quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Espírito do Ateísmo de André Comte-Sponville

O próximo livro na fila de minhas leituras é esse do André Comte-Sponville: O Espírito do Ateísmo. Vejamos a dedicatória do autor (tradução minha).
"Por que estou escrevendo este livro? Basicamente, por três razões. A primeira é que por um tempo muito longo eu estive interessado em espiritualidade, e eu quis mostrar que para ateus esta espiritualidade também é importante. Em outras palavras, seria errado pensar que a espiritualidade é para os crentes. Os ateus não se importam menos do que outros. Por que eles teriam menos de vida espiritual? A segunda razão é que eu queria combater o regresso do fundamentalismo,  do obscurantismo e do fanatismo. Terceiro motivo: Eu quis mostrar que nós podemos combater esse fanatismo sem cair no ódio anti-religioso. Eu queria mostrar que ser ateu, não é ter esse ódio da religião, que se trata apenas de viver diferentemente a espiritualidade a partir do ponto de vista de que o conflito não está entre os crentes e incrédulos. O conflito está entre os espíritos livres, mentes abertas, por um lado, tolerantes, acreditem em Deus ou não, e os fanáticos dogmáticos, de outro. Para fazer isso, escrevi três capítulos. O primeiro é intitulado: "Podemos viver sem religião?". O segundo é: "Deus existe?", onde explico por que, de minha parte, eu não acredito. São os meus principais argumentos em favor do ateísmo. Finalmente, o capítulo terceiro e último responde à pergunta: qual espiritualidade para os ateus? Bem, boa leitura, adeus e até breve."

1 comentários:

Assis Utsch disse...

Em O Espírito do Ateísmo, Comte-Sponville, apesar de ateu, é muito complacente com o Cristianismo, evocando aspectos da doutrina que ele considera dignificantes. Ele passa ao largo dos horrores que os Evangelhos oferecem, ainda que menos numerosos do que as milhares de atrocidades do Velho Testamento, que por sinal foi incorporado à doutrina cristã. Nos Evangelhos, no livro Romanos por exemplo está escrito: "A mim me pertence a vingança". (Rm 12.19) Nos livros de Mateus (10.35), João (2.4) e Lucas (14.26) há uma profusão de mensagens contrárias à família. De tal forma que Bertrand Russell enfatizou que a dissolução do laço biológico-familiar em nome da crença foi um dos fatores da intolerância perpetrada ao longo da história, nos milhares de conflitos de natureza religiosa. Esses mesmos Evangelhos têm outras crueldades, como por exemplo quando Mateus (13.49-50) diz que os injustos serão lançados na fornalha acesa e que ali haverá choro e ranger de dentes. Ainda em Mateus (10.34) está dito sobre Jesus: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada". Além de muitos outros versículos cruéis e obscurantistas, como por exemplo em 1Coríntios (1.19-20): "Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. ... Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?"
Comte-Sponville não fala também de outros males do cristianismo pre-reforma protestante, males que subsistem na maior parte do mundo católico, especialmente, o culto à pobreza, à servidão, à resignação e ao mesmo tempo um certo ódio à prosperidade, ao progresso, à ciência. São concepções que só muito ulteriormente vêm se alterando.
O autor não enfatiza também a crueldade dos cinco séculos de Inquisição, nem os três séculos das Cruzadas, nem as guerras papais e outros conflitos terríveis, tudo em nome do Deus Cristo e que persiste com o Deus Muçulmano e Outros.
Mas Comte-Sponville se compensa largamente nos textos que se seguem, onde ele desenvolve teses filosóficas que podem abalar até os mais crédulos. Ainda que ele afirme ser impossível provar a existência/inexistência de Deus, armadilha na qual todos parecem cair, ele segue em frente. Diríamos armadilha porque Deus é uma herança daqueles mesmos entes primitivos de cem mil anos atrás, quando o homem tornou-se Homo sapiens sapiens e criou os fetiches, totens, duendes, xamãs ou seus equivalentes, e que vierama sendo promovidos gradativamente a divindades, deuses e finalmente Deus. Como diz Umberto Eco, "Este homem, para encontrar coragem para esperar a morte, tornou-se forçosamente um animal religioso". Da mesma forma que o homem saiu das cavernas e chegou ao espaço sideral, as divindades foram também trazidas aos fóruns mais privilegiados. Assis Utsch (autor de O Garoto Que Queria Ser Deus)

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