpo (que se torna visível e glorioso), e melhorar a sua saúde. Inventam-se objetos mundiais (Internet, genoma, a bomba atômica), ferramentas paradoxais que moldam o seu mundo, lhes dão poder de decisão sobre sua própria emergência e/ou morte, mas que ele não controla.
A história se faz evolução. Ela procura um novo equilíbrio.
Definindo os limites do humano, a hominescência os move. Ela exige um debate bioético que redefine e reconstrói a humanidade.


*Adj. Que começa; inicial; inceptivo. Diz-se dos verbos que denotam o começo de uma ação, como envelhecer, adormecer etc.

sábado, 31 de março de 2012

O Conhecimento segundo a Filosofia da Informação

A metafísica é o estudo do que há, do que existe. Os antigos descreviam-na como o problema do ser.
Não se pode fazer metafísica sem conhecer como se pode conhecer (questão epistemológica) o que há para se conhecer (questão ontológica). Ou seja, em que condições mínimas pode-se afirmar que se conhece algo?
A questão epistemológica de conhecer (saber) como conhecemos é uma questão fundamentalmente circular. A questão ontológica de conhecer algo sobre o que existe cria ainda um outro círculo, porque aquele que conhece é ele próprio uma das coisas que existem para ser conhecidas (auto-conhecimento).

Entretanto, a princípio nada indica que essas definições circulares precisam ser viciosas. Elas podem simplesmente constituir um conjunto coerente de idéias usadas para descrever a nós mesmos e o mundo externo. Se as descrições são logicamente válidas, ou verificáveis ​​empiricamente, conclui-se que se está aproximando da "verdade" sobre as coisas, adquirindo conhecimento.

É necessário então descrever o conhecimento em si - como uma coisa existente em nossas mentes e no mundo externo. A Filosofia da Informação faz isso baseando-se exclusivamente na noção abstrata, mas quantitativa de informação.

A informação é armazenada e codificada em estruturas. Estruturas no mundo constroem-se seguindo leis naturais, incluindo as leis físicas e biológicas. Estruturas na mente são parcialmente construídas por processos biológicos e parcialmente construídas pela inteligência humana, que é livre, criativa e imprevisível.

Conhecimento é informação gerada e armazenada na mente e nos artefatos humanos como histórias, livros e computadores interconectados. Conhecimento é informação acionável que forma a base para pensamentos, ações e crenças.

Conhecimento inclui toda a informação cultural criada pelas sociedades humanas. Também inclui as teorias e experimentos dos cientistas, que colaboram para estabelecer o nosso conhecimento do mundo externo. O conhecimento científico é o que mais próximo está de ser independente de qualquer mente humana, embora seja ainda dependente de uma comunidade aberta de inquiridores (sociedade aberta de K. Popper).

Para além da correspondência, do isomorfismo, do mapeamento um-para-um, entre as estruturas de informação (e processos) no mundo e as aquelas representativas dessas estruturas e funções na mente, a filosofia informação afirma que temos conhecimento pessoal ou subjetivo quantificável do mundo.

Para além do acordo (de novo uma correspondência ou isomorfismo) entre a informação nas mentes de uma comunidade aberta de investigadores que procuram as melhores explicações para os fenômenos, a filosofia da informação reivindica ainda que temos conhecimento inter-subjetivo quantificável de outras mentes e do mundo externo a elas. Este é o mais perto que chegamos do conhecimento "objetivo", e conhecimento dos objetos - "coisas em si" de Kant.

O conhecimento historicamente tem sido identificado pelos filósofos com a linguagem, a lógica e as crenças humanas. Epistemólogos, desde o Theatetus de Platão e dos Analíticos posteriores de Aristóteles aos filósofos da linguagem contemporâneos, identificam o conhecimento com as declarações ou proposições que podem ser logicamente analisadas ​​e validadas.

Especificamente, a epistemologia tradicional define o conhecimento como "crença verdadeira justificada". Crenças subjetivas são geralmente expressas em termos de proposições. Por exemplo,

     S sabe que P se e somente se
     (i) S acredita que P,
     (ii) P é verdadeira, e
     (iii) S está justificado em crer que P.

Na longa história do problema do conhecimento, todos essas três condições (elas mesmas formas de conhecer) revelaram-se muito difíceis para os epistemólogos. Entre as razões ...

(i) Uma crença é um estado mental interno que está para além da compreensão plena por parte de observadores externos especialistas. Mesmo o sujeito ele mesmo tem limitado acesso imediato a tudo o que sabe ou acredita. Por uma reflexão mais profunda, ou pela consulta de fontes externas de conhecimento, ele pode "mudar de idéia". Ou seja, revisar seus estados doxásticos.

(ii) A verdade sobre qualquer fato no mundo é vulnerável ao ataque cético ou sofista. O conceito de verdade deve ser limitado a usos em sistemas lógicos e matemáticos de pensamento. "Verdades" no mundo real/empírico são sempre falíveis e passíveis de revisão à luz de novos conhecimentos.

(iii) A noção da justificação de uma crença pelo fornecimento de razões é vaga, circular ou uma regressão infinita. Que razões podem ser dadas de que as razões elas mesmas não tem outras razões que as justifiquem? Em vista de (i) e (ii) que valor tem uma "justificação" que é falível, ou pior ainda, falsa?

(iv) Epistemólogos tem estudado principalmente crenças pessoais ou subjetivas. Temendo a concorrência com as ciências empíricas e seus métodos para o estabelecimento do que seja conhecimento, eles enfatizam que a justificação deve ser baseada em razões internamente acessíveis ao sujeito. Alguns descrevem erradamente como "externas" crenças inconscientes de um sujeito ou crenças indisponíveis para a memória imediata. Estas são apenas inacessíveis, e talvez apenas temporariamente.

(v) A ênfase na lógica tem levado alguns epistemólogos à alegação de que o conhecimento é fechado sob implicação estrita (ou material). Isto assume que o processo do conhecimento ordinário é informado pela lógica, em particular, que

        (fechamento) Se S sabe que P e P implica Q, então S sabe que Q.

Porém, nós só podemos dizer que S está em uma posição para deduzir Q, se ele é treinado em lógica.

Assim, não é surpresa que os epistemólogos falharam em todos os esforços para dar ao conhecimento uma base sólida, muito menos estabelecer o conhecimento como certeza apodítica, como Platão e Aristóteles esperavam e René Descartes achou que ele tinha estabelecido, para além de qualquer dúvida razoável.

Talvez exagerando a ameaça da ciência como um método comprovadamente mais bem sucedido para o estabelecimento do que seja o conhecimento, os epistemólogos esperavam se diferenciar e preservar sua abordagem filosófica própria. Alguns sustentaram que o objetivo do positivismo lógico (por exemplo, Russell, primeiro Wittgenstein e o Círculo de Viena) que a análise filosófica deveria fornecer um fundamento normativo à priori exclusivamente baseado no conhecimento científico empírico.

Argumentos lógicos positivistas para o caráter não-inferencial auto-validativo de percepções lógicas atômicas tais como "vermelho, aqui, agora" tenham talvez levado alguns epistemólogos a pensar que as percepções pessoais podem justificar diretamente algumas crenças "fundacionistas".

O método filosófico de análise lingüística (Filosofia da Linguagem, inspirada no segundo Wittgenstein) não tem conseguido muito mais. É pouco provável que o conhecimento de qualquer tipo seja redutível simplesmente à análise conceitual cuidadosa de frases, declarações e proposições.

A Filosofia da Informação olha mais profundamente, para além da superfície das ambigüidades da linguagem.

A Filosofia da Informação distingue pelo menos três tipos de conhecimento, cada um exigindo sua própria análise epistemológica especial:

     - Conhecimento subjetivo ou pessoal, incluindo introspecção e intuição, bem como as comunicações com e percepções de outras pessoas e do mundo externo.
     - Conhecimento comunal ou social das criações culturais, incluindo ficção, mitos, convenções, leis, história, etc
     - Conhecimento de um mundo físico externo, independente de uma mente.

Nos passos da mecânica quântica, interpreta-se que quando uma informação é armazenada em uma estrutura, seja no mundo, nos artefatos humanos, ou numa mente, dois processos físicos fundamentais ocorrem. O primeiro é um colapso de uma função de onda* da mecânica quântica. O segundo é uma diminuição local da entropia correspondente ao aumento da informação. A entropia que sobra deve ser transferida para longe para satisfazer a segunda lei da termodinâmica.

Estes processos de nível quântico são suscetíveis ao ruído. A informação armazenada pode ter erros. Quando a informação é recuperada, é novamente suscetíveis ao ruído, que pode adulterar o conteúdo da informação. Em ciência da informação, o ruído é geralmente o inimigo da informação. Mas um pouco de ruido pode criar liberdade, uma vez que é a fonte de novidades, de criatividade e invenção, e de variação no pool genético biológico.

Sistemas biológicos têm mantido e aumentado o seu conteúdo invariável de informação ao longo de bilhões de gerações. Nós (humanos) aumentamos nosso conhecimento do mundo exterior, apesar da incerteza lógica, matemática e física que persistem sobre ele. Ambos, sistemas biológicos e homens fazem-no em face do ruído aleatório, trazendo a ordem (ou cosmos) ao caos. Ambos fazem-no com a detecção de erros e o uso de esquemas sofisticados de correção que limitam os efeitos do acaso. O esquema que usamos para corrigir o conhecimento humano é a ciência, uma combinação de teorias livremente inventadas e experiências adequadamente determinadas.


*Na mecânica quântica, o colapso de uma função de onda (também chamado de colapso do vetor de estado ou redução do pacote de ondas) é o fenômeno em que uma função de onda inicialmente em uma superposição de vários diferentes possíveis eigenstates (valor próprio ou autovalor) - parece reduzir a um único dos estados após interação com um observador. Em termos simplificados, é a redução das possibilidades físicas em uma única possibilidade como pode ser vista por um observador. É um dos dois processos pelos quais os sistemas quânticos evoluem no tempo, de acordo com as leis da mecânica quântica como apresentados por John von Neumann.